Olfato adulterado pode passar despercebido após covid (Foto - Reprodução)
Olfato adulterado pode passar despercebido após covid (Foto - Reprodução)

A dificuldade para sentir cheiros após a COVID-19, que muitos acreditavam ser um sintoma passageiro, pode durar muito mais tempo. O mais preocupante é que o problema pode passar despercebido por muitas pessoas. Estudos recentes indicam que alterações no olfato podem persistir por anos após a infecção, mesmo em pessoas que consideram o problema resolvido no dia a dia.

Uma pesquisa publicada na JAMA Network Open revelou que a maioria das pessoas que relata perda ou alteração do olfato após a COVID realmente apresenta desempenho abaixo do esperado quando submetida a testes específicos. O estudo faz parte da iniciativa RECOVER, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), criada para investigar os efeitos de longo prazo da chamada COVID longa.

Os pesquisadores aplicaram um teste padronizado de identificação de odores em mais de 3 mil participantes. Cerca de dois anos após a infecção, 80% das pessoas que diziam ter algum grau de alteração no olfato apresentaram dificuldade real para reconhecer cheiros comuns, como limão, chiclete ou produtos químicos leves. Em média, esses participantes ficaram no 16º percentil para sua faixa etária e sexo, um desempenho considerado baixo pelos especialistas.

O estudo também chamou atenção para um aspecto menos perceptível do problema: muitas pessoas não se dão conta da perda de olfato. Entre os participantes que acreditavam estar com o olfato normal, uma parcela significativa também apresentou dificuldades no teste, o que sugere que o comprometimento pode passar despercebido por longos períodos.

Embora frequentemente subestimada, a perda de olfato pode ter impactos importantes na saúde e na segurança. A dificuldade para identificar cheiro de gás, alimentos estragados ou fumaça aumenta riscos domésticos, além de interferir no prazer de comer e na qualidade de vida.

Do ponto de vista clínico, o diagnóstico é relevante porque a perda de olfato também pode estar associada a alterações neurológicas e, em alguns casos, é considerada um possível sinal precoce de doenças neurodegenerativas.

Especialistas destacam que tratamentos para recuperação do olfato, como o treinamento olfativo, técnica que estimula o cérebro a reaprender a reconhecer cheiros, ainda estão em desenvolvimento, mas tendem a ser mais eficazes quando iniciados precocemente. Por isso, reconhecer o problema e buscar avaliação médica pode fazer diferença.

Os autores do estudo afirmam que ainda não é possível determinar por quanto tempo essas alterações vão durar nem se o olfato pode se recuperar completamente em todos os casos. A equipe segue acompanhando os participantes ao longo do tempo para entender a evolução do quadro e possíveis associações com outros sintomas persistentes da COVID-19.

As evidências reforçam que a COVID longa vai além do cansaço e das dificuldades respiratórias. Alterações sensoriais, como a perda de olfato, podem se manter silenciosamente por anos e merecem atenção tanto da população quanto dos serviços de saúde.