À luz do pensamento de Hannah Arendt, especialmente tal como desenvolvido em Eichmann em Jerusalém, Um relato sobre a banalidade do mal (1963), torna-se intelectualmente inevitável reconhecer, com desconfortável lucidez, que a ausência contemporânea de empatia exibida por parcelas expressivas da militância política não constitui simples desvio moral episódico, mas antes um sintoma estrutural daquilo que Arendt diagnosticou como incapacidade de pensar, isto é, a renúncia deliberada ao juízo reflexivo em favor da submissão a sistemas ideológicos que operam segundo uma lógica burocrática, funcional e desumanizante, análoga àquela observada nos regimes totalitários por ela analisados.
Assim como Adolf Eichmann não agia movido por um ódio metafísico ou por uma monstruosidade ontológica, mas pela fidelidade acrítica a normas, carreiras e fórmulas linguísticas esvaziadas de conteúdo moral, também hoje se observa a naturalização do horror quando militantes justificam ou relativizam atrocidades cometidas pelo Hamas contra civis israelenses, minimizam a violência estrutural e sistemática do regime de Nicolás Maduro sob a retórica falaciosa do anti-imperialismo e da soberania instrumentalizada, ou ainda celebram, por aplausos explícitos ou silêncio cúmplice, o sofrimento de idosos, de uma mulher convertida em caricatura simbólica, Débora do Batom e de um preso acometido por câncer, todos vinculados aos eventos de 8 de janeiro, posicionando-se paradoxalmente contra a anistia com o pretexto moralizante da defesa da democracia.
Caberia, ainda, a abertura de um parágrafo destinado a reavivar o histórico de determinadas agremiações partidárias e de setores militantes no tocante à defesa reiterada e seletiva dos direitos humanos de indivíduos envolvidos em ilícitos de elevada gravidade, postura esta que, não raras vezes, revela uma assimetria moral digna de exame crítico mais detido, todavia, por opção metodológica e a fim de evitar a prolixidade que desviaria o foco central da presente análise, abstenho-me de desenvolver tal discussão neste soflagrante (momento).
Ademais, o outro deixa de ser pessoa concreta e converte-se em abstração funcional, em inimigo narrativo, em cifra conveniente à manutenção de um sistema atroz que dispensa a empatia porque já treinou seus operadores a não sentir, a justificar o injustificável e a normalizar o absurdo. É precisamente aqui que a banalidade do mal arendtiana encontra ressonância profunda no conceito kantiano de mal radical, não como perversidade demoníaca, mas como disposição moral pela qual o sujeito, de modo consciente e reiterado, subordina a lei moral universal a máximas particulares, sentimentos ideológicos ou utilitários. Em Kant, o mal radical não reside na intensidade do ato, mas na inversão da ordem moral, quando o dever deixa de ser princípio e passa a ser instrumento.
Em Arendt, essa inversão manifesta-se historicamente quando homens comuns, liberados do exercício do juízo, passam a agir como meros executores de uma racionalidade que se pretende moral, mas que é, em essência, administrativa, burocrática, bizantina.
Não se trata, portanto, de ódio explícito, mas de uma apatia organizada, de uma mediocridade do não pensar que transforma a violência em rotina burocrática e o sofrimento alheio em dano colateral aceitável. Tal fenômeno dialoga diretamente com a ponerologia política de Andrzej Łobaczewski, ao demonstrar como sistemas ideológicos fechados criam ambientes propícios à ascensão de personalidades com déficit empático e ao contágio moral coletivo.
A chamada ciência do mal, tal como formulada no contexto sociopolítico por Andrzej Łobaczewski, adornado de ponerologia política, do grego poneros, que remete à maldade ativa e patológica , busca compreender como o mal deixa de ser apenas falha moral individual e se converte em fenômeno sistêmico, ao infiltrar-se nas estruturas de poder por meio da ascensão de personalidades psicopáticas e perversas, caracterizadas pela ausência de empatia, pelo egocentrismo instrumental e pela capacidade de manipulação simbólica e afetiva. Esses indivíduos, atraídos por posições de comando, distorcem progressivamente os critérios de normalidade, exploram a compaixão, a culpa e os impulsos morais da sociedade, e promovem um processo de ponerogênese, no qual a coletividade passa a tolerar, justificar e até internalizar padrões patológicos de conduta.
O resultado é a formação de patocracias, sistemas políticos ou culturais nos quais a lógica racional é substituída por uma paralógica ideológica e a moralidade é pervertida em paramoral, isto é, uma ética aparente que legitima a crueldade como virtude e a violência como necessidade histórica. Nesse ambiente, o mal não se manifesta apenas em figuras extremas, como Hitler ou Stalin, mas se difunde culturalmente, corroendo o tecido social, anestesiando a sensibilidade moral e produzindo sofrimento em larga escala, revelando que o totalitarismo não é uma exceção histórica isolada, mas uma possibilidade sempre latente quando a sociedade abdica do juízo crítico e da responsabilidade ética coletiva
Quando a militância aplaude a dor seletivamente autorizada, ela já não atua como sujeito político plural, mas como engrenagem obediente de uma moral invertida, reiterando a advertência arendtiana de que a barbárie não começa com o sangue explícito, mas com o colapso do juízo, com a suspensão da empatia e com a recusa em reconhecer no outro um semelhante. Empatia, aqui, não é sentimentalismo, mas a última instância de resistência ética antes da queda, quando ela desaparece, a banalidade do mal deixa de ser exceção histórica e, associada ao mal radical kantiano, passa a reger o presente guarnecido pela aparência enganosa de virtude militante.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999 [1963].
ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. São Paulo: Perspectiva, 2005.
KANT, Immanuel. A Religião nos Limites da Simples Razão. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
ŁOBACZEWSKI, Andrzej M. Ponerologia Política: uma ciência sobre a natureza do mal ajustada a propósitos políticos. São Paulo: Vide Editorial, 2014 [2006].
Prof. Weslley Danny – Doutor e Mestre, graduado em Filosofia, História, Letras, Biologia e Enfermagem. No que tange o segmento humanístico compila pós-graduações nas seguintes áreas: (ciência política), (filosofia, sociologia e ciências sociais), (ética e filosofia política) e (história e antropologia).