
Meu banco digital corre perigo? Esse é o questionamento de muitos consumidores após a liquidação extrajudicial do banco Will. O caso trouxe insegurança para quem utiliza bancos digitais e fintechs e levantou dúvidas sobre riscos, garantias e sobre as diferenças entre os tipos de instituições financeiras que operam no país.
Segundo o economista e planejador financeiro Adriel Oliveira Bento, o fato de uma instituição ser digital não significa, necessariamente, que ela seja menos segura. “Se a resposta fosse apenas ‘sim’ ou ‘não’, a resposta correta seria não. Ser banco digital ou tradicional, por si só, não define o nível de segurança de uma instituição financeira”, explicou.

De acordo com ele, o que realmente importa são fatores como estrutura de capital, qualidade da gestão, controles internos e conformidade regulatória. “Esses pontos indicam a capacidade do banco de absorver perdas, evitar falhas operacionais e cumprir as exigências do órgão regulador”, afirmou.
No caso do Will Bank, a liquidação ocorreu em razão de problemas específicos de gestão, insolvência e descumprimento de obrigações operacionais. “A crise se intensificou após o colapso do Banco Master, grupo controlador da instituição. O Banco Central identificou falhas relevantes, inclusive na liquidação financeira com a bandeira Mastercard, o que levou à decretação da liquidação extrajudicial”, detalhou o economista. A medida foi adotada pelo Banco Central do Brasil para conter riscos ao sistema financeiro.
Qual a diferença entre banco digital, fintech e instituição de pagamento
Embora esses termos sejam usados de forma semelhante no cotidiano, eles representam modelos distintos. Bancos digitais são bancos autorizados pelo Banco Central que operam majoritariamente por canais digitais e estão sujeitos às mesmas regras prudenciais aplicadas aos bancos tradicionais. Exemplos desse modelo são Nubank, Banco Inter e C6 Bank.
“Existem hoje bancos digitais entre os mais sólidos do sistema financeiro. O ponto central é que todos, digitais ou tradicionais, precisam manter capital adequado, boa governança e conformidade regulatória para garantir a segurança do consumidor”, ressaltou Adriel Bento. Dependendo da classificação e do produto ofertado, essas instituições podem ter cobertura do Fundo Garantidor de Créditos.
Fintech é um conceito mais amplo e se refere a empresas que utilizam tecnologia para oferecer serviços financeiros, como crédito, investimentos ou meios de pagamento. “Algumas fintechs são instituições financeiras reguladas e outras funcionam apenas como plataformas tecnológicas. Por isso, não dá para colocar todas no mesmo pacote quando se fala em risco”, explicou o economista.
Já as instituições de pagamento não são bancos. Elas prestam serviços voltados à movimentação de recursos e pagamentos, sem captar depósitos da mesma forma que uma instituição bancária. Exemplos são PicPay, PagSeguro e Stone. “Nesses casos, não há cobertura automática do FGC, ainda que alguns produtos possam ter garantia quando oferecidos em parceria com bancos”, pontuou.
Quando o dinheiro está protegido pelo FGC
Outro ponto que gera confusão é a atuação do Fundo Garantidor de Créditos. Segundo Adriel Bento, a proteção do FGC não depende apenas da instituição, mas do produto financeiro em que o dinheiro está aplicado.
Estão cobertos pelo FGC, até o limite de R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição ou conglomerado, produtos como depósitos em conta corrente, poupança, CDB, RDB, LCI e LCA. Fundos de investimento, ações, previdência privada, criptomoedas e outros ativos de renda variável não contam com essa proteção. No caso do Tesouro Direto, a garantia é do próprio Governo Federal.
O que acontece com o dinheiro do cliente em uma liquidação
Quando uma instituição entra em liquidação extrajudicial, as operações são interrompidas. Contas, Pix, cartões e transferências ficam suspensos, assim como depósitos automáticos, como salários.
Os valores aplicados em produtos cobertos pelo FGC entram no processo de ressarcimento, coordenado por um liquidante nomeado pelo Banco Central. “Normalmente o pagamento começa em algumas semanas, mas, em cenários mais complexos, pode levar meses. No caso do Will, a proximidade com o episódio do Banco Master tende a alongar esse prazo”, afirmou o economista.
Valores acima do teto de garantia seguem a ordem legal de pagamento e dependem da existência de recursos ao final do processo de liquidação.
Sistema financeiro segue operando, mas exige atenção
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Para Adriel Bento, o episódio não indica uma falha do sistema financeiro. “A regulação funcionou. O Banco Central interveio ao constatar risco financeiro e insolvência, evitando que o problema se espalhasse para outras instituições”, avaliou. Ainda assim, ele destaca que o avanço das inovações financeiras exige vigilância constante, especialmente em instituições menores ou com modelos de negócio mais arriscados.
Dicas para quem usa banco digital e fintech
Diante do cenário, a principal recomendação é manter a calma e buscar informação antes de tomar qualquer decisão. Verificar se a instituição é autorizada pelo Banco Central, confirmar se os produtos têm cobertura do FGC e evitar concentrar todos os recursos em uma única instituição estão entre os cuidados básicos.
Segundo o especialista, a diversificação e o planejamento financeiro continuam sendo as formas mais eficazes de reduzir riscos e proteger o patrimônio do consumidor.