

Enquanto o governo estadual faz um experimento com mudança na titularidade da Secretaria Estadual de Segurança Pública (Sesp), e a Polícia Militar segue marcada por insatisfação da tropa sem reajuste salarial, denúncia de promoções por viés políticos e ameaça de punições contra policiais que fazem críticas, a criminalidade avança nos bairros de Boa Vista com cenas de terror: execuções a tiros nos bairros e até ataque a facadas dentro de comércio movimentado.
Está bem claro que esses crimes recorrentes são resultado do enfrentamento entre facções, cujas vítimas são preferencialmente homens e mulheres de nacionalidade venezuelana, inclusive o albergado assassinado no bairro Jardim Primavera, na noite de segunda-feira, a mais recente vítima dessa guerra urbana travada na Capital. Embora sejam realidades distintas, esse cenário precisa ser visto à luz do que vem ocorrendo no Estado do Ceará.
Apontado pelas estatísticas como o Estado com mais mortes violentas em 2025, o Ceará virou terra dominada pelo crime, com facções expulsando moradores e tomando comunidades inteiras, resultado de uma guerra entre facções criminosas que já dominam várias regiões. Na cidade de Pacatuba, moradores foram expulsos de casas após ameaças, pichações e intimidação, transformando vilarejos em cidades fantasmas usadas pelo crime organizado para tráfico e exploração ilegal de imóveis
Voltando à realidade de Roraima, há um certo tempo as facções venezuelanas e brasileiras vêm impondo seus métodos violentos de dominação de território, inicialmente com pichações de muros e paredes em locais de disputa, para logo partirem para execuções violentas, degolando e esquartejando com os corpos desovados em via pública, nos arredores da cidade e até em cemitério clandestino.
Mais recentemente, com a descoberta do cemitério clandestino a poucos metros da sede da Superintendência da Polícia Federal, por detrás de um terreno da Polícia Militar, os ataques passaram a ser em via pública, a qualquer hora do dia, como sinal de que a guerra é declarada e que os faccionados não hesitam em agir para manter seus territórios e suas hierarquias criminais dentro e fora do sistema prisional.
Se as autoridades seguirem fingindo que nada está ocorrendo ou ignorando os fatos, repetindo o mantra de que os crimes que estão ocorrendo é “problema dos venezuelanos”, Roraima estará a um passo de repetir o que está ocorrendo no Ceará, onde os faccionados passaram das ações criminosas por disputa por território para se apossarem literalmente das regiões e dos imóveis. E não estamos longe de presenciar isso aqui, no Estado.
Enquanto a guerra segue sangrenta nas áreas urbanas em Boa Vista, os recados vêm sendo deixados nas placas ao longo das estradas no interior do Estado, com o símbolo de facções criminosas, as quais são recados e lembretes de que o crime organizado avança por todo o Estado, onde a polícia finge que está presente e a população finge que está protegida.
Se nem na Capital, onde todas as forças de segurança estão presentes, as autoridades conseguem ter domínio da criminalidade e conseguem chegar com a presença do poder público, então já podemos imaginar a situação nos municípios do interior. Caminhamos a passos largos para a “cearálização” da realidade roraimense.
*Colunista