
A Justiça de Roraima determinou o arquivamento do inquérito policial que investigava o corretor de imóveis Jackson Renei Aquino de Souza, conhecido como Cicarelli, preso em flagrante em julho de 2025 durante uma operação policial que ganhou ampla repercussão local e nacional. A decisão revogou todas as medidas cautelares impostas a ele e autorizou a devolução dos valores e bens apreendidos, encerrando oficialmente o caso por falta de provas.
À época, Jackson foi detido sob suspeita de lavagem de dinheiro e possível ligação com o maior ataque hacker já registrado contra instituições financeiras no Brasil. Durante a operação, foram apreendidos R$ 700 mil em espécie, além do bloqueio judicial de cerca de R$ 1,3 milhão. A polícia apontava que aproximadamente R$ 2,45 milhões teriam transitado por sua conta bancária, supostamente relacionados a empresas investigadas por fraudes financeiras.
No entanto, em manifestação assinada pelo promotor de Justiça Carlos Alberto Melotto, o Ministério Público do Estado de Roraima concluiu que não houve comprovação da infração penal antecedente, requisito indispensável para a configuração do crime de lavagem de dinheiro. Segundo o MP, a investigação sobre o suposto furto bancário, conduzida no estado de São Paulo, permanece inconclusiva, sem confirmação pericial ou jurídica de que os valores tenham origem criminosa.
O órgão ministerial também destacou que diligências consideradas essenciais para o aprofundamento das apurações, como análises de relatórios financeiros e identificação de supostos envolvidos estrangeiros, não foram realizadas no prazo legal de seis meses, o que fragilizou a hipótese acusatória.
Ao acolher o pedido do Ministério Público, a juíza Daniela Schirato, da Vara de Entorpecentes e Organizações Criminosas, ressaltou que não havia justa causa para a continuidade do inquérito nem fundamento legal para manter o bloqueio de bens e as restrições impostas ao investigado. A magistrada também considerou os impactos das medidas cautelares na vida pessoal e profissional de Jackson, incluindo a suspensão de suas atividades como corretor de imóveis, dificuldades financeiras enfrentadas pela família e o comprometimento do tratamento médico de uma filha menor diagnosticada com epilepsia.
Com a decisão, a Justiça determinou a restituição do dinheiro apreendido, a devolução de um veículo e de aparelhos celulares, além da baixa de todas as restrições judiciais.
“Foram nove dias preso injustamente”, diz Jackson
Em entrevista concedida à FolhaBV, Jackson relatou como viveu os nove dias em que permaneceu preso e afirmou que sempre colaborou com as autoridades. Segundo ele, o dinheiro apreendido tinha origem na venda de uma fazenda para um cliente de nacionalidade venezuelana.
“O que acontece é que a Venezuela vive um conflito interno e não existe casa de câmbio oficial. O dinheiro entra no Brasil por meio de cambistas, isso é uma realidade conhecida. Eu vendi uma fazenda para um imigrante venezuelano e recebi dessa forma. Sempre soube e sempre disse qual era a origem do dinheiro”, afirmou.
Jackson também negou qualquer envolvimento com esquemas de hackers ou crimes financeiros. “Nunca tive ligação com hacker. Sou corretor de imóveis há mais de 10 anos, trabalho com compra, venda, construção e reforma. Não me neguei a prestar informações em momento algum”, disse.
Ele relatou que o período de prisão teve forte impacto familiar, especialmente por ter uma filha com deficiência que necessita de acompanhamento constante. “Ficar longe dela foi o pior momento. Uma noite já é difícil, imagine nove dias sabendo que você está preso injustamente”, desabafou.
Pedido de retratação
O corretor afirmou ainda que o que mais o preocupa agora são os efeitos à sua imagem profissional. “Quando você pede o CPF de um cliente, ele lembra de tudo o que foi noticiado. Isso prejudica uma carreira construída ao longo de anos”, declarou. Jackson disse esperar que a inocência reconhecida pela Justiça tenha a mesma repercussão que a prisão teve à época.
A FolhaBV registra que a operação policial, em 2025, foi divulgada com base nas informações oficiais disponíveis naquele momento. Com a decisão judicial, o desfecho do caso passa a integrar o registro público dos fatos.