Cotidiano

Deficiente visual dribla limitações e se forma em Medicina na UFRR

Projeto de conclusão de curso do jovem aborda a formação de médicos com deficiência visual e auditiva

O estudante de Medicina Samuel Felipe Ramires Franco, 28, apresenta na noite desta terça-feira, dia 29, seu trabalho de conclusão de curso na Universidade Federal de Roraima (UFRR). O que poderia ser considerado mais um fato cotidiano da vida acadêmica possui um diferencial: ele possui uma limitação visual.

Ainda no ensino médio, o estudante se apaixonou pela medicina ao visitar uma exposição do corpo humano e decidiu se aprofundar nos estudos relacionados à área. Em 2013, ele foi aprovado no vestibular, porém no terceiro ano do curso recebeu um diagnóstico que mudaria sua vida.

“Eu tenho hidrocefalia congênita e fiz a cirurgia de correção, onde você coloca a válvula, tira o líquido da cabeça e vai pra barriga. Em 2015 eu tinha 23 anos e comecei a ter episódios de dor de cabeça, dor no olho e vômito. Eu não associei à válvula porque nunca havia dado problema nela. Acho que depois de 15 a 20 dias, todos esses sintomas pararam e eu fiquei mais ou menos uma semana ou 10 dias sem nenhum, e depois começou a aparecer visão dupla e perda da visão. A partir daí eu me preocupei e fui procurar um médico, que diagnosticou ser um problema na válvula e precisava trocar”, relembra Samuel.

Atualmente, a UFRR possui 103 alunos que são PCD (Pessoa com Deficiência) matriculados, sendo Medicina, com 31 alunos, e Direito, com nove, os cursos que mais possuem acadêmicos com alguma deficiência.

O sonho de cursar a faculdade é compartilhado por muita gente, porém os desafios que se apresentam na caminhada até a entrega do diploma podem se tornar um pouco mais complexos para quem possui alguma deficiência, o que não foi diferente para Samuel.

“Assim que eu recebi o diagnóstico pelo meu oftalmologista, fiz uma reunião com a coordenação do curso e foi colocada a minha situação. A partir daí, começou uma série de situações que foram muito desgastantes para mim, mas venci uma coisa de cada vez”, destaca o estudante, que precisou mudar completamente a forma de estudar, passando a integrar o uso do tablet para ouvir a leitura de livros e apostilas por meio de aplicativos.

Toda a trajetória dentro da universidade influenciou diretamente na escolha do título da sua monografia, que se chama “As estratégias pedagógicas das escolas de saúde para a formação de médicos com deficiência visual e auditiva”. Samuel relata que, a princípio, pretendia trabalhar um tema também voltado à sua deficiência, mas relacionado ao paciente. Contudo, o conselho de um professor o fez mudar de ideia, apesar das dificuldades que enfrentou com a ausência de referencial teórico.

“Conversando com meu orientador, ele me perguntou por que eu não fazia o contrário e falava sobre a formação médica de pessoas com deficiência, porque é meu caso e eu teria muito a contribuir. Fiquei pensando e comecei a desenvolver o trabalho”, conta. 

DETERMINAÇÃO – Segundo Samuel, a partir do momento que recebeu o diagnóstico, ele passou por um período de luto que durou cerca de uma ou duas semanas, mas logo em seguida retornou à rotina. Agora, chegando ao fim desta parte da sua vida acadêmica, possui boas expectativas para o futuro. “A minha maior dificuldade realmente foi mostrar para as pessoas que eu consigo fazer as coisas. Muitas delas por desconhecimento ou medo, limitam muito as minhas ações por achar que eu posso cometer algum erro ou dano ao paciente, ou a mim mesmo. Além da realização profissional espero que minha história possa inspirar muitas pessoas, deficientes ou não, a sempre acreditarem que é possível e a sempre perseverar pelos seus sonhos”, finaliza. (VF)