
Sebastião Pereira do Nascimento*
Antes de tudo, é preciso trazer à memória um fragmento da obra As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo Galeano, o qual menciona que “… a América Latina nasceu para prover o mercado mundial, e aos trancos e barrancos continuamos atados ao dever de obediência. […] Segundo a voz de quem manda, os países do sul do mundo devem acreditar na liberdade de comércio (embora não exista), em honrar a dívida (embora seja desonrosa), em atrair investimentos (embora sejam indignos) e em entrar no mundo (embora pela porta de serviço). […] O que nos legaram esses esplendores? Nem herança, nem bonança. Mas longas caravanas de infelizes condenados à miséria ou à morte precoce. E outra vez voltam as glórias efêmeras, que ao som de suas trombetas nos anunciam grandes desgraças…”.
Neste triste vale de lágrimas está a América Latina, onde seus líderes polarizam os sistemas governamentais e trazem à luz uma retórica que, via de regra, inviabiliza quaisquer debates mais profundos sobre os graves problemas regionais. Muitos governantes, tanto da direita (moderada ou extremista) quanto da esquerda (progressista), adotam uma política esfaceladaque pode ser conveniente entre seus pares, mas que dificulta o diálogo multilateral, tornando-se difícil alcançar um equilíbrio político, econômico e social.
Essa falta de consenso abre caminhos para acirrar as diversas formas de violência nos países latino-americanos, atingindo sobremodo as camadas mais pobres da população. Diante disso, vemos nos braços de muitos governos reacionários atitudes hostis que, em função de alguma resistência popular, resultam em censuras, torturas, prisões ilegais, dentre outras formas de violências sociais.
Atualmente, essas mazelas políticas e ideológicas se ampliam cada vez mais na América Latina, onde políticos inescrupulosos distorcem fatos ou adotam ideias abjetas, em vez de demandarem respostas construtivas na tentativa de resolver os problemas regionais. Esses governantes respondem de acordo com suas convicções ideológicas, alimentando uma polarização que gera profundas instabilidades políticas e disfunções sociais, além de abrir portas para países beligerantes que, de forma coercitiva, tentam exercer o domínio sobre os países América Central e do Sul.
Caso típico é o da Venezuela, quando os EUA — se aproveitando de um povo fragilizado e de uma nação asfixiada economicamente e, claro, de uma América Latina desarticulada em seus múltiplos aspectos: político, econômico, defesa, etc — invadiram o país, por meio de uma ação militar, e capturaram o seu mandatário, o ditador Nicolás Maduro. Contudo, isso não seria trágico se a intervenção militar não tivesse ocorrido à revelia do Congresso dos EUA, em flagrante violação dos direitos internacionais, e não fosse o apetite neocolonizador de Trump de se apossar do petróleo venezuelano.
Diante da situação, embora Maduro tenha sido deposto, Venezuela continua mergulhado num mar de incertezas, visto que o regime chavista/madurista, marcado por teoria da conspiração, perseguição aos opositores, violações dos direitos humanos, corrupção eleitoral e deterioração econômica e social do país, parece permanecer em grande parte intacto liderada por Delcy Rodríguez (ex-vice-presidente, agora empossada como presidente interina), sob tutela de Donald Trump, o qual aceitou trabalhar com remanescentes do governo Maduro, na condição de que os objetivos de Washington sejam atendidos plenamente, sendo uma das condições a cessão do controle da vasta riqueza petrolífera da Venezuela pelos EUA.
Para Trump, não importa se o povo venezuelano continua nas mãos sujas da ditadura chavista/madurista ou não. Como diz Erick Langer, ex-diretor do Centro Latino-Americano da Universidade de Georgetown, em Washington, “as exigências de Trump ultimamente deixam claro: ele quer o acesso às reservas de petróleo da Venezuela e a influência geopolítica na região. […] Até agora, não houve apelos por reformas democráticas ou eleições livres. Aparentemente, a Venezuela deve retornar à esfera de influência estadunidense sob uma liderança — com ou sem legitimidade democrática.”
Quanto à prática de intervenção dos EUA em outros países, trata-se sempre de caso pensado e de países com algum potencial econômico ou estratégico, mas que precisam estar em fragilidade política e social. Daí o pretexto de “ajuda” financeira ou promoção de mudanças de regime pela força. Contudo, o histórico de intervenção estadunidense é bastante desastroso, pois nunca traz resultados promissores para o povo local; tendo como saldo o aumento da crise socioeconômica e um Estado em ruína dominado pela violência, a exemplo do Iraque, do Afeganistão, do Haiti, além de outras regiões da América Latina.
