Encerramos janeiro, primeiro mês do ano. É fevereiro: mês da alegria, da esbórnia, da carne, das festas momescas. Foi ontem, em que a dúvida era saber qual a roupa vestir para a virada do ano; quase ninguém mais lembra que roupa usou no réveillon. Muitos fizeram planos de futuro, na esperança de um 2026 melhor. Deus criou o tempo, os homens inverteram o calendário, na vã esperança de cronometrar o tempo. Mudou o ano, mas tudo continua igual.
Somos escravo das horas; cada dia estamos cada vez mais açambarcados de afazeres, coisas que elegemos como prementes. As tecnologias nos tornam mais ansiosos. Nunca teremos tempo para tudo.
Esses dias vi uma frase fabulosa: “Sabe qual a diferença entre tempo e dinheiro?”. Sabemos quanto dinheiro temos. O tempo, não. O tempo ė o único ativo que gastamos sem termos ideia de quanto nos resta. E, por isso, ele escape tão facilmente entre compromissos, silêncios e desejos adiados. Erroneamente, achamos que temos tempo de sobra: de ligar, de voltar, de recomeçar……a verdade que nunca saberemos quanto tempo temos pela frente. A ninguém foi dada o conhecimento de quanto tempo nos resta, e isso torna a vida fascinante, bela e surpreendente. A passagem do tempo ė silenciosa, e não avisa ninguém quando acaba. Ele só vai diminuindo, de forma quase imperceptível, enquanto seguimos ocupados demais. O tempo não dá macha ré, só anda para frente.
E, um belo dia, talvez tarde demais, percebemos que o tempo era o bem mais precioso que tínhamos. Que cada momento vivido e vivenciado: um café na companhia de amigos, uma mesa de bar, a cama com a pessoa amada, cada abraço que deixamos, eram momentos únicos e inesquecíveis, que não voltam mais. O tempo é hoje, agora, onde se esteja, para viver intensamente. Por isso, se hoje você não tem tempo para realização de pequenos desejos, pare tudo e encontre-o. Aprenda a usar o tempo com sabedoria, de preferência com pessoas que somem, de boa energia, que lhe escute, goste de sua companhia e lhe respeite.
O tempo urge, segue seu curso, impávido, sem prestar contas a ninguém. Aprendi com a vida que a coisa mais importante da vida ė o tempo da existência.
Vejo no meu entorno todos com pressa, muitas das vezes inócuas, deixando o melhor da vida. A pressa contemporânea não é apenas um traço comportamental, é um sintoma psíquico profundo. Corre-se não porque o tempo falta, mas porque sentir exige uma pausa que muitos já não suportam. A aceleração tornou-se uma estratégia defensiva, um modo eficaz de escapar da realidade. Quando tudo se move rápido demais, nada se aprofunda, e quando nada se aprofunda, a dor permanece difusa, mas silenciosa.
Correr tornou-se sinônimo de importância. Quanto mais acelerada a agenda, mais legitimada parece a existência. A lentidão, por outro lado, passou a ser confundida com fracasso, improdutividade ou fraqueza. No entanto, é justamente na lentidão que o humano se revela, pois sentir requer tempo, e pensar exige demora. A pressa, ao contrário, dissolve a experiência antes que ela se transforme em consciência.
Há uma dimensão psicológica clara nesse fenômeno. A aceleração contínua impede o processamento emocional. Não se elabora o luto, não se digere a frustração, não se escuta o próprio medo. Tudo é substituído por tarefas, metas, notificações. O sofrimento não desaparece, apenas se desloca, retorna como ansiedade crônica, irritabilidade difusa, cansaço sem causa aparente. O corpo começa a dizer aquilo que a mente não teve tempo de escutar.
Em tempos de correria, luxo, mesmo, ė ter tempo para realizar desejos.
Luiz Thadeu Nunes e Silva
Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”.
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