Polícia Civil desempenhou um papel importante no combate ao crime organizado (Foto: Divulgação)

Não poderia ser mais sugestiva a informação de que o nome do novo secretário estadual de Segurança Pública de Roraima, delegado Vinícius Souza, foi anunciado informalmente durante uma festa de confraternização, em um domingo ensolarado, que contou com a presença do governador Antonio Denarium (PP). O escolhido para dar a notícia foi o deputado federal  Zé Haroldo Cathedral.

Importante destacar é que, além de titular do 1º Distrito Policial, o delegado indicado é irmão do deputado Lucas Souza (PL), que é filho da secretária do Trabalho e Bem-Estar Social (Setrabes), Tânia Soares, que é irmã da primeira-dama Simone Denarium, que é conselheira do Tribunal de Contas do Estado (TCE), cuja disputa para nomeação ao cargo provoca ecos até os dias atuais nos bastidores políticos e palacianos.

Obviamente que essa mudança na titularidade da Sesp precisa ser vista em um contexto preocupante da queda de regime na Venezuela, cuja crise impacta diretamente a realidade de Roraima, incluindo a migração em massa e a criminalidade, inflada com a chegada de faccionados venezuelanos, os quais têm mostrado seu poderio nos últimos anos, disputando território e impondo suas leis com mortes violentas, corpos desovados e retalhados, bem como cemitério clandestino.

A Associação dos Delegados de Polícia do Estado de Roraima (Adepol-RR) apressou-se em abonar a indicação, citando o currículo profissional do delegado, com passagem pelo Poder Judiciário, sob alegação de que “a complexidade do atual cenário da Segurança Pública não admite amadorismo”. No entanto, acima disso, é necessário entender todo o esqueleto da realidade da Segurança Pública.

Embora as atenções públicas estejam voltadas para a crise venezuelana, combate a atuação de facções criminosas e recapturas de foragidos, a questão da Segurança Pública tem uma questão bem mais ampla e não menos importante, que é combate à corrupção e o crime organizado com raízes direta na política roraimense. É aqui que entra uma análise mais ampla sobre a importância na condução da Sesp, especialmente no papel da Polícia Civil de Roraima.

Nos últimos anos, a Polícia Civil realizou investigações e operações imprescindíveis no combate ao crime organizado, a exemplo do caso do policial morto em 2022 durante assalto frustrado a um avião que atuava no apoio ao garimpo ilegal. A partir dali, uma investigação da Polícia Civil apontou que um grupo de PMs cometia diversos crimes e atuava como milícia, oferecendo serviço de vigilância privada para garimpeiros.

Também em 2022, as investigações da Polícia Civil desempenharam papel decisivo no rumoroso “caso Romano dos Anjos”, o jornalista que foi sequestrado e torturado em Roraima na noite do dia 26 de outubro de 2020, cujas investigações da Polícia Civil apontaram para o surgimento de uma milícia dentro do poder Legislativo roraimense com ramificações na venda de armas para o garimpo ilegal por policiais militares e criação de instituição financeira de fachada que aplicou golpes no Estado.

Em janeiro de 2025, quatro policiais da elite da Polícia Militar de Roraima, do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), foram presos durante uma operação desencadeada pelo Ministério Público de Roraima e Polícia Civil, sob a acusação de se apropriarem de parte de um carregamento de drogas apreendido em novembro de 2024.

Antes disso, em abril de 2024, foi a vez de dois sobrinhos do governador serem presos pela Polícia Civil de Roraima com 145 kg de skunk, um fuzil, um revólver e milhares de munições, mostrando pela primeira vez fortes indícios de uma ação organizada do narcogarimpo em Roraima, tema que era tratado como um exagero por parte de quem não acreditava na contaminação da estrutura governamental pelo crime organizado.

Há várias outras conexões cabulosas reveladas também pela Polícia Federal, mas o que importa no momento, no atual contexto, são as principais atuações da Polícia Civil diante dessa mudança no comando da Segurança Pública de Roraima. A crise na Venezuela importa muito para o Estado, mas as investigações sobre o crime organizado mostram que Roraima está em guerra há muito tempo. E essa é a grande questão a ser observada nessa mudança na Sesp.

Também não pode ser esquecido o acordo firmado no Supremo Tribunal Federal (STF), em dezembro passado, em que o presidente Lula pagará a Roraima R$115 milhões em indenização pelos gastos excedentes do Estado com a crise migratória de venezuelanos. Desse montante, a Segurança Pública receberá R$63 milhões.

Mais que nunca, torna-se estratégico para o futuro do Estado ficar atento ao que acontece na Segurança Pública.

*Colunista

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