Em verdade, Donald Trump não faz nenhum segredo quando diz que deseja controlar o petróleo da Venezuela: e deve controlar por muitos anos. O mesmo Trump que já tentou usurpar os recursos naturais da Ucrânia em troca de ajuda militar. Também, como pretexto, ele continua defendendo a crença de que as empresas petroleiras estadunidenses foram “roubadas” quando Hugo Chaves nacionalizou a indústria petrolífera venezuelana. Ora, quantos petrodólares as empresas estadunidenses levaram durante os anos em que operaram no país? Agora vem Trump pressionando a cúpula do Palácio de Miraflores para que seja totalmente obediente, pois os EUA pretendem, se necessário, violar ainda mais a soberania da Venezuela, para ser de fato sua colônia econômica.
A ideia de um controle duradouro sobre o petróleo venezuelano, reflete a vontade de Trump para um envolvimento de longo prazo, com pretexto de que a reconstrução da indústria levaria anos e exigiria bilhões em investimentos de empresas estadunidense. Isso talvez seja um dos motivos de Trump não priorizar, junto à Caracas, nenhum plano para eleições gerais do país em curto prazo. Sobre isso, a própria presidenta interina não é simpática à possibilidade de mudanças, devido ao máximo envolvimento da alta cúpula civil-militar em toda a vida econômica do país, por meio de uma ampla rede de corrupção que incluir também milícias e grupos civis armados pelo regime e até guerrilhas colombianas que apoiavam o ditador Maduro em troca de proteção.
Assim, é difícil acreditar que essa malta criminosa cederá o poder de uma hora para outra. É improvável ainda que as Forças Armadas venezuelanas, apesar de qualquer humilhação que seus generais possam sentir por não conseguirem se opor ao ataque estadunidense, aceitem os planos dos EUA na premissa de manter o status quo. Isso incorpora, inclusive, o grupo de civis e militares que, porventura, estiveram em conluio com o governo de Donald Trump no sentido de consolidar o sequestro do ex-mandatário venezuelano.
Como todos os sectários da extrema-direita, Donald Trump é um sujeito abertamente autoritário e destrutivo, com pouco apreço às normas estabelecidas, e assim segue a velha retórica imperialista de instrumentalizar suas agências governamentais e mobilizá-las para punir adversários e agredir outros países. Com pouca habilidade intelectual, Trump não consegue compreender que a melhor forma de viver no mundo é seguir um conjunto de regras acordadas, conforme estabelecido no direito internacional.
Diante disso, para que a América Latina tenha progresso e paz, é preciso, antes de tudo, conter Donald Trump. Caso os países democráticos da região não derem um ultimato definitivo ao Trump, ele vai seguir escalando conflitos e agindo como se a América Latina fosse o seu quintal, como bem faziam os EUA durante o período das opressoras ditaduras militares, sobretudo na América do Sul, quando os EUA interviam na região com interesses políticos e econômicos.
Portanto, discutir o papel da democracia na região, aprofundar as cooperações regionais, defender os direitos humanos, reduzir as desigualdades sociais, promover a integração econômica e atuar conjuntamente no combate ao crime organizado, são algumas medidas possíveis de frear Donald Trump; e o Brasil, nesse momento, seria um dos países com a capacidade de mediar a situação no âmbito da América Latina. Haja vista as respostas que vem dando aos EUA, principalmente no campo da diplomacia política em defesa da democracia e da soberania brasileira.
As respostas aos EUA proclamadas pelo presidente Lula, defendendo a soberania nacional, reagindo contra o aumento de tarifas sobre produtos brasileiros e atuando contra as interferências no judiciário, foram medidas patentes para amortecer tensões externas (vindas de Trump) e levantar uma onda popular evocando um sentimento nacionalista, especialmente nas redes sociais. Paralelamente, as decisões do STF que culminaram na prisão de Jair Bolsonaro e de seus lacaios (inclusive de alguns generais), por participação na trama golpista, também foram incisivas para neutralizar as interferências de Trump. Além disso, o Brasil se ocupou em demolir diversas ações criminosas, por exemplo, os ataques às eleições democráticas e às sedes dos três poderes, em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, e ainda insiste em combater os ataques à honra e dignidade do país por elementos da extrema-direita que compõem a escumalha bolsonarista.
Todas essas reações brasileiras revelam de fato uma democracia estruturante no Brasil, capaz de fazer um contrapeso frente às ameaças estadunidenses em defesa da autodeterminação e da soberania das nações latino-americanas. Não sem motivo, faço minhas as palavras do historiador Erick Langer (Universidade de Georgetown, em Washington) quando diz que “o único [país] que é grande o suficiente para parar [Trump] e dizer chega aos Estados Unidos é o Brasil.” Frank Walter (atual presidente alemão) faz ecoar a opinião de Langer quando manifesta que a democracia global está sendo atacada como nunca antes e citou o Brasil ao dizer que é necessária a “intervenção internacional ativa em situações de ameaça”. “[…] Países [emergentes] como Brasil e Índia precisam ser convencidos a proteger a ordem mundial”.
*Filósofo, escritor e consultor ambiental. Autor dos livros “Recado aos humanos” (editora CRV), “À sombra do caimbé” e “Cem contos miúdos” (ambos no prelo). Membro da equipe editorial da revista “Biologia Geral e Experimental”.