

Chegamos a um nível inacreditável do desavergonhamento na política em que investigado por suspeita de desvios de mais de R$100 milhões por meio de licitação fraudulenta é premiado com cargo em um órgão de controle. E um investigado por envolvimento em lavagem de dinheiro, preso com R$150 mil em dinheiro vivo, é indicado a receber a comenda “Orgulho de Roraima” depois de ter sido condecorado com a mais alta comenda de Boa Vista, a “Medalha de Honra ao Mérito Rio Branco”.
Embora tudo isso esteja dentro da legalidade, o mesmo não pode ser dito a respeito da moralidade. O Estado há tempos perdeu o pudor com políticos cassados e até investigados por crime eleitoral e tráfico de droga que transitam normalmente como se a permissividade fosse a nova ordem da normalidade, com ninguém mais se envergonhando ou se indignando. É como entoassem o hino “É tudo nosso e nada é deles”.
Há um certo tempo estão dizendo na cara do povo que o crime compensa e que não adianta a Polícia Federal (PF) investigar e prender porque em seguida todos serão recompensados com um novo cargo público como mensagem de que a política tudo pode. Foram vários casos de secretários envolvidos em escândalos que foram exonerados para logo em seguida serem nomeados para novos cargos.
Nem o martelo da Justiça pesa mais, pois já tivemos político preso que saía direto da cadeia para conduzir o Legislativo estadual. E político investigado e cassado por corrupção eleitoral preso pela PF e também investigado por envolvimento com o tráfico de droga, inclusive apontado pelo Ministério Público por suspostamente negociar droga dentro de seu gabinete, que saiu da prisão para logo em seguida ser reconduzido por seus pares para comandar o Legislativo municipal.
O nível do desavergonhamento na política é tão escancarado que ex-deputado preso pela PF, durante investigação de desvio de R$11,6 milhões na Educação, não passou um dia na cadeia, pois mostrou ter condições de pagar R$154 mil de fiança, dinheiro que um assalariado levaria 99 meses para ganhar, ou seja, oito anos de trabalho duro.
Diante de todo esse cenário, a população já se prepara para ir às urnas, em outubro, quando o que passa a vigorar é a amnésia seletiva ou a lei da esperteza, em que eleitores não se envergonham em vender seu voto. Os políticos já mostraram que sabem qual é o caminho para comprar o voto e sabem como chegar lá. E ainda que sejam alcançados pela polícia e pela Justiça, eles também sabem que o crime tem compensado. E se algo der errado com alguns seus operadores, sempre haverá um cargo os esperando como recompensa.
*Colunista