Estudos recentes mostram que a irritabilidade exagerada vai além do mau humor ocasional (Foto: Reprodução)
Estudos recentes mostram que a irritabilidade exagerada vai além do mau humor ocasional (Foto: Reprodução)

A irritação constante, explosões de raiva desproporcionais e a sensação de estar sempre “no limite” podem parecer apenas sinais de estresse do dia a dia. Mas, segundo pesquisadores da área de saúde mental, quando esse comportamento se torna frequente ou interfere na vida pessoal, profissional e social, pode ser um indicativo de que algo não vai bem com a saúde emocional.

Estudos recentes mostram que a irritabilidade exagerada vai além do mau humor ocasional. Definida como uma tendência excessiva à raiva diante de frustrações ou situações percebidas como ameaçadoras, ela pode se tornar um problema clínico quando provoca sofrimento intenso ou prejudica o funcionamento cotidiano.

Uma ampla pesquisa conduzida pelo psiquiatra Roy Perlis, do Massachusetts General Hospital, publicada em 2024 na revista Neuropsychopharmacology, revelou que níveis elevados de irritabilidade são tão comuns quanto queixas de ansiedade e depressão em atendimentos clínicos.

A ciência também tem buscado entender o que acontece no cérebro de pessoas mais irritáveis. Pesquisas indicam alterações em áreas relacionadas à recompensa e à percepção de ameaça, como o estriado e a amígdala, regiões envolvidas no controle emocional. Embora muitos desses estudos tenham sido realizados inicialmente com crianças e adolescentes, evidências sugerem que mecanismos semelhantes estão presentes em adultos com irritação intensa e persistente.

A irritabilidade frequente também aparece associada a diversos transtornos mentais, como depressão, ansiedade, transtorno bipolar e TDAH, além de condições ligadas a alterações hormonais, como o transtorno disfórico pré-menstrual.

Um dado que chama atenção é que, de acordo com estudo publicado em 2020 na Neuropsychopharmacology, a irritação constante pode funcionar como um fator de risco importante para o agravamento do sofrimento psíquico, servindo como um sinal de alerta precoce para profissionais de saúde.

Especialistas ressaltam que nem toda pessoa irritada tem um transtorno mental. Fatores como privação de sono, estresse crônico, dor, fome, solidão ou uso excessivo de redes sociais também podem intensificar esse estado emocional. Ainda assim, quando a pessoa percebe arrependimento frequente após explosões de raiva, conflitos constantes ou dificuldade de concentração causada pela irritação, é recomendado buscar avaliação profissional.

O tratamento varia conforme a causa, mas pode incluir psicoterapia, especialmente a terapia cognitivo-comportamental, e, em alguns casos, uso de medicamentos. Pesquisas mostram que tratar condições associadas, como depressão, pode reduzir significativamente a irritabilidade. Estratégias simples de autoconsciência, como reconhecer sinais físicos de tensão e aprender técnicas de respiração, também têm mostrado resultados positivos.

Para os especialistas, o recado é claro: sentir irritação faz parte da experiência humana, mas viver dominado por ela não deve ser normalizado. A irritabilidade excessiva não é falha de caráter, e sim um possível sinal de que a saúde mental precisa de atenção. Reconhecer isso é o primeiro passo para cuidar melhor do próprio bem-estar.