No campo do comportamento social, o cansaço passou a funcionar como um tipo de capital simbólico (Foto Divulgação)
No campo do comportamento social, o cansaço passou a funcionar como um tipo de capital simbólico (Foto Divulgação)

Em uma sociedade que valoriza a produtividade acima de tudo, estar ocupado deixou de ser apenas uma condição do cotidiano para se tornar um símbolo de sucesso. Frases como “não tenho tempo”, “estou exausto” ou “minha agenda está lotada” passaram a funcionar quase como credenciais sociais, sinalizando importância, relevância e comprometimento profissional. Mas especialistas alertam: essa lógica pode ser enganosa — e prejudicial.

A chamada cultura do “sempre ocupado” se fortaleceu com o avanço da tecnologia, a popularização do trabalho remoto e a hiperconectividade. Smartphones, e-mails e aplicativos de mensagens ampliaram a jornada de trabalho para além do horário formal, tornando a disponibilidade constante uma expectativa implícita. O resultado é um cenário em que descansar gera culpa e o cansaço vira motivo de orgulho.
Quando estar ocupado não significa ser produtivo

Apesar da associação frequente entre agenda cheia e alto desempenho, pesquisadores apontam que estar ocupado não é sinônimo de produtividade. Muitas horas de trabalho podem ser consumidas por reuniões pouco eficazes, excesso de burocracia, retrabalho e distrações digitais.

O autor e professor Cal Newport, no livro “Deep Work: Regras para o Foco em um Mundo Distraído”, defende que a produtividade real está ligada à capacidade de concentração profunda em tarefas cognitivamente relevantes. Segundo ele, a cultura da ocupação constante favorece atividades superficiais — como responder mensagens e participar de reuniões intermináveis — que dão a sensação de trabalho, mas geram pouco impacto concreto.

Já o livro “A Grande Mentira da Produtividade”, de André Molero, questiona a lógica de que produzir mais significa trabalhar mais horas. A obra aponta que a obsessão por desempenho contínuo ignora limites humanos e contribui para um ciclo de exaustão, queda de criatividade e perda de sentido no trabalho.

Impactos na saúde mental e física
Os efeitos dessa cultura vão além do ambiente corporativo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional, caracterizado por exaustão emocional, distanciamento mental do trabalho e redução da eficácia profissional. A pressão constante por desempenho, aliada à falta de descanso, aumenta os riscos de ansiedade, depressão, distúrbios do sono e problemas cardiovasculares.

Para a socióloga alemã Byung-Chul Han, autora de “Sociedade do Cansaço”, o excesso de positividade e autoexploração transforma o indivíduo em seu próprio algoz. Diferentemente de modelos antigos de opressão, hoje as pessoas se cobram espontaneamente para produzir mais, sem perceber que estão adoecendo nesse processo.

O cansaço como capital simbólico
No campo do comportamento social, o cansaço passou a funcionar como um tipo de capital simbólico. Demonstrar exaustão pode significar comprometimento, ambição e até sucesso financeiro. Ao mesmo tempo, quem desacelera corre o risco de ser visto como improdutivo ou desinteressado, reforçando um ciclo coletivo difícil de romper.

Essa lógica também afeta as novas gerações, que entram no mercado de trabalho já imersas em discursos de alta performance, “hustle culture” e empreendedorismo extremo, muitas vezes sem espaço para aprender sobre limites, pausas e equilíbrio.
Caminhos para romper o ciclo

Especialistas defendem que repensar a relação com o tempo é essencial. Estabelecer limites claros entre trabalho e vida pessoal, valorizar o descanso e aprender a priorizar tarefas realmente importantes são passos fundamentais. Ferramentas como a Matriz de Eisenhower, que classifica atividades por urgência e importância, ajudam a reduzir a sensação de sobrecarga.

Mais do que estar sempre ocupado, a produtividade sustentável está ligada à capacidade de gerar impacto com consciência, saúde e propósito. Em um mundo cansado, talvez o verdadeiro status esteja em conseguir parar.