
Aos 31 anos, a motogirl, mototaxista e garçonete Izamara Galé vive em uma corrida diária para fechar as contas. Mãe de duas meninas, ela concilia jornadas longas entre entregas, corridas de moto e atendimento em restaurante. Mesmo assim, o dinheiro mal cobre aluguel, alimentação e combustível.
“Não consigo guardar nada. Trabalho pra ganhar no dia a dia”, relatou.
E para piorar, ela não tem rede de apoio familiar em Boa Vista. Antes, precisou trabalhar grávida até o oitavo mês e voltou ao trabalho com apenas um mês de puerpério. “Eu fico com muito medo de adoecer, porque não posso parar.”

Enquanto isso, o aumento do custo de vida aperta ainda mais o orçamento de trabalhadores de baixa renda no Estado. Diante desse cenário, sindicalistas que representam mais de 36,7 mil trabalhadores em Roraima avaliam organizar um protesto e divulgar uma carta aberta conjunta para manifestar indignação contra os preços e cobrar iniciativas da classe política municipal, estadual e federal.
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O debate surge em meio ao reajuste médio de 24% na conta de luz, o retorno do preço do litro da gasolina a R$ 6,95 e o alto custo da cesta básica, que chegou a R$ 652,14, quase a metade do salário mínimo, em dezembro, conforme o Dieese.
O mesmo Dieese apontou que o salário mínimo necessário para atender às despesas básicas de uma família deveria ser de R$ 7.106,83, o equivalente a 4,68 vezes o salário mínimo de 2025, que era de R$ 1.518. Em 2026, o valor passou para R$ 1.621.
A presidente do Sintras-RR (Sindicato da Saúde), Maceli de Souza Carvalho, que representa mais de 15 mil trabalhadores, disse que o contexto “atinge todo mundo”. “Não é só uma categoria que sente isso no bolso”, afirmou.
Já a presidente do Sitram (Sindicato dos Trabalhadores Municipais), Lucinalda Coelho, que representa cerca de cinco mil trabalhadores, destacou que o salário não acompanha os reajustes.
“O trabalhador recebe praticamente o mesmo, mas tudo sobe: luz, combustível, comida. A conta não fecha”, declarou.
O presidente dos sindicatos dos Técnicos em Segurança do Trabalho (Sintest) e dos Garçons (Sintag), Eledilson Baía, que representa 10,4 mil trabalhadores nas duas categorias, reforçou a necessidade de mobilização.
“Se a gente não se posicionar agora, o trabalhador vai continuar perdendo poder de compra. O salário não acompanha a realidade do mercado”, disse.
Além disso, o presidente do Sintracomo (Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil e Mobiliário), que representa aproximadamente seis mil trabalhadores da construção civil, alertou para a instabilidade da categoria.
“É um setor que sofre muito com os altos e baixos da economia. Quando tudo sobe, o primeiro impacto é no emprego e na renda do trabalhador”, afirmou.
A Aprafamp (Associação dos Produtores Rurais, Agricultores Familiares e Moradores do Novo Passarão), que representa cerca de 300 famílias na zona rural de Boa Vista, também endossa as discussões. O secretário da entidade, Josemar Sales, ressaltou a dificuldade de manter o básico.
“Tem família que já corta alimentação para pagar energia e combustível. Isso mostra o tamanho do problema”, pontuou.

Enquanto os sindicatos articulam o movimento, a realidade de Izamara traduz o impacto direto desses aumentos. Ela afirma que evita gastos, faz bicos extras e reduz até pequenas despesas para garantir o sustento das filhas. Ainda assim, vive no limite.
“Comprar uma roupa para minha filha já vira um desafio. A gente vive sempre apertado”, contou.