Walber Aguiar*

O igarapé é doce

A instituição amarga

Ai, antes fosse

Mais leve a carga…

                                                                                                Drummond

Igarapé significa caminho de canoa. Mas, onde andavam canoas e crianças tomavam banho, onde mulheres lavavam roupa, onde homens de força e caráter criavam gado, agora jaz no esquecimento. O que resta é o retrato do descaso e da degradação dos  igarapés, da riqueza que corria embalado pela mata ciliar e pela sensibilidade dos poetas.

A destruição do Igarapé Pricumã , que fica em Boa Vista, Roraima, é mais uma história da omissão das autoridades municipais, da ação de tais autoridades que promovem a destruição dos mananciais de Boa Vista, destruindo com a construção de galerias os igarapés Mirandinha, Caxangá, Mecejana, Caetano e Raimundo, só pra citar alguns.

Segundo o professor em geologia da UFRR, Vladmir Sousa, os sete grandes igarapés são Caranã, Caxangá, Pricumã, Grande, Paca e Mirandinha. A intervenção do homem que mais agride, não obstante a poluição causada pelos moradores das margens destes, é a canalização dos mesmos, pois retira toda a mata ciliar e o igarapé vira um esgoto, pois retifica o canal e as águas correm mais rápido. Isso prejudica a dinâmica fluvial do igarapé, extinguindo o habitat dos peixes, predadores naturais de larvas de mosquitos, como da dengue e malária, destruindo também a flora e a fauna.

Segundo o professor Williams Rodrigues da Silva, morador do bairro Cinturão Verde e apreciador das tardes nostálgicas às margens do igarapé do Pricumã, na área urbana, zona oeste, está praticamente morto, pois arrancaram a mata ciliar, sepultando na clareira da modernidade, do “progresso” urbano municipal, que passa ao longo da zona oeste, nos bairros Pricumã, Asa Branca, Cinturão Verde, Jóquei Clube e outros.

Infelizmente, a ação das políticas ambientais do município não leva em consideração os mananciais e a preservação de árvores, sejam oitis, sumaúmas, só pra citar alguns descasos com a vida e seus desdobramentos naturais. Inclusive de centros espíritas, que se dizem detentores do transcendente, sem considerar a vida de três sumaúmas centenárias que ficam no bairro Asa Branca.

Assim, o igarapé do Pricumã, segundo o professor do bairro Cinturão Verde, experimentou a degradação pela urbanização desordenada, de gente sem consciência ambiental, que lança esgoto e lixo doméstico nos mananciais. Ainda a construção de galerias,  o concretamento, contribui para a inundação, perda da biodiversidade e até da depreciação da saúde pública, pois torna-se foco de doenças e poluição.

Drummond continua atualíssimo ao defender os rios e igarapés como caminhos de canoas, que “vão sumindo de vista como se fossem pessoas”, no entender do poeta Eliakin Rufino…

*Poeta, advogado, Professor de filosofia, historiador, Mestre em Letras, membro da Academia Roraimense de Letras e da Academia de Letras Arte e Cultura da Amazônia.