O ano nem bem começou e estou atrapalhado com deveres que acumulei do ano anterior. Procrastinar faz parte de mim. Adio o que não devo adiar, me açambarco de coisa, algumas simples, que por preguiça, teimo em não fazer. Isso mina meus objetivos.
Acordo, vejo pela janela, dia nublado, prelúdio de que vai chover. Levanto, faço a higiene necessária para encarrar mais um dia. Tomo o desayno, leio os jornais do dia. As notícias são quase um convite para voltar para a cama: corrupção generalizada, violência, guerras. Nada aprendemos após o período pandêmico, onde, por algum tempo, tudo saiu da ordem. Ouvi de diferentes pessoas, quando o Coronavírus açoitava e matava sem pena e nem piedade, que após a hecatombe, sairíamos melhores. Ledo engano. Saímos mais selvagens, mais brutais, mais irresponsáveis, mais inconsequentes.
Vejo pelo noticiário, que todas as “autoridades” de uma miserável cidade do interior do Maranhão está no xilindró por roubo: prefeito, vice-prefeito, vereadores. Homens e mulheres que foram eleitos se dizendo probos, e ao chegarem ao poder, desviaram 56 milhões de reais de pessoas pobres, perpetuando a miséria ali existente. Caro leitor, amiga leitora, já parou para pensar que só se rouba os mais necessitados, os desvalidos? Grande parte dos nossos mequetrefes dirigentes são tristes: despreparados, venais, caros, ladrões. Não se envergonham em tirar de quem nada tem. E, a Justiça? Omissa, venal e sócia de toda essa desfaçatez.
“De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”, cito frase proferida jurista baiano Rui Castro em 1981. Imagine o que diria hoje diante de tanto descalabro.
O noticiário escancara a cada dia o imbróglio do Banco Master e seus bilhões de reais surrupiados, onde esta entrelaçada toda a alta cúpula da república. Isso, em um país que se gasta uma fortuna para manter uma infinidade de tribunais de conta, com o objetivo de fiscalizar justamente dessa gente que acha brechas para se locupletarem.
Os Correios, “vaca de divinas tetas”, como canta Caetano Veloso em “Vaca profana”, uma vez mais estão quebrados, pelos tecnocratas partidários, que não se cansam em roubar. Esse filme já vimos mais de vez. E, nada muda.
E, o ministro Dias Toffoli, guardião da Constituição Federal, é um colosso, para ser elegante com as palavras.
Vive melhor que não sabe de nada disso. Para esses a ignorância é uma benção.
Enquanto me acabrunho com as notícias, o telefone toca. É Rita, minha irmã, que faz tempo que não me liga. Rita é minha psicóloga. Papo reto, com ela não existe problema sem solução.
-Bom dia, meu irmão, tudo bem?
-Mais ou menos
-O que aconteceu?
-Estou lendo os jornais, as notícias são as piores possíveis.
-Tu ainda és dessa época?
-Qual época?
-Que ler jornal e se impressiona com as notícias?
-Se eu acompanhasse notícia ruim não saía nem do quarto.
-Vamos falar de coisa mais leve
-Aí já está chovendo
-O tempo está ameaçando chover.
-Aqui nem sinal de chuva.
Melhor falar de chuva do que essas patifarias que nos sufocam. A ignorância nos salva.
Luiz Thadeu Nunes e Silva
Engenheiro Agrônomo, jornalista, escritor e globetrotter. Autor do livro “Das muletas fiz asas”
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