O Comandante passa por Boa Vista (Fotos: Wenderson Cabral/FolhaBV e Divulgação)
O Comandante passa por Boa Vista (Fotos: Wenderson Cabral/FolhaBV e Divulgação)

Depois de atravessar cinco continentes em 45 dias, o piloto Mário Jorge passou por Boa Vista, porta de entrada do Brasil, na sexta-feira (16). No sábado (17), ele seguiu viagem para Campo Grande (MS), onde mora, após passar o Natal e o Ano Novo fora do País.

No entanto, mais do que a jornada aérea, foi a capital de Roraima que chamou a atenção do piloto, conhecido como O Comandante no Instagram, onde reúne atualmente 474 mil seguidores.

“Eu adoro essa cidade. Boa Vista é, cara… eu chego aqui e já me sinto em casa, né? Vamos dizer assim, é uma pré-casa minha chegar em Boa Vista”, afirmou em entrevista à Folha BV.

Segundo ele, a cidade impressiona já na aproximação para o pouso. “Eu sempre peço uma passada na cidade antes. Toda vez. Eu sempre sobrevoo a cidade”, contou.

Do alto, Mário destaca a vista do Rio Branco, a Ponte dos Macuxi, o Parque do Rio Branco e o Mirante Edileusa Lóz.

“Eu gosto muito da região do rio. Da região do rio que tem a ponte bem longa ali, tem uns parques bem na beira do rio ali, tem aquele Mirante ali”, descreveu.

Além disso, ele se encanta com o desenho urbano da capital, arquitetado nos anos 40 pelo engenheiro civil carioca Darcy Aleixo Derenusson (1916-2002).

“Tem o centro da cidade, que as ruas se encontram num círculo bem grande ali, que parece bem planejado. Aquilo ali me encanta muito e eu sempre sobrevoo aquela região”, disse.

Para o piloto, do alto, dá para avistar Boa Vista como uma cidade limpa e organizada. O carinho dele pela capital de Roraima é tanto que ele não esconde o desejo de morar no Município.

“Se eu ganhasse um terreno eu mudava para Boa Vista! Porque essa cidade é maravilhosa”, declarou.

Mário chegou a Roraima pilotando um monomotor da fabricante Cirrus, modelo SR22, capaz de chegar a 320 quilômetros por hora. A aeronave transporta até cinco pessoas, sendo um piloto e três passageiros. Ademais, o avião tem um sistema de paraquedas.

Do sonho à aviação profissional

Natural de Aquidauana (MS) e morador de Campo Grande, Mário tem 33 anos e diz que sempre quis ser piloto, mesmo sem referência familiar.

“Desde que eu me entendo por gente, que eu lembro do que eu fazia lá atrás, eu sei que eu falava que eu ia ser piloto”, contou.

Ele iniciou a formação aos 18 anos e obteve a carteira de piloto antes da habilitação para dirigir. Porém, o início da carreira foi marcado por dificuldades.

“Eu fui, de fato, ingressar no mercado de trabalho com 26 anos de idade. Então esse período todo, essa lacuna, eu realmente fiquei desempregado”, relatou.

Segundo ele, a falta de experiência pesa para quem está começando. “Eles falam: ‘Está faltando piloto’. Qualificado, com experiência. Mas porque eles tentam vender um sonho”, afirmou.

A primeira oportunidade veio como piloto de um político, voando em pistas curtas e desafiadoras. “Foi uma escola gigantesca para mim”, resumiu.

Voando o mundo para transportar aviões

Hoje, Mário, com experiência de mais de três mil horas de voo, trabalha exclusivamente com traslado de aeronaves compradas no exterior.

“Basicamente uma pessoa compra um avião no exterior e ela tem que chegar no Brasil de algum jeito. Esse jeito é voando”, explicou.

Ele já buscou aviões em países como Estados Unidos, Canadá, Suíça, África do Sul e Austrália. Ao todo, estima ter passado por cerca de 36 a 37 países.

Além disso, ele planeja um projeto próprio de volta ao mundo, com produção de conteúdo digital.

“Eu quero mostrar o mundo para o Brasil e o Brasil para o mundo”, disse.

Riscos, medos e decisões no ar

Nem tudo são paisagens bonitas. Em algumas rotas, Mário enfrentou situações delicadas.

No Paquistão, por exemplo, perdeu todos os sistemas de navegação. “Eu perdi todo o meu GPS. Todos. Fiquei, entre aspas, voando às cegas, mas com a bússola”, relatou.

Também voou próximo ao espaço aéreo do Irã e sobre regiões em conflito, como o Sudão.

O momento mais tenso, porém, ocorreu na Groenlândia. “Foi a única vez que eu fiz uma decisão sem estar 100% seguro”, admitiu.

Durante uma travessia sobre o mar congelado, enfrentou chuva intensa e risco de congelamento da aeronave. “Ali eu rezava realmente para não congelar”, contou.

Em contrapartida, uma das experiências mais marcantes foi o sobrevoo das pirâmides do Egito.

“Foi surreal, cara. Ver aquilo, pensar na história… aquilo foi demais”, disse.

Família como base

Apesar da rotina intensa, Mário mantém forte ligação com a família. Ele é casado e tem uma filha de dois anos e meio. “É por elas que eu faço o que eu faço hoje”, afirmou.

Ele destaca que o apoio da esposa é fundamental para lidar com as ausências. “Isso me dá muita força para sair, para buscar mais”, disse.

Recado para quem sonha em voar

Ao falar com quem deseja entrar na aviação, Mário é direto.

“A aviação é mágica. Ela é um trabalho fora da curva”, afirmou.

No entanto, ele reforça que o relacionamento é decisivo. “Faça relacionamento. Isso com certeza te abre portas na aviação”, aconselhou.

Além disso, ele deixa um alerta para quem enfrenta dificuldades no começo. “Não desista. Parece que nunca vai dar certo, mas vai dar certo”, concluiu.