Esse comportamento do cachorro é comum mas pode indicar um problema

É fácil rir ou simplesmente ignorar quando o comportamento do cachorro muda de forma inesperada — ele passa a lamber excessivamente as patas, a correr em círculos sem parar ou até a encarar fixamente um canto da parede. Só que esses sinais, embora pareçam inofensivos, podem indicar um problema que muitos tutores preferem não enxergar: o acúmulo de estresse e frustração silenciosa nos pets. Em vez de esperar um sintoma físico mais grave, observar essas pistas sutis pode ser a chave para evitar complicações maiores — físicas e emocionais.

Comportamento do cachorro: sinais que não podem ser ignorados

Quando se trata de comportamento do cachorro, a maioria das pessoas associa mudanças apenas a fases, birras ou excesso de energia. Mas e se o que parece “normal” for, na verdade, um alerta silencioso de que algo está fora do lugar? É justamente aí que mora o perigo. Comportamentos como lamber as patas até formar feridas, rosnar sem contexto ou destruir móveis sem motivo aparente costumam surgir como forma de escape de um desconforto interno.

Em cidades pequenas ou bairros mais tranquilos, onde os cães costumam ter uma vida menos agitada, muitos tutores acreditam que só o fato de o cachorro ter quintal já é suficiente. Mas a falta de estímulo mental, companhia e rotinas claras pode provocar uma ansiedade acumulada que o animal expressa de maneiras cada vez mais intensas — e erradas.

Lamber as patas: vício ou sinal de dor interna?

Um dos comportamentos mais comuns é o cachorro lamber compulsivamente as próprias patas. Em muitos casos, esse gesto é visto como mania ou higiene exagerada. O que poucos sabem é que esse ato está diretamente ligado a desequilíbrios emocionais — principalmente em cães que passam muito tempo sozinhos. Além disso, pode sinalizar dor localizada, alergia ou até problemas neurológicos.

Se o cachorro lambe sempre a mesma região, a chance de algo físico estar incomodando é alta. Já se ele alterna as patas ou faz isso de forma mais frenética quando está sozinho, provavelmente é emocional. Essa distinção ajuda o tutor a entender se é caso para veterinário clínico ou comportamentalista — mas em ambos os casos, o problema existe e precisa ser tratado.

Corridas em círculos ou “voo da abelha”

Outro comportamento que muitos consideram “fofo” ou engraçado é o famoso “zoomie” — quando o cachorro começa a correr em círculos de forma frenética, geralmente dentro de casa ou no quintal. Se for um episódio isolado, pode ser apenas um descarrego de energia. Mas quando vira rotina, esse comportamento revela um excesso de estímulo mal direcionado ou, paradoxalmente, falta de estímulo mental.

Esse tipo de atitude aparece com frequência em cães de médio a grande porte criados em espaços reduzidos e com pouca rotina de passeio. Em áreas suburbanas, é comum o tutor trabalhar o dia todo e deixar o cão solto no pátio, acreditando que ele “corre o suficiente”. Mas estímulo físico sem estímulo cognitivo é meio caminho para transtornos comportamentais.

Encara a parede ou persegue sombra?

Ver o cachorro fixar o olhar num ponto vazio da parede ou tentar caçar sombras que não existem pode parecer engraçado à primeira vista — mas esse é um dos sinais mais preocupantes. Esse tipo de obsessão visual geralmente está ligado a distúrbios neurológicos ou episódios de ansiedade aguda. Quanto mais o comportamento se repete, maior a chance de algo mais sério estar acontecendo.

Em muitos casos, esse comportamento está ligado ao excesso de solidão ou ambientes com estímulos visuais constantes, como telas de TV, celulares ou reflexos. O cachorro passa a “caçar” qualquer fonte de luz ou movimento, criando um ciclo vicioso difícil de interromper. E quanto mais o tutor reforça esse comportamento com risadas ou gravações para redes sociais, mais o cão entende que deve continuar.

Como identificar quando o comportamento é realmente um problema?

Nem todo comportamento estranho do cachorro significa doença ou distúrbio. Cães têm personalidades distintas, rotinas diferentes e formas próprias de se expressar. O ponto de alerta deve ser acionado quando o comportamento:

  • surge de forma repentina e sem explicação;
  • se repete diariamente ou em determinados horários;
  • interfere na alimentação, sono ou interação com pessoas;
  • evolui para sinais físicos, como feridas, perda de pelos ou emagrecimento.

A observação atenta do dia a dia do pet é o primeiro passo para identificar esses padrões. Em vez de normalizar ou ignorar, o ideal é buscar compreender o que pode estar causando a mudança.

Quando procurar ajuda: o limiar entre o natural e o preocupante

Uma ida ao veterinário muitas vezes é vista como algo necessário apenas quando há sintomas físicos evidentes. No entanto, boa parte dos transtornos comportamentais se instala silenciosamente. Por isso, contar com o olhar de um profissional comportamental pode fazer toda a diferença. Especialmente em regiões onde a cultura ainda não valoriza a saúde emocional do pet, é preciso quebrar esse paradigma.

Em bairros do interior ou zonas rurais, onde os cães têm maior liberdade, o comportamento desregulado pode passar despercebido por mais tempo. Afinal, o cachorro “está solto, come bem e late quando tem que latir”. Mas esse olhar simplista muitas vezes atrasa o diagnóstico e pode levar o animal a desenvolver quadros mais graves, como depressão canina ou agressividade repentina.

O papel do tutor no equilíbrio emocional do cão

Entender que o comportamento do cachorro é um reflexo direto do ambiente e da relação com o tutor é essencial. Cães não nascem ansiosos, compulsivos ou agressivos. Essas reações são formadas a partir de vivências repetidas, frustrações não compreendidas e falta de previsibilidade no dia a dia.

Criar uma rotina básica de passeios curtos, momentos de interação consciente e enriquecimento ambiental (com brinquedos, desafios e até aromas diferentes) pode transformar completamente a dinâmica com o pet. Pequenas mudanças, feitas com consistência, valem mais do que grandes soluções pontuais.

Um novo olhar para atitudes antigas

O comportamento do cachorro carrega muito mais do que obediência ou desobediência. Ele revela, na verdade, o quanto estamos atentos ao que o animal sente e precisa. Observar com atenção, respeitar os limites do pet e procurar ajuda quando necessário não é exagero — é cuidado responsável. Afinal, o bem-estar do seu cachorro começa no olhar que você tem para ele.