
“Representa um divisor de águas”, avalia o cientista político Paulo Racoski sobre a retirada do presidente venezuelano Nicolás Maduro do poder, ocorrida no último sábado (3), após uma ação militar dos Estados Unidos. Segundo o especialista, a mudança no cenário pode provocar instabilidade política, aumentar a migração, pressionar serviços públicos e a economia de Roraima, principal porta de entrada da Venezuela no Brasil.
Para o cientista, Roraima já começou a sentir os reflexos da crise. Um dos principais impactos está no fluxo migratório, que tende a aumentar em caso de agravamento da instabilidade. “Imagens já mostram pessoas retornando ou atravessando a fronteira com malas. Ainda é um fluxo pequeno, mas pode crescer rapidamente”, disse.
Paulo Racoski relembra que, nos últimos anos, milhares de venezuelanos já passaram pela fronteira roraimense, o que impactou diretamente áreas como saúde, educação, assistência social e mercado de trabalho.
O especialista destaca que há uma percepção equivocada, fora da Venezuela, de que a queda de um líder resolveria automaticamente a crise do país. Para ele, a situação venezuelana é resultado de um processo histórico marcado por disputas internas, bloqueios econômicos internacionais e problemas de gestão acumulados ao longo de mais de duas décadas.

Economia e Turismo ameaçados
Outro ponto destacado é o impacto econômico. Roraima tem ampliado a venda de produtos, especialmente alimentos, para a Venezuela, além de movimentar o turismo internacional, com destinos como a Gran Sabana e o Monte Roraima. Segundo ele, turistas costumam evitar zonas de conflito.
“A instabilidade político militar afasta turistas e pode gerar desemprego em setores ligados ao comércio e ao turismo”, afirma Paulo.
Risco de Escalada Militar
O sociólogo avalia que, até o momento, não há indicativos de um colapso imediato do Estado venezuelano, mas alerta para o risco de uma escalada militar caso ocorram novos ataques dos Estados Unidos. “Se houver bombardeios a bases militares e instalações estratégicas, aí sim o cenário pode se transformar em um caos total, típico de uma guerra”, afirma.
Mesmo sem ataques diretos, o cientista político aponta que a população já vive um ambiente de forte insegurança, marcado pelo que ele define como “guerra psicológica”, com excesso de informações contraditórias, fake news e clima de medo.
Estado vulnerável e pressão por Recursos Federais
No cenário político, o especialista avalia que Roraima permanece em uma posição vulnerável e historicamente negligenciada. “É um estado esquecido entre os 27 entes federados. Se houver uma nova onda migratória, será necessário ampliar recursos federais para garantir estabilidade social e orçamentária”, alerta.
Para o cientista político, governadores, prefeitos, deputados e senadores precisam pressionar o Governo Federal para reforçar o orçamento e evitar um colapso nos serviços públicos caso a crise venezuelana se agrave.
Cenário Indefinido
Paulo Racoski ressalta que as próximas 72 horas serão decisivas para entender se haverá negociações políticas, novas eleições ou conflitos radicais. “Tudo ainda está em desenvolvimento. O que é certo é que qualquer agravamento terá reflexos diretos na nossa linha de fronteira”, concluiu.