O desafio de cidades com menos arborização em espaços urbanos e derrubada de árvores
Árvores foram cortadas no Centro de Boa Vista: cena se tornou comum nos últimos anos

Embora Boa Vista seja destacada pela característica de registrar temperaturas elevadas durante a maior parte do ano, outros municípios do interior também são marcados por calor extremo enfrentado pela população das áreas urbanas, especialmente na região Norte do Estado, onde as sedes dessas cidades quase não têm árvores nas vias públicas. No Município do Amajari, inclusive construíram uma praça pública sem sequer uma árvore, muito menos sem banheiro público e sem qualquer área coberta.

Tal realidade faz parecer que nem estamos localizados em um Estado amazônico, que deveria ter como política ambiental o favorecimento da arborização urbana. Além da falta de incentivo por parte do poder público para que se plantem mais árvores e se mantenham arborizações, as áreas urbanas das cidades têm registrado redução da vegetação na mesma medida em que a urbanização avança.

Desde 2022, Boa Vista vem aparecendo nas estatísticas como uma Capital que mais derruba árvores no país, a exemplo do levantamento realizado pelo MapBiomas que mostrou a Capital roraimense chegou a terceira no País que mais reduziu áreas de vegetação urbana nas últimas duas décadas: entre os anos de 2003 e 2023, os índices diminuíram de 21% para 13,9% da vegetação urbana.

No Censo Demográfico 2022, nos dados de Características Urbanísticas do Entorno dos Domicílios, divulgado em abril de 2025, o Estado apareceu como exemplo negativo em relação à presença de árvores nas vias públicas. Conforme esses dados, cerca de 58,7 milhões de brasileiros que vivem em áreas urbanas — quase um terço da população urbana do país — moravam em ruas sem ao menos uma árvore. com a maior parte dessas pessoas concentrada na região Norte, especialmente no Acre, Amazonas, Pará e Roraima.

Os dados de cidades com menos arborização podem ser medidos nas capitais amazônicas: Porto Velho (64,86%), Macapá (62,87%), Boa Vista (52,64%), Rio Branco (39,86%), Belém (44,65%) e Manaus (44,81%). Ou seja, a Capital roraimense aparece como a 3ª menos arborizadas, confirmando a fama de cidade derrubadora de árvores, mesmo precisando delas para amenizar o calor numa Capital que concentra mais de 70% de sua população.

Em tempos passados, Boa Vista chegou a ser exemplo de arborização urbana, com plantios de árvores em vias e praças públicas, inclusive reconhecida pelo Programa Menino do Dedo Verde, criado em 1993 com atuação dentro do Horto Municipal, com o foco principal na educação ambiental de adolescentes. Mas a realidade mudou com o avanço da urbanização sem consciência ambiental, o que parece ter vencido as boas práticas e ações ambientais.

Loteamentos urbanos surgem com a derrubada de árvores para abrir espaço para casas sem árvores. Prédios públicos em suas reformas optam por cortar árvores, em vez de preservá-las. Obras nos parques públicos com seus projetos de reforma e ampliação que enxergam árvores como problemas em vez de solução ambiental para aplacar o calor, fornecer sombras e criar microclimas, além de abrigar aves e outros animais essenciais para o equilíbrio ambiental.

Os projetistas urbanos ignoram os especialistas que apontam que a presença de árvores nas cidades é essencial para melhorar a qualidade de vida urbana, ajudando a regular a temperatura, melhorar a qualidade do ar e até mesmo contribuir com a saúde mental da população. E assim surgem políticas públicas sem planejamento e gestão ambiental, com a população sofrendo com as bruscas mudanças de clima com menos acesso à arborização nos espaços públicos.

*Colunista

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