JESSÉ SOUZA

O desafio da Casa de Governo vai além de retirar garimpeiros escavadores de buracos

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Onze ministros e outras autoridades participaram da inauguração da Casa de Governo, em Boa Vista (Foto: Lucas Leffa/SECOM/PR)

Corpo é encontrado no Anel Viário despido e com três tiros na cabeça. Polícia Civil deflagra operação para prender quadrilha especializada em fazer emboscada para roubar garimpeiros na estrada de Alto Alegre. Empresário investigado por garimpo ilegal na Terra Yanomami é preso no interior de São Paulo sob suspeita de participar de esquema de compra de R$166 milhões em cassiterita somente em 2021.

Acima estão relacionados assuntos de matérias que repercutiram nas últimas semanas antes de o Governo Federal oficializar a instalação da Casa de Governo, , em Boa Vista, nesta quinta-feira, 29, órgão que ficará responsável pelo enfrentamento à crise sanitária do povo Yanomami, o garimpo ilegal (que envolve ainda  desmatamento, crime organizado e a corrupção) e os impactos da migração em massa venezuelana.

A crise do povo Yanomami vai muito além de retirar garimpeiros invasores de terra indígena para extrair ilegalmente ouro e cassiterita. Há um grande esquema enraizado que envolve uma poderosa organização bem articulada no país, que financia as atividades e tem ligações com políticos e com o crime organizado, que por sua vez atua com tráfico de drogas, de armas e de pessoas dentro e fora das terras indígenas.

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A atuação de facções criminosas no garimpo ilegal reflete na criminalidade no Estado, cujas ações são sentidas a partir da guerra pela disputa de território em Boa Vista, com os corpos desovados nas cercanias da cidade resultantes de acertos de conta, envolvendo ainda a associação criminosa com uma facção venezuelana especialista em atuar no garimpo ilegal nas duas fronteiras.

Logo, o desafio da Casa de Governo é gigante, porque significa desratizar o Estado. E a desratização inclui a corrupção, em que a atuação criminosa vem lá de trás, com os esquemas montados a partir do grande volume de recursos da saúde indígena para a contração de aeronaves, aluguéis de carros e fornecimento de remédios pelos distritos sanitários, cujas indicações sempre estão nas mãos de políticos locais.

A propósito, o mês de janeiro encerrou com uma ação da Polícia Federal que encontrou medicamentos que seriam destinados à Terra Indígena Yanomami armazenados em uma casa no bairro São Francisco, remédios estes que tinham como remetente o Ministério da Saúde e com destino final o Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (Dsei-Y). Alguns dos remédios estavam vencidos e havia documentos queimados indicando eliminação de provas.

Não se trata de um fato isolado. Em 2018, um incêndio destruiu a sede do Distrito Sanitário Especial Indígena do Leste de Roraima, em Boa Vista, responsável pelo atendimento em saúde de quase 50 mil índios, com fortes indícios de que haveria interesse em eliminar documentos que estavam dentro do prédio. E tudo ficou por isso mesmo.

Até milícias fortemente armadas surgiram, com a participação de policiais militares, a exemplo do que ocorreu em setembro de 2022, quando um bando composto por três PMs (um deles morreu) invadiu uma propriedade na zona rural da Capital para tentar roubar um avião que dava apoio ao garimpo ilegal. O caso foi alvo de uma operação da Polícia Civil.

Como é possível notar, será uma missão difícil sufocar o garimpo ilegal a fim de devolver a paz e a saúde dos Yanomami, pois significa enfrentar forças poderosas com tentáculos na política, no meio empresarial em vários estados e nas entranhas do crime organizado que atual além fronteira. Os garimpeiros cooptados para escavar buracos e derrubar florestas são apenas uma pequena parte do grande esquema.

Prender gente de gravata ou com conta bancária milionária tem muitas implicações que fogem à compreensão dos simples mortais.

*Colunista

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