*André Naves
Sempre que a rotina me leva a descer as rampas da estação Santa Cecília, ali na Linha Vermelha, sou convidado a uma pausa involuntária. Antes de ser engolido na corrida subterrânea, meus olhos sempre descansam nos versos de Cassiano Ricardo estampados na parede.
É a poesia “Café Expresso”.
É ali que o poeta, joseense como eu, enxergou, com a sensibilidade da alma caipira, a essência sanguínea de São Paulo. Ele fala dessa injeção de ânimo, desse ouro negro que é a alma da nossa cidade e nos faz, dia após dia, trabalhadores corajosos e disciplinados.
Cassiano mostra como aqui, nesse território de concreto e garoa, construiu-se uma ética popular: a disciplina do trabalho e da diversão.
Nas mesmas rampas, a gente ainda pode ver “O Violeiro” de Almeida Júnior e “Operários” da Tarsila do Amaral. Homogeneidade de uma massa operária? Pelo contrário! É um milagre sociológico só possível na diversidade de São Paulo!
Já pensou em quem tá naquele corre? Quem passa por ali? O executivo da Avenida Paulista, a estudante da periferia, o migrante nordestino, o imigrante boliviano, o refugiado sírio, o judeu, o herdeiro de quatrocentões, o filho de operários…
Origens sociais, regionais, étnicas e raciais que, em qualquer outro lugar do mundo, significariam segregação, mas que aqui se unem num propósito comum: a disposição para o fazer.
Mas a gente não pode pensar só no trabalho! Claro que ele é importante! Mas o que faz desta cidade uma potência de Inovação não é o suor, é a mistura.
Adoro pensar na etimologia das palavras… É com ela que a gente enxerga a alma das letras. Sabia que tem uma raiz que une “Diversidade” e “Diversão”? As duas carregam essa ideia de “viração”, de mudar de direção, de encontrar novos caminhos.
A “viração” é aquele jeito tão brasileiro — e tão paulistano — de se adaptar, de sobreviver, de inventar saídas onde só parecia haver muros.
Essa é a verdadeira riqueza de São Paulo!
A Criatividade — tão valiosa para o empreendedorismo e para a inovação social — não nasce da uniformidade. Ela brota do atrito, do encontro, da multiplicidade. É na pluralidade de ideias, no choque entre a sabedoria caipira e a tecnologia de ponta, entre o rap da quebrada e a orquestra sinfônica, que a Inovação acontece.
Mas para criar, não basta ser diverso; é preciso também “di-verter”. É preciso o tempo da pausa, o tempo do café não como estimulante para produzir mais, mas como momento de reflexão.
É a diversão — o desvio da rota obrigatória — que permite à mente respirar e conectar pontos distantes. Sem esse “tempo de viração”, sem essa ludicidade, seríamos apenas engrenagens. Com ela, somos criadores.
Portanto, neste 25 de janeiro, gostaria de parabenizar São Paulo com a síntese das rampas de Santa Cecília!
Que continuemos sendo a terra da Disciplina e do Trabalho, sim, pois isso forjou nosso caráter pioneiro, pujante e resiliente. Mas que sejamos, acima de tudo, a Terra da Diversidade e da Diversão. Porque somente onde o trabalho encontra a pausa e onde o diferente encontra o semelhante, que floresce a verdadeira vocação desta cidade: a Criatividade.
Parabéns, São Paulo! Que sua beleza continue sendo a capacidade de enxergar no caos a semente do novo!
(*) André Naves – Defensor Público Federal. Especialista em Direitos Humanos e Sociais, Inclusão Social e em Economia Política. Saiba mais em www.andrenaves.com/ Instagram: @andrenaves.def