
O episódio que ocorreu no Pátio Roraima Shopping, no fim de semana, quando grupos de jovens e adolescentes foram interceptados pela Polícia Militar durante uma ameaça de confronto marcada pelas redes sociais, volta a ligar o sinal de alerta sobre a volta das outrora temidas “galeras”, que surgiram nos anos de 1980 e seguiram ativas até o meio da década de 2000.
As autoridades precisam estar atentas, pois esse fenômeno da violência urbana provocada por grupos rivais de adolescentes e jovens ocorreu não apenas em Roraima, mas também na periferia de Manaus, Capital do Amazonas, igualmente no mesmo período entre as décadas de 1980 a 2000, o que exigiu ações do Estado, da sociedade e da imprensa no combate aos “galerosos” em razão da violência de suas ações.
Naquela época, Boa Vista vivia uma situação de forte migração nordestina devido à primeira corrida do ouro na Terra Indígena Yanomami, quando o minério viajava de avião para outros estados e países, ficando para a periferia apenas a criminalidade, com jovens e adolescentes que usavam armas brancas, armas caseiras e armas de fogo em disputa de território e envolvimento com o tráfico de drogas.
Atualmente, outra vez a Capital roraimense enfrenta uma nova onda migratória, só que com a vinda em massa de venezuelanos e dentro de um contexto da criminalidade dominada por facções brasileiras e venezuelanas que se conectaram ao garimpo ilegal, disputam pontos de venda de droga e hegemonia no comando do crime organizado.
Adolescentes e jovens que não enxergam nenhum apreço em se integrar a facções extremamente violentas, que não apenas matam como degolam ou esquartejam suas vítimas, acabam buscando identidade e pertencimento a grupos autodenominados de “tropas”, que seriam a reinvenção das antigas galeras. No entanto, fazer parte desses grupos se torna algo muito preocupante, porque eles poderão ser facilmente cooptados e integrados a facções.
Em 2001, chegaram a existir em Boa Vista 35 gangues que agiam com violência integradas por jovens, a maioria moradores de regiões de alta vulnerabilidade social. O grande problema foi enfrentado principalmente pelo Projeto Crescer, quando foi realizado um amplo diagnóstico socieconômico, que abrangeu todo o município e apontou que a situação de pobreza e indigência em que viviam cerca de 17 mil adolescentes.
Quem viveu aquela época tem lembranças do grande desafio, que culminou, em 2004, com a criação da Escola Frei Arthur, que passou a abrigar todas as aulas oferecidas pelo projeto, que incluíam oficinas de artes plásticas, moda, música, xadrez e cursos profissionalizantes. Uma cooperativa foi fundada para venda dos produtos criados por esses alunos, que dividiam a renda. A escola atendeu a cerca de 900 pessoas até o ano de 2006. O projeto recebeu diversos prêmios pela sua excelência na área social, como o da Fundação Getúlio Vargas e da Petrobras.
Voltando ao ano de 2026, temos outra realidade com o surgimento das “tropas”, sobre as quais não se sabe quase nada, a não ser que elas surgem nas redes sociais e que podem agregar jovens e adolescentes não só da periferia, mas também de outras classes sociais. Daí a necessidade de todos estarem atentos ao novo contexto, pois essas “tropas” podem se tornar embriões formadores de novos faccionados.
A partir desse passado recente que Boa Vista viveu, sabemos que a ociosidade e falta de perspectiva de vida são umas das causas do problema devido à falta de políticas de lazer e de formação profissional, a perda de autoridade por parte dos pais, a necessidade de se sentirem integrados a algum coletivo e, ainda, a influência de facções que evidencia a cultura da violência.
O enfrentamento ao problema foi por meio do Projeto Crescer, responsável por tirar Boa Vista dos números preocupantes do Mapa da Violência na década de 2000, quando as 35 gangues foram reduzidas para cinco, conforme o estudo do Instituto Sangari, com base nos dados do Ministério da Justiça. Agora a sociedade precisa entender esse novo alerta, pois vivemos outro contexto e uma nova realidade em que o crime está organizado, com ações tardias por parte das autoridades. O desafio está aí.
*Colunista