
Você finaliza o dia com alguns vídeos leves no celular ou rola o feed do Instagram “só para relaxar”. Meia hora depois, apaga as luzes, vira para o lado e até dorme rápido. Mas na manhã seguinte, mesmo com 8 horas na cama, acorda com a mente pesada, sensação de cansaço e foco oscilante. A explicação está em um detalhe cada vez mais estudado: o tempo de exposição à tela antes de dormir e seu impacto direto no sono profundo, aquele estágio que mais regenera o corpo e a mente. E a resposta surpreende: não são horas — bastam 15 a 30 minutos mal programados para atrapalhar tudo, mesmo sem que você perceba.
Sono profundo: o estágio que seu cérebro mais precisa
O sono é dividido em ciclos, e o mais restaurador deles é o sono profundo (fase N3), onde o corpo libera hormônios de crescimento, restaura tecidos, consolida memórias e equilibra a função imunológica. É o tipo de sono que, quando bem vivido, permite que a pessoa acorde com a mente limpa, energia estável e sensação de verdadeiro descanso.
O problema é que o sono profundo é sensível à luz — especialmente à luz azul emitida por telas de celular, TV e computador. Essa luz bloqueia a produção natural de melatonina, o hormônio que sinaliza ao corpo que é hora de dormir. E mesmo que você consiga adormecer depois do uso da tela, o que acontece na prática é um atraso na chegada do sono profundo. O corpo permanece mais tempo em estágios leves, e o sono se torna fragmentado.
15 minutos de tela já causam atraso no ciclo
Estudos recentes mostram que 15 a 30 minutos de exposição a telas brilhantes antes de dormir podem atrasar a liberação de melatonina em até 1 hora. Ou seja: você pode estar dormindo às 23h, mas seu cérebro só entra no modo “sono reparador” à meia-noite ou mais. Esse intervalo, mesmo pequeno, compromete toda a arquitetura do sono da noite.
Além disso, o tipo de conteúdo acessado também interfere. Vídeos curtos e rápidos (como os de redes sociais) aumentam a atividade cerebral, estimulando áreas que deveriam estar desacelerando. A consequência disso é o aumento da frequência cardíaca, menor profundidade do sono e menor tempo em estágio N3.
E não se engane: modo noturno, filtro âmbar e escurecimento automático ajudam, mas não anulam o impacto da luminosidade e da estimulação mental de estar diante de uma tela ativa.
Os sinais invisíveis de sono superficial
A maioria das pessoas que sofre com esse tipo de interferência nem percebe. Como conseguem dormir sem insônia, acreditam que descansaram bem. Mas alguns sinais sutis revelam o contrário:
- Acordar com sensação de cabeça pesada ou “nevoeiro mental”;
- Irritabilidade matinal ou maior sensibilidade a ruídos;
- Falta de foco nas primeiras horas do dia;
- Sensação de cansaço mesmo após noites longas de sono;
- Vontade de cochilar logo após o almoço, mesmo sem esforço físico.
Esses sintomas geralmente não estão ligados à quantidade de horas dormidas, mas à qualidade dos ciclos de sono profundo que foram interrompidos ou reduzidos.
Quanto tempo longe das telas já faz diferença
A boa notícia é que bastam 45 a 60 minutos longe das telas antes de dormir para o corpo começar a retomar o padrão ideal de liberação de melatonina. Esse período permite ao cérebro reduzir a atividade das ondas beta (de atenção) e aumentar gradativamente as ondas alfa, teta e, finalmente, delta — as responsáveis pela indução ao sono profundo.
O ideal é criar uma “zona livre de telas” no fim da noite, substituindo o celular ou TV por atividades que ajudam a desacelerar, como:
- Leitura de livros físicos;
- Escuta de músicas suaves;
- Alongamentos leves ou meditação guiada sem tela;
- Conversas tranquilas com luz baixa no ambiente.
Mesmo quem não consegue eliminar completamente o celular pode configurar o aparelho para modo escuro real, reduzir o brilho ao mínimo e evitar rolagem em redes sociais.
Dormir bem é mais do que tempo de cama
Muita gente ainda associa sono reparador com “dormir 8 horas”. Mas quem usa tela antes de dormir pode até alcançar esse tempo e ainda assim acordar com a mente agitada e corpo travado. Isso acontece porque o sono profundo — que representa cerca de 20% do total da noite — pode ser diminuído sem que a pessoa note.
Dormir bem, portanto, exige não apenas tempo na cama, mas preparação para que o corpo entre nos ciclos certos. E entre todos os hábitos que interferem nisso, a exposição às telas antes de dormir é um dos mais silenciosos, mas impactantes.
Quem corrige esse padrão normalmente percebe melhora em poucos dias: sono mais estável, menos despertares noturnos e mais clareza mental ao acordar. É um pequeno ajuste com grande retorno.