Dia de terror no bairro Buritis e a ‘polícia de vitrine’ a ser colocada em prática no comércio da Capital
PMs de setores administrativos vão atuar no policiamento de centros comerciais (Foto: Divulgação)

Três pessoas mortas por claros sinais de execução a tiros e mais um homem baleado, todos venezuelanos, marcaram um dia de terror no bairro Buritis, zona Oeste da Capital, na quinta-feira da semana passada, dia 16. Mais um sinal explícito da escalada da criminalidade provocada pelo confronto entre faccionados na disputa por território e acerto de conta. Os crimes desnudam o grande desafio na Segurança Pública para esse ano de 2026.

Enquanto isso, três dias antes, em 13 de janeiro, o Comando da Polícia Militar havia convocado todos os praças lotados nos departamentos e diretorias do Estado-Maior, no Quartel do Comando-Geral (QCG), para participarem de uma suposta palestra institucional sobre a atuação do policiamento preventivo. Mas a reunião acabou servindo para informar sobre uma nova escala de serviço operacional em que os policiais administrativos iriam passar a ser empregados no policiamento dos centros comerciais em Boa Vista.

Importante lembrar que, antes daquela madrugada e noite de execuções no Buritis, o governo teve acesso a uma pesquisa de satisfação social que avaliou negativamente a PM, não só pelos crimes que vêm ocorrendo, mas principalmente pelos recorrentes casos envolvendo policiais em crimes graves, que incluem venda de armas e munições ilegais, milícia, sequestro e tortura, garimpo ilegal, crimes eleitorais e assassinatos, inclusive oficiais do alto escalão.

Os praças logo entenderam a mensagem: enquanto os crimes estão ocorrendo nos bairros menos assistidos de policiamento, a exemplo do que ocorreu no Buritis, o comércio passaria a ser uma vitrine para transmitir a sensação de que tudo está indo bem, com uma viatura por esquina, inclusive algumas delas somente de enfeite. E não se trata de apenas uma suposição ou reclamação infundada de PMs que vão sair do administrativo para atuar nas ruas.

Porque, na prática, os policiais do administrativo escalados para atuação no policiamento comercial foram informados, na reunião do dia 13, que as equipes não irão atender a chamadas de ocorrências em seus respectivos setores fora da área comercial, a não ser que se deparem com situação de flagrante. Os policiais tomaram-se de indignação não somente por acreditar em uma maquiagem para fins políticos, com policiais servindo de massa de manobra.

Acima disso, há tempos a tropa vem mostrando sinais de desmotivação por falta de reajuste ou reposição salarial. Os militares entendem que, além de cumprir demandas administrativas, que por vezes são complexas e exigem prazos para conclusão, ainda irão acumular o policiamento de vitrine no comércio local. Os policiais alegam que a tropa há tempos vem agindo com insatisfação por falta de valorização e reconhecimento.

Além da defasagem salarial, os PMs vêm denunciando que o critério para ascensão profissional virou moeda de barganha política, uma vez que só vem sendo promovido quem tem algum padrinho político, não sendo levado em consideração nessas promoções o envolvimento com violência doméstica, atuação no garimpo ilegal ou segurança de empresários.

A indignação não é de agora. Na data da celebração do aniversário da Polícia Militar de Roraima, no dia 26 de novembro passado, um desabafo foi feito pela major Adriane Severo, que expos a realidade da tropa, conforme abordou esta Coluna no artigo intitulado “Festa dos 81 anos de criação da PM de Roraima e o desabafo de uma policial militar”, em um relato sobre o sentimento dos policiais após um mês de eventos pelo aniversário da instituição militar.

Aquelas fortes declarações acabaram servindo como uma radiografia do sentimento dos policiais militares que estão na linha de frente, especialmente dos que não vivem de favorecimento político partidário, com 12 anos com salário defasado, sobrecarregados por escalas para estarem presentes em eventos políticos, sem condições para trabalhar cumprindo suas missões no policiamento ostensivo e no apoio às recorrentes operações policiais.

O resultado do clamor da major era esperado. O Comando da PM já externou o que irá ocorrer com a oficial: ela irá responder disciplinarmente por tecer críticas ao governador, que é o comandante em chefe da PM, reforçando as denúncias de utilização de mecanismos disciplinares para perseguição política, como ocorreu em outras oportunidades, e com oficiais e praças não sendo promovidos por perseguição ou represália.

O alerta não poderia ser o mesmo de quando ocorreu o desabafo da major Adriane foi a público: o Estado de Roraima jamais irá vencer essa guerra contra a criminalidade, que se fortaleceu a partir das facções, se não tiver uma PM forte, com a tropa realmente valorizada, não apenas com desfile de viaturas e discursos, mas com policiais com salário dignos, promoções sem viés político e com estrutura ideal para esses novos tempos de crime organizado.

*Colunista

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