
A questão da Segurança Pública em Roraima vai muito além do cenário de criminalidade intensificado a partir da migração desordenada advinda da Venezuela, com a chegada de faccionados estrangeiros, e a disputa entre duas facções brasileiras entre Manaus (AM) e Boa Vista. Também não pode ser resumida na troca de comando da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp), assumida pelo delegado Vinícius Souza, sobrinho da primeira-dama Simone Denarium.
A questão vem de uma raiz profunda e bem alimentada que envolve a desratização de nossa sociedade, infestada pela corrupção sistêmica exposta por seguidas operações da Polícia Federal e da Polícia Civil ao longo dos anos, que investigam os mais diversos e graves crimes, como corrupção na política e narcogarimpo, que engloba várias outras práticas que vão do tráfico de droga, lavagem de dinheiro, formação de milícias etc.
Enquanto o governo estadual ainda celebrava a troca no comando da Sesp, mais um capitão da Polícia Militar estava sendo preso pela PF durante uma operação policial. Na quinta-feira, 8, o militar foi preso na companhia de um empresário e sua assessora, após o saque de R$150 mil em uma agência bancária, por suspeita de lavagem de dinheiro e associação criminosa. Além do dinheiro, foram apreendidos rifle e pistola.
O que chama a atenção é que o capitão está lotado na Casa Militar do Palácio do Governo, que comanda todo esquema de segurança do governador. Não foi a primeira vez que ações policiais atingem em cheio aquele setor. Em 2024, o capitão responsável pela segurança do governador foi preso por ter presenciado o assassinato de um casal no Município do Cantá, no chamado “caso Surrão”, e depois ter ido jogar futevôlei no Complexo Ayrton Senna. O empresário autor do duplo assassinato segue foragido até os dias atuais.
Existem outros casos envolvendo militares do alto escalão. Nas eleições municipais de 2024, o coronel que era subcomandante-geral da PM foi preso por crime eleitoral. As acusações contra o militar incluem alertar o então candidato a vereador Genilson Costa, presidente da Câmara de Boa Vista, sobre qualquer denúncia de compra de voto que ocorresse contra ele, além de repassar informações sobre outras denúncias que a PM recebia, em grave quebra de sigilo do canal de comunicação da Corporação militar. Ao sair da prisão, foi nomeado para responder pelo serviço de inteligência da PM.
Esse caso é emblemático porque o vereador em questão já vinha sendo investigado desde 2022, quando a PF deflagrou a Operação Tânatos que investiga um grupo suspeito de movimentar R$ 5 milhões em tráfico drogas, inclusive acusado pelo Ministério Público de negociar venda de droga dentro de seu gabinete. Na prisão de 2024, foi apreendido inclusive uma pepita de ouro, cuja procedência aponta para o garimpo ilegal.
Não menos importante lembrar que outro caso de grande repercussão envolveu outro militar da alta patente que pertenceu aos quadros da Casa Militar: o então comandante da PM de 2023, suspeito de não só fazer vistas grossas ao garimpo ilegal, mas também de venda ilegal de armas e munições para faccionado e o garimpo ilegal. Ele já tinha poderes sobre a Corporação quando era chefe da Casa Militar, cargo que ele ocupava desde 2022. Antes disso, ele era subcomandante da PM.
São vários outros casos envolvendo policiais, políticos e familiares, empresários e outras autoridades. Também não pode ser esquecido o episódio que ocorreu dentro da Assembleia Legislativa, entre 2015 e 2020, quando o então presidente daquela Casa montou um grupo de militares para praticar uma série de crimes: espionagem de adversários, sequestro, fornecimento de armas para garimpos ilegais e segurança armada para empresas e políticos, além de ligação nos negócios da financeira By Money, que movimentou de forma ilícita mais de R$ 90 milhões e que “faliu” logo após as primeiras prisões dos envolvidos.
Logo, não se pode pensar em combater a criminalidade no Estado sem antes ocorrer uma profunda faxina nos pilares de nossa sociedade, infestada por uma realidade cabulosa que vem sendo exposta por seguidas operações policiais. As facções são apenas uma das facetas do grande crime organizado que sabota o futuro de Roraima.
*Colunista