
Pessoas com daltonismo, condição que afeta a percepção das cores, podem enfrentar um risco silencioso quando o assunto é saúde. Um estudo publicado na revista científica Nature Health chama atenção para um ponto pouco discutido: a dificuldade de identificar sangue na urina, um dos principais sinais iniciais do câncer de bexiga, o que pode atrasar o diagnóstico e comprometer a sobrevida dos pacientes.
A pesquisa intitulada Impact of colour vision deficiency on bladder and colorectal cancer survival, conduzida por Mustafa Fattah, Amer F. Alsoudi, Prithvi Mruthyunjaya e Ehsan Rahimy, foi publicada em janeiro de 2025 na Nature Health. O estudo analisou dados de prontuários eletrônicos de saúde e comparou pacientes com e sem deficiência de visão de cores, avaliando os impactos dessa condição nos desfechos de câncer de bexiga e colorretal.
O câncer de bexiga costuma se manifestar principalmente por meio da presença de sangue visível na urina, muitas vezes sem dor ou outros sintomas associados. Para a maioria das pessoas, esse sinal funciona como um alerta imediato para buscar atendimento médico. No entanto, para quem tem daltonismo, especialmente dificuldade em distinguir tons de vermelho, o sangue pode passar despercebido ou ser confundido com alterações consideradas normais da urina, o que pode retardar a procura por avaliação médica.
Os resultados do estudo indicaram que pacientes com câncer de bexiga e daltonismo apresentaram menor probabilidade de sobrevivência quando comparados a pacientes com câncer de bexiga sem deficiência de visão de cores. Em uma análise de longo prazo, o risco de mortalidade em até 20 anos foi significativamente maior entre pessoas com daltonismo, mesmo após o controle de fatores como idade, sexo e doenças associadas.
Segundo os pesquisadores, esse impacto não foi observado entre pacientes com câncer colorretal, possivelmente porque esse tipo de câncer costuma apresentar outros sintomas além do sangramento, como dor abdominal, alteração do hábito intestinal e perda de peso. Além disso, o câncer colorretal conta com programas de rastreamento populacional, o que reduz a dependência da percepção visual do sangue como principal sinal de alerta.
O estudo não aponta o daltonismo como causa do câncer, mas reforça que a condição pode dificultar a identificação de sinais precoces da doença. Para pessoas com deficiência de visão de cores, a orientação é ficar atentas a qualquer alteração persistente na urina, como escurecimento incomum, turvação ou mudanças frequentes de aspecto, e procurar atendimento médico sempre que houver dúvida.
Os autores também destacam que o daltonismo ainda é pouco considerado na prática clínica como um fator que pode contribuir para atrasos no diagnóstico. A expectativa é que os resultados ampliem o olhar dos profissionais de saúde e incentivem abordagens mais atentas para pacientes com deficiência na percepção de cores.
A principal mensagem da pesquisa é que nem todos percebem os sinais do corpo da mesma forma, e reconhecer essas diferenças pode ser fundamental para o diagnóstico precoce e a preservação da vida.