
Alterações de humor, lapsos de memória e dificuldade de concentração são queixas frequentes entre mulheres que atravessam a menopausa. Embora esses sintomas costumem ser vistos como parte natural do envelhecimento, pesquisas científicas mostram que as mudanças hormonais desse período provocam efeitos no cérebro que se assemelham, em alguns aspectos, aos observados em doenças neurológicas como o Alzheimer e a demência.
Um estudo publicado com o título Emotional and Cognitive Effects of Menopause and Hormone Replacement Therapy analisou como a queda nos níveis de estrogênio impacta o funcionamento cerebral e a saúde emocional das mulheres. O hormônio tem papel fundamental na proteção dos neurônios, na regulação de neurotransmissores e no funcionamento de áreas ligadas à memória e às emoções. Quando seus níveis diminuem de forma abrupta, como ocorre na transição para a menopausa, essas estruturas podem apresentar alterações temporárias.
De acordo com a pesquisa, regiões do cérebro como o hipocampo e o córtex pré-frontal, essenciais para a memória, a atenção e a tomada de decisões, são particularmente sensíveis às variações hormonais. Essas mesmas áreas também estão entre as mais afetadas em doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer. A semelhança está no processo biológico envolvido, e não no desfecho clínico: enquanto no Alzheimer há perda progressiva e irreversível de neurônios, na menopausa as alterações costumam ser funcionais e, em muitos casos, transitórias.
O estudo aponta que a redução do estrogênio interfere na comunicação entre as células do cérebro e na ação de neurotransmissores como serotonina e dopamina, relacionados ao humor e ao bem-estar. Esse desequilíbrio ajuda a explicar o aumento da irritabilidade, da ansiedade e da vulnerabilidade à depressão observado em muitas mulheres durante a perimenopausa. Alterações semelhantes nesses sistemas também são descritas em pesquisas sobre doenças neurodegenerativas, reforçando a importância do hormônio para a saúde cerebral.
Em relação à cognição, a pesquisa destaca que queixas como esquecimentos frequentes, dificuldade de foco e sensação de lentidão mental são comuns nesse período. Embora esses sintomas possam gerar preocupação, os autores reforçam que, diferentemente do Alzheimer e da demência, a maioria das mulheres não apresenta comprometimento cognitivo permanente relacionado à menopausa. Com o tempo, e após a estabilização hormonal, muitas dessas alterações tendem a diminuir.
O estudo também analisa o papel da terapia de reposição hormonal nesse contexto. Os dados sugerem que a reposição pode contribuir para a proteção cerebral e para a melhora de sintomas emocionais e cognitivos, especialmente quando iniciada nos primeiros anos após o início da menopausa. Essa estratégia se baseia na ideia de preservar funções cerebrais sensíveis ao estrogênio, conceito que também é investigado em estudos sobre prevenção de doenças neurodegenerativas.
Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que a terapia não é indicada para todas as mulheres e deve ser avaliada de forma individualizada, considerando riscos, benefícios e histórico de saúde. A principal conclusão do estudo é que a menopausa deve ser reconhecida como um período de transição com impacto direto na saúde do cérebro, exigindo atenção semelhante à dedicada a outras condições que afetam as funções cognitivas.
Ao destacar semelhanças nos mecanismos hormonais e neurológicos, a pesquisa contribui para reduzir o estigma em torno dos sintomas da menopausa e reforça a importância de buscar orientação médica diante de mudanças emocionais ou cognitivas persistentes. Entender que essas alterações têm base biológica é um passo fundamental para promover cuidado, informação e qualidade de vida às mulheres nessa fase da vida.