
A conjuntivite costuma ser associada a episódios rápidos de irritação, que geralmente melhoram em poucos dias. Mas há situações em que o problema não passa. Em muitos pacientes, a inflamação ocular se arrasta por semanas ou meses e, diferentemente das conjuntivites virais ou bacterianas, não é causada por micróbios. Nesses casos, a origem pode ser alérgica, tóxica ou até mesmo resultado do uso contínuo de certos colírios.
Segundo especialistas da área de saúde ocular, a demora em identificar a causa aumenta o risco de lesões na córnea, o que pode afetar a visão e, em casos mais graves, resultar em cicatrizes permanentes que exigem tratamento cirúrgico.
Para entender a situação, é preciso ficar atento aos sintomas, considerando que o problema é de difícil identificação. A conjuntivite alérgica crônica costuma provocar coceira, lacrimejamento e sensação de areia nos olhos, mas algumas pessoas relatam apenas um incômodo leve, muitas vezes confundido com “olho cansado”.
Já as conjuntivites tóxicas e medicamentosas, que aparecem por causa da exposição repetida a produtos como colírios com conservantes, soluções para lentes de contato, maquiagem ou até sprays nasais, evoluem de forma lenta e silenciosa. Esse contato frequente irrita a superfície ocular e pode levar à perda de células importantes para manter os olhos lubrificados e protegidos.
Estudos científicos mostram que conservantes usados em muitos colírios, como o benzalcônio (BAK), podem causar danos quando utilizados de forma prolongada. Eles irritam células da conjuntiva e da córnea e reduzem a produção de mucina, uma substância que faz parte da camada de proteção do olho. Esse processo ajuda a explicar por que alguns pacientes desenvolvem inflamação crônica ou até pequenas erosões na córnea depois de usar por muito tempo colírios que contêm esse ingrediente.
Alguns medicamentos merecem ainda mais atenção. Há relatos na literatura médica de conjuntivites que evoluem para cicatrizes devido ao uso contínuo de colírios para glaucoma, vasoconstritores e até certos anti-inflamatórios oculares. Em muitos casos, interromper o produto responsável é o passo mais importante, mas o dano causado pode exigir tratamentos específicos para controlar a inflamação ou até cirurgias reparadoras. Por isso, conhecer o histórico de colírios e outros produtos usados pelo paciente é essencial em qualquer caso de conjuntivite persistente.
Entender se a irritação é causada por alergia ou toxicidade faz diferença no tratamento. A conjuntivite alérgica costuma responder bem quando o alérgeno é identificado e evitado, além do uso de colírios antialérgicos recomendados pelo médico. Já nos casos de toxicidade ou reação medicamentosa, é fundamental suspender o agente irritante e tratar a superfície ocular com colírios lubrificantes sem conservantes e medidas de proteção da córnea.
O tempo entre os primeiros sintomas e o atendimento especializado tem impacto direto no resultado. Quando a inflamação se prolonga, a córnea pode perder camadas superficiais, criar pontos de erosão e até ficar irregular, prejudicando a visão. O uso frequente de colírios descongestionantes vendidos sem receita também pode agravar o quadro, já que muitos contêm substâncias capazes de provocar reações alérgicas e irritações repetidas.
Entenda a importância do diagnóstico precoce da conjuntivite crônica
Um diagnóstico precoce faz toda a diferença. O exame oftalmológico avalia a superfície ocular, identifica erosões com corantes específicos e investiga sinais de alergia ou inflamação nas pálpebras. Em alguns casos, pode ser necessário suspender colírios suspeitos, realizar testes alérgicos ou até pedir uma biópsia conjuntival para esclarecer a causa. Sociedades oftalmológicas reforçam que a integração entre especialistas e a atenção primária ajuda a reduzir atrasos no diagnóstico e a evitar sequelas permanentes.
A prevenção envolve cuidados simples. Pacientes devem evitar o uso prolongado de colírios descongestionantes, preferir fórmulas sem conservantes quando indicado, manter a higiene correta das lentes de contato e ter cautela com cosméticos aplicados perto dos olhos. Farmacêuticos e profissionais de saúde também têm papel importante ao alertar sobre riscos e revisar o uso de medicamentos oculares. Estudos recentes reforçam que muitas reações adversas ainda são subnotificadas e que o acompanhamento rigoroso pode reduzir problemas.
Para quem convive com olhos vermelhos que nunca melhoram, o recado é claro: não normalize o sintoma. Procure avaliação especializada, revise os produtos usados próximo aos olhos e siga orientações de proteção da superfície ocular. Identificar cedo a causa da inflamação e corrigir o agente responsável é a estratégia mais eficaz para evitar danos à córnea e preservar a visão.