
Vivemos uma era em que a vitrine se sobrepôs ao conteúdo. As redes sociais, criadas inicialmente com a promessa de aproximar pessoas, compartilhar experiências e democratizar a comunicação, transformaram-se, para muitos, em palcos permanentes de autopromoção vazia. A lógica do “curtir”, do “visualizar” e do “engajar” passou a ditar comportamentos, moldar identidades e, sobretudo, substituir o ser pelo parecer. Nesse contexto, torna-se cada vez mais evidente uma verdade simples, mas incômoda: rede social não é vida real.
Ao navegar por plataformas como Instagram e Facebook, observa-se um padrão repetitivo e preocupante: homens e mulheres que constroem perfis inteiros baseados quase exclusivamente na exibição do corpo, na sensualidade exacerbada e, muitas vezes, na vulgaridade travestida de liberdade de expressão. Pouco se fala de ideias, de histórias, de pensamentos ou de contribuição social. O corpo torna-se o produto, a imagem vira moeda e o algoritmo decide quem “existe” e quem será esquecido. O problema não está na estética em si, mas no esvaziamento do conteúdo, na redução do valor humano à capacidade de atrair olhares.
Essa lógica gera um fenômeno perturbador. Há publicações de nudez ou forte apelo sexual que alcançam milhões de visualizações, comentários e compartilhamentos, enquanto tragédias humanitárias passam despercebidas. Como já foi dito, “tem publicações de nudes de mulheres em redes sociais que dão mais impacto que mil crianças mortas na Síria. [Isso mostra] um vazio repleto de presenças”. É um retrato cruel do nosso tempo: nunca estivemos tão conectados e, ao mesmo tempo, tão anestesiados diante da dor real.
O mundo moderno, impulsionado pelas redes, vive uma contradição permanente. “Ao mesmo tempo que nos aproxima das pessoas que estão distantes, nos afasta de quem está mais próximo de nós.” Vemos famílias sentadas à mesma mesa, cada uma imersa em sua própria tela. Amigos que conversam mais por mensagens do que olho no olho. Relações que se resumem a reações digitais. Foca-se no conteúdo virtual e se abandona a vida real, como se a existência precisasse ser validada por um feed para ter valor.
Essa dinâmica não é neutra nem inofensiva. As redes sociais podem chegar a criar sérias dependências, com consequências amplamente observadas: ansiedade, depressão, irritabilidade, isolamento, distanciamento da vida real e das relações familiares, perda de tempo e, consequentemente, um profundo vazio existencial. Muitos usuários passam horas planejando a próxima foto, o próximo ângulo, a próxima pose, enquanto negligenciam o desenvolvimento intelectual, emocional e espiritual. A vida vira bastidor; a postagem, o espetáculo.
Outro efeito nocivo é a superexposição. A exibição constante, muitas vezes baseada apenas na imagem, gera comparações irreais e autodepreciativas. Corpos editados, rotinas encenadas e felicidades fabricadas produzem frustrações silenciosas em quem consome esse conteúdo. A autoestima passa a depender de métricas digitais, e o valor pessoal se mede por números: seguidores, curtidas, comentários. Quem não alcança esses padrões sente-se insuficiente, invisível ou fracassado.
Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável e provocadora: se um dia a Meta, proprietária do Facebook e do Instagram, proibisse a publicação desse tipo de conteúdo vazio, o que essas pessoas teriam para postar? A resposta, embora desconfortável, revela muito sobre a fragilidade dessa construção identitária. Muitos simplesmente não teriam o que mostrar. Sem o corpo como isca, sem a sensualidade como linguagem principal, restaria o silêncio. E o silêncio, para quem nunca se ocupou de construir algo além da imagem, pode ser ensurdecedor.
Isso não significa que todos estariam condenados à irrelevância. Pelo contrário: tal medida poderia ser libertadora. Forçaria uma reconexão com o conteúdo, com o pensamento, com a criatividade e com a autenticidade. Quem desenvolveu habilidades, opiniões, talentos, histórias e experiências teria muito a compartilhar. Quem investiu apenas na aparência seria convidado, talvez pela primeira vez, a olhar para dentro e perguntar: quem sou eu além da imagem?
As redes sociais não são, em si, o problema. Elas são ferramentas poderosas, capazes de educar, informar, mobilizar e transformar. O problema está no uso superficial, na busca incessante por validação externa e na confusão entre visibilidade e valor. Quando o conteúdo é vazio, a exposição apenas amplia o vazio. Quando a identidade se resume a um corpo, qualquer mudança — do algoritmo, da idade ou das regras — pode provocar um colapso existencial.
Em última instância, a reflexão que se impõe é simples e profunda: o que estamos construindo enquanto seres humanos? Se amanhã as câmeras se desligarem e os filtros desaparecerem, o que restará? A vida real continua exigindo presença, propósito, empatia e responsabilidade. E ela não aceita edição. Talvez seja hora de lembrar, com honestidade, que nenhuma rede social substitui uma vida com sentido — e que likes jamais preencherão o vazio deixado pela ausência de conteúdo, valores e humanidade.
Por: Weber Negreiros
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