Avião interceptado em fazenda e que desviou o pouso para o Aeroporto de Boa Vista com ouro ilegal (Foto: Divulgação)

A supervalorização do ouro, que chegou a registrar um aumento de quase 40% em 2025, colocou Roraima como a nova rota da clandestinidade no Brasil que abastece o mercado internacional com minério ilegal, desta vez com o ouro vindo de outros estados por meio das rodovias e voos clandestinos.

O crime enxergou o Estado como estratégico não somente apostando em uma fiscalização deficiente por causa do baixo efetivo da Polícia Federal (PF) e Polícia Rodoviária Federal (PRF), mas por outros fatores muito favoráveis a esse tipo de crime que é muito propício, onde temos um passado de ilegalidade que se enraizou nos órgãos e instituições por meio da corrupção de alguns de seus membros.

Um desses fatores é que o Estado já tem uma estrutura organizada que foi herdada do auge do garimpo ilegal na Terra Yanomami, com muitas pistas clandestinas nas cercanias de Boa Vista, nos municípios do interior do Estado e do outro lado da fronteira com a Venezuela, todas conhecidas por pilotos que atuam em voos para o garimpo. Tudo isso é difícil de ser controlado em que as atenções estão voltadas para as terras indígenas.

Outro fator é que a Venezuela e Guiana têm uma exploração e comércio de ouro efetivos e, portanto, não existe um trabalho de efetivo controle aos moldes do que existe do lado brasileiro. Só que, no país venezuelano, é sabido que lá as máfias operam na extração e venda do ouro ilegal, atividades controladas por militares corruptos, grupos guerrilheiros e facções criminosas. Todos negociam com o mercado norte-americano e, por isso, tudo é negociado em dólar.  

A realidade na Guiana é outra. O garimpo de ouro é legalizado, o que inclusive tem atraído empresários do garimpo e políticos que defendem o garimpo em Roraima, uma realidade que atrai as operações clandestinas a fim de legalizar o ouro ilegal enviado do Brasil e que dificulta a identificação pelas autoridades do que é ouro produzido lá e o que foi contrabandeado a partir de Roraima.

Essa valorização do ouro pressiona as operações ilegais usando Roraima como rota, uma vez que o garimpo ilegal em terras indígenas está sob forte aparato de fiscalização desde 2023, quando Governo Federal criou e estruturou a Casa de Governo, em Boa Vista, que reúne diversos órgãos públicos, polícias, agências e as Forças Armadas no combate ao garimpo ilegal.

As grandes apreensões de ouro ilegal pela PRF no ano passado, em Roraima, mostraram que a fiscalização nas rodovias não era tão ineficiente quanto os criminosos imaginavam. Da mesma forma, não imaginavam que ocorreria uma ação por agentes da PF e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), no dia 2 de dezembro passado, em uma fazenda em Boa Vista, obrigando um avião desviar o pouso para o aeroporto da Capital, resultando na apreensão de 51 kg de barras de ouro ilegal.

É evidente que essas organizações se reinventam e traçam novas estratégias, o que obriga as autoridades brasileiras a se estruturarem e aumentarem a fiscalização a fim de dar novas respostas. Agora é preciso ficar de olho na movimentação em direção à Guiana, onde políticos e empresários não escondem suas atuações no país vizinho, indicando que as eleições desse ano terão dinheiro do garimpo ilegal bancando candidaturas.

*Colunista

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