(*) Amilcar Sérgio Júnior – Jornalista e cronista

Levemos em consideração o seguinte: dois candidatos com Rani, ambos moradores de Uiramutã, disputam a mesma vaga para o cargo de professor indígena no seletivo da Educação estadual. Um ainda está cursando e o outro já é formado, tem diploma e experiência em sala de aula. O primeiro, sem formação superior, consegue cartas de organização indígena e do tuxaua, enquanto o outro apresenta apenas diploma de graduação e certificados de cursos complementares. Então, sai o resultado do seletivo e quem fica com a vaga é o aluno sem formação superior.

A pergunta que faço: carta vale mais que diploma de curso superior? Carta habilita, dá experiência ou capacita alguém a assumir uma turma? Pois é. Neste último seletivo da Seed para professor indígena, a carta pesou mais que o diploma e isso é lamentável, falta de respeito com quem estudou tanto, defendeu trabalho científico, monografia e conseguiu se formar.

Confesso a vocês, nobres leitores, que decidi colocar em discussão este tão importante assunto, após receber na noite de ontem uma ligação telefônica de um amigo professor formado, membro da comissão que elaborou o seletivo da Seed. Ele me explicou o seguinte: um aluno do quarto, quinto semestre de curso de graduação que apresentou histórico ganhou 15 pontos, mais cinco da carta do tuxaua, mais cinco da carta de organização e mais cinco por cada certificado apresentado dentro da área específica. Neste último caso, segundo o professor, o cursista pode apresentar até dois certificados, somando assim 10 pontos.

No total, observem, este candidato que ainda é aluno somou 35 pontos, enquanto o professor formado só ganhou 20 com o diploma. E o resultado é este: a Seed contrata um “professor” que ainda não é professor, sem formação e sem experiência para atuar em sala de aula, em detrimento de um professor devidamente formado, diplomado e capacitado.

Cabe aqui mais uma pergunta pertinente: quem me garante que este aluno “professor” vai se formar, se o futuro só pertence a Deus? Ou seja, a Seed trocou o certo pelo duvidoso. Tenho certeza absoluta que qualquer pai ou mãe quer um professor formado e preparado para dar aulas ao seu filho, ou não?

Que fique bem claro: não sou contra a apresentação de cartas – seja de tuxaua, comunidade ou organização – mas o que não dar para aceitar é um processo seletivo que contrata um aluno no lugar de um profissional formado, capacitado. No meu ponto de vista, não importa quantas cartas e certificados este aluno apresente, pois nada substitui o diploma. As cartas poderiam ser apresentadas no critério de empate entre professores formados. Aí sim, concordo, mas nunca para substituir um diploma de curso superior.

Porque a Comissão do seletivo não priorizou e chamou primeiro os professores formados para depois, dependendo da demanda, convocar os alunos com suas cartas para completar o quadro funcional? É só uma sugestão, uma proposta que valoriza e reconhece o esforço de quem passou anos estudando para ganhar merecidamente um diploma no fim do curso superior.

Outro ponto que devemos observar. O diploma de curso superior é exigido para ser professor na rede pública de ensino (educação infantil, fundamental e médio) no Brasil, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e diretrizes do MEC. A formação específica em pedagogia ou licenciatura na área de atuação é essencial. Portanto, a Seed tem que fazer cumprir a lei e contratar professores formados, independente de cartas.

Para finalizar meu texto, recomendo a vocês, pais, tuxauas e comunidades: não aceitem “professores” que ainda não são professores. Não aceitem esta falta de compromisso com a educação de seus filhos. Lembre-se que educação de qualidade é feita por profissionais formados, diplomados e capacitados. Os filhos do branco têm tudo isso. Então, porque os indígenas não podem ter? A falta de qualidade na educação compromete o futuro de qualquer povo. Não esqueça disso. Lute pela educação de seus filhos.