Confesso que sou um cara feliz. Tem um montão de gente na família, tomando conta de mim. Levei um tempão pra me acostumar com isso. Sempre fui muito liberal. Não tenho nada com a vida de ninguém, nem quero ninguém tomando conta de minha vida. Você também é assim? Se é, tome cuidado, sobretudo quando a idade for chegando devagarzinho, batendo na porta de mansinho, e entrando à vontade. E com ela você não pode fazer nada, a não ser se entregar inteligentemente. Cara, tento pra dedéu, fazer isso. Mas é dificil pacas. Mas tenho uma excelente cuidadora de mim. É a dona Salete. Ninguém seria melhor do que ela pra cuidar de um cara ranzinza como eu.
Não vou lhe dizer qual a minha idade pra você não ficar preocupado. Mas sempre me cuidei. Nunca bebi bebida alcoólica, nunca fumei e por aí afora. Detesto linguiça e qualquer outro embutido. Mas dia desses tive que fazer um checape. Foi lindo de viver. Mas, nada fora dos eixos. E o médico é um cara com o qual me dou muito bem. Conversamos e lhe conto algum causo do meio da medicina. Ele ri bem e bastante. Por isso não vou mencionar seu nome, porque seria desleal. Depois dos exames ele ficou feliz, mas me deu algumas sugestões sobre o que eu deverei evitar, racionalmente, para apenas me prevenir:
– Faça o seguinte: evite muita manteiga, nada de linguíçanem carne vermelha; e pouquíssimo sal. Pode comê-los, mas com moderação. Tá?
– Serei fiel.
Falei isso pra dona Salete e ela começou a me controlarcom rigor. Mas à maneira dela: carinho e dedicação. Dia desses, no almoço, comentei:
-O arroz tá muito salgado.
Ela me acalmou:
– Não faz mal, não. É que eu me esqueci que já tinha postosal e pus outra vez.
Ontem, o que raramente acontece, estávamos sós, em casa,ela e eu. Hora do almoço e ela me avisou:
– Já que estamos sós, vamos comer o que está na geladeira. Vou preparar uma coisinha bem leve, pra você. É só um pouquinho de carne moída e um pedacinho de linguiça, tá? A linguiça foi fritada sem óleo. Está bem laite. Feita pra você.
Não sei como você veria tal reação. Mas nos conhecemos há tanto tempo que sei o quanto ela está realmente preocupada comigo. E por isso só sorri e lhe disse sim. Logo me sentei à mesa, não comi a carne, dividi a linguiça em pedacinhos e comi apenas uns dois. Ela já nem olhoumais pra mim, e só comentou, sem nem reclamar:
– Puxa vida. Por que foi sempre assim? Desde que nos casamos. Eu faço a comida pra você com tanto carinho e você sempre come quase nada. Isso me aborrece!
Pense isso.
99121-1460