
“A BR-174 é uma estrada de mais de 30 anos que, quando tem buracos, eles são tampados com um remendo aqui e ali. O problema é crônico. Por isso, a rodovia, no trecho entre Boa Vista e Manaus, precisa de uma restauração completa”.
A declaração de Remídio Monai, presidente do Sindicato das Empresas de Transportes Rodoviários Interestadual, Intermunicipal, Fretamento, Turismo e Escolar do Estado de Roraima (Setrans-RR), resume, então, o sentimento de quem passa pela única via terrestre que conecta Roraima ao restante do Brasil.

Principais pilares logísticos do Estado, as rodovias escoaram 127,9 milhões de dólares (R$ 662,7 milhões) em produtos em 2025, segundo a Fier (Federação das Indústrias de Roraima). Portanto, é mais da metade da exportação total roraimense, que fechou o ano passado em 240,65 milhões de dólares (R$ 1,2 bilhão).
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A BR-174, por exemplo, parou em 2023. Motoristas caíram em um atoleiro dentro da Terra Indígena Waimiri Atroari, o que gerou uma fila de dezenas de veículos de pequeno e grande porte impedidos de chegar a Boa Vista, a Manaus ou municípios vizinhos.
A divulgação dessa notícia, pela Folha BV, pressionara diversos setores da economia, e autoridades de Roraima e do Amazonas a exigirem providências. Assim, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) agiu para resolver, até o início de 2024, os pontos mais críticos da via – a maioria no lado amazonense.
Dois anos depois, os problemas voltaram a aparecer. Contudo, os mais críticos no lado roraimense da reserva indígena, onde existem ao menos seis partes em que os buracos dominam totalmente a pista.
“Sem os buracos, levo duas horas e meia para passar pela reserva. Hoje, com os buracos, levo uma hora a mais. Com a BR do jeito que está, minhas despesas só aumentam. Se antes eu gastava 700 litros nessa viagem, hoje estou gastando 850. E se botar na ponta do lápis, chego a gastar por mês de R$ 3 mil a R$ 4 mil a mais com a manutenção da minha carreta”, disse o caminhoneiro Francisco Correa, 30, que passa ao menos duas vezes por semana pela reserva.
Para o caminhoneiro Fabrício Sousa Santos, 34, que viaja semanalmente entre as capitais roraimense e amazonense, falta sinalização, especialmente dentro da terra indígena, para alertar os condutores acerca dos desgastes asfálticos.
“É bacana andar aqui, mas tem uns lugares que têm umas poças, entendeu? E não tem sinalização… Aí, às vezes, à noite a gente bate em buraco também”, pontuou. “Normalmente, saindo de Boa Vista cedinho para Manaus, a gente faz o percurso em um dia. Mas na volta, não dá para fazer em um dia por causa dos buracos”.
Dentro do território indígena, o mato e as árvores tomam conta da pista. Por vezes, a densa vegetação, naturalmente, cai sobre a pavimentação em meio à chuva e ao vendaval, ocasião em que os próprios indígenas ajudam a retirá-la. A Folha BV, inclusive, flagrou uma dessas retiradas.

“O DNIT precisa podar pelo menos cinco metros de cada lado da estrada, porque as árvores estão tomando conta da estrada. Elas não deixam enxugar a estrada, que fica molhada o tempo todo, o que danifica cada vez mais o asfalto […]. Aqui pode causar um acidente grave, se um veículo passar em alta velocidade. Essa combinação de excesso de peso, de mato tomando conta da pista, de buraco, é muito perigosa”, avaliou Remídio Monai, que sugere uma balança na rodovia com o intuito de impedir o excesso de peso de carretas que colaboram para o desgaste da via.
Maioria das crateras estão em Roraima

Em 740 quilômetros de trajeto, a reportagem concluiu que a maioria dos pontos críticos estão no lado roraimense da rodovia. Um dos primeiros trechos que requerem atenção fica às margens da cabeceira da ponte sobre o rio Mucajaí, onde existem rachaduras que indicam erosão no local.
Para quem trafega em direção a Boa Vista, cones instalados pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) buscam chamar a atenção dos condutores para o serviço de reparo da situação.
Enquanto os primeiros desgastes e desníveis no meio da pista são registrados em Iracema, as primeiras crateras, a falta de sinalização em trechos recém-recuperados e o acabamento de serviços de tapa-buraco podem ser vistos em Caracaraí, a partir da sede do Município.

Risco para trabalhadores como a professora Keila Paula, 42, que passa diariamente pela rodovia para trabalhar na vila Vista Alegre, próxima à ponte.
“Os buracos estão aumentando. De Caracaraí, até a vila onde fica a escola onde trabalho, eles só têm aumentado. Desde 2024, os buracos estão tornando esse trecho muito perigoso”, pontuou.
Na companhia dela, o eletricista Frederico de Castro, 33, confirma o relato e alerta para o risco de acidentes.
“Nos últimos dois anos, em 2024 e 2025, teve muitos acidentes nesses trechos devido a esses buracos”, disse.

A assessoria da PRF informou à Folha BV que não possui dados oficiais sobre a quantidade de acidentes provocados por buracos.
Além das crateras, quem passa pela BR-174 em Caracaraí, quando precisa, não tem onde parar por causa da falta de acostamento.
“O risco é grande porque, se um caminhão ‘prega’ aqui, onde que ele vai estacionar?”, indagou o presidente do Setrans-RR, que ainda alerta para a falta de poda das árvores e da limpeza do mato às margens da via, cenário que cobre as placas de alerta da BR.

E o que deveria ser um alerta de interdição imediata virou um cenário comum na ponte sobre o Rio Anauá. Há anos, rachaduras estruturais se expandiram pela passagem a ponto de o curso d’água ser visto através das fendas no asfalto, expondo os condutores a um risco grave que se tornou parte da rotina da BR-174.


Na medida em que a capital de Roraima fica mais distante, a quantidade de buracos e o tamanho das crateras aumentam, a exemplo da zona rural de Rorainópolis, em que motoristas precisam trafegar em zigue-zague.
Um motorista da vila rorainopolitana Equador, que passava por um desses trechos, disse que viagem para Boa Vista passou a demorar até duas horas a mais do que o previsto por causa do desgaste asfáltico.
“A gente levava em média de seis horas de viagem. Agora são sete, oito horas para chegar em Boa Vista. Isso significa mais gastos com gasolina, pneu furado, às vezes quebra o carro. Atrasa muito mais nossa viagem, né?”, disse.
O último relatório anual da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) sobre as rodovias federais do Brasil avaliou 1.830 quilômetros de extensão da BR-174 nos estados de Roraima, Amazonas, Rondônia e Mato Grosso.
Sem especificar as condições e a localidade de cada trecho, a pesquisa constatou 62,8% do estado geral da extensão da via é regular, o que reforça uma tendência crescente iniciada em 2023. Naquele ano, quando o DNIT promoveu um amplo serviço de manutenção e recuperação do trecho entre Boa Vista e Manaus, esse percentual era de 40,7%.

Conforme o levantamento, o estado regular da rodovia “sinaliza um estágio inicial de deterioração que pode evoluir para estados mais críticos” como ruim ou péssimo, caso não haja uma intervenção.
Ainda segundo o relatório, no geral, as condições das rodovias de Roraima, em 2025, aumentavam em até 37,7% o custo operacional de 37,7%, o que reflete na competitividade do País e no preço dos produtos. Assim, para recuperar as rodovias federais, o Estado precisaria de ao menos R$ 935,7 milhões.
Retorno proibido

Na rodovia em Boa Vista, próximo ao viaduto do Anel Viário do Contorno Oeste, na falta de uma defensa que divide a pista, motoristas de veículos de pequeno, médio e grande porte tendem a fazer um retorno proibido em direção ao Centro da capital de Roraima. A Folha BV, inclusive, flagrou o momento em que um caminhoneiro faz essa manobra.
“Quando fizeram o Anel Viário, não construíram o retorno. E quem vem do Centro para Mucajaí, não tem um retorno. As pessoas manobram no meio dessa pista. Então, é uma situação perigosa, que pode causar um acidente. E a gente pede aqui que o DNIT ou a Prefeitura possa fazer um retorno, melhorar essa alça aqui também, porque já aconteceu acidente aqui que quebrou a alça de proteção”, alertou Remídio Monai.

A assessoria da Prefeitura de Boa Vista informou à reportagem que esse trecho não é de sua competência.
Ladeiras

Em Presidente Figueiredo (AM), duas ladeiras, conhecidas como Maria Ceará e Vovó, demandam atenção por causa de frequentes tombamentos de carretas que enfrentam dificuldades para subir os curtos trechos íngremes.
O acidente mais recente ocorreu em dezembro de 2025, na Ladeira da Vovó, onde uma carreta que transportava milho tombou e interditou a rodovia por quase 20 horas, resultando em uma fila quilométrica na região.

Enquanto a Folha BV passava pelo mesmo local na segunda-feira (26), o caminhoneiro Ademir Alexandre, 53, que voltava para São Paulo após deixar uma encomenda de mangueiras em Boa Vista, se acampava debaixo de uma carroceria na espera por ajuda para retirar a sua carreta da mão direita da pista depois de não conseguir subir a ladeira.
“A ladeira é forte demais. Aqui onde eu estou é perigoso […]. Minha carreta quebrou o pedal da embreagem enquanto eu estava subindo”, declarou, enfatizando o risco de ficar no local enquanto veículos de grande porte descem a ladeira em direção a Boa Vista em velocidade acima do permitido.

Com a palavra, o DNIT
Até a publicação da reportagem, o DNIT não respondeu aos questionamentos.




