Saúde e Bem-estar

Especialistas explicam os riscos de dormir mal

De acordo com estudos, dormimos cerca de 1/3 das nossas vidas, isso representa que para quem vive em média 70 anos, 23 anos deste tempo se passa dormindo

Você sabia que existe uma data em que se comemora o Dia Mundial do Sono?  Neste ano, o tema central é  “O sono é essencial para a saúde”, e está sendo comemorada nesta sexta-feira, 17. O objetivo é conscientizar e alertar a população sobre a importância do sono na qualidade de vida e saúde.

De acordo com estudos, dormimos cerca de 1/3 das nossas vidas, isso representa que para quem vive em média 70 anos,  23 anos deste tempo se passa dormindo. A ciência afirma que o sono tem a função de reparação e consolidação cerebral, assim como da manutenção das funções fisiológicas do indivíduo.

A medicina reconhece que o sono é um dos pilares fundamentais da saúde individual e social, e os seus distúrbios impactam de forma negativa a saúde individual (inclusive risco de morte aumentado por apneia do sono) e trazem consequências a vida social e econômica que rodeiam aqueles que dormem mal, pois são pessoas com mais probabilidade de doenças físicas e emocionais, baixa produtividade, tem risco aumentado de sofrer e gerar acidentes pela sonolência diurna e dificuldade de concentração que a falta de sono gera.

Cada vez mais, vemos o sono ser comprometido pelos hábitos da vida moderna, como uso de telas de celular, computador e tv até tarde, somados ao estresse e ansiedade, uso de alimentos, bebidas e outros estimulantes que comprometem a qualidade e a redução no tempo dedicado ao sono. Além dos fatores externos que contribuem para a piora na qualidade do sono, temos as patologias ligadas ao sono que merecem grande destaque e precisam ser diagnosticadas e tratadas por profissionais que atuem na área do sono, pois podem acarretar em risco de morte aumentado.

Todas as pessoas, de todas as idades e independente dos problemas detectados podem ter melhorias no seu sono e desta forma ter sua qualidade de vida e saúde recuperadas.

Você ronca? Sabe o que é síndrome da apneia do sono?

A medicina do sono engloba diversos transtornos, sendo os mais comuns a insônia e apnéia/hipopneia obstrutiva do sono (SAHOS), que se manifesta com o ronco ao dormir. O Dr Ivan Machado, Otorrinolaringologista com atuação no sono, ressalta que a procura por tratamento muitas vezes é feita pela parceira ou parceiro do paciente, pois geralmente os roncos e até mesmo a SAHOS podem não ser percebidas pelo paciente. 

“A SAHOS vai além do incômodo social causado pelo ronco, é uma doença que gera maior risco de desenvolvimento de hipertensão arterial sistêmica, infarto e AVC que podem ser fatais. Muitos sintomas estão relacionados a SAHOS e devem ser investigados, tais como: dor de cabeça, dificuldade de aprendizado e concentração, ir ao banheiro muitas vezes à noite, piora do rendimento sexual, azia, dificuldade para emagrecer, sonolência diurna”, relatou.

O sono e a infância

Segundo a pediatra, Aline Sant’Ana, assim como respirar e comer são funções necessárias à nossa vida, dormir também é vital. Tanto para adultos como para crianças, uma boa noite de sono, é essencial à saúde e bem estar, repor as energias e preparar o corpo para enfrentar as atividades do dia seguinte. “Para as crianças é ainda mais importante. É durante o sono que o crescimento, o fortalecimento da imunidade e o aprendizado acontece por exemplo”, ressaltou.

“Durante o dia e a noite, nosso corpo organiza de forma inteligente a liberação e repressão de hormônios que afetam as mais diversas funções. Eles regulam, estimulam e inibem os mais variados processos do organismo para seu perfeito funcionamento. O período noturno é o momento em que hormônios que participam do crescimento são liberados, sendo o principal deles o GH (hormônio do crescimento, do inglês growth hormone)”, continuou. 

Este hormônio possui ação direta no metabolismo, reconstituição de tecidos, crescimento de órgãos e ossos. Cerca de 75% do GH é liberado durante a fase do sono profundo, por isso a importância de um descanso noturno adequado para que a criança cresça de forma saudável. Também é durante o sono profundo que as memórias de curto prazo se tornam de longo prazo, sendo fundamental para o processo de aprendizagem. 

A pediatra informa que uma rotina saudável é essencial para que o sono seja de qualidade. Uma boa alimentação, exercícios físicos regulares, horários de dormir e acordar regrados, além do tempo de sono diário recomendado para cada idade. 

Ainda de acordo com ela, ir cedo para a cama é fundamental para se ter um sono profundo e regular sem afetar a rotina do dia. Crianças que estudam pela manhã, por exemplo, é ideal que estejam na cama entre 20 e 21h.

Porque precisamos dormir bem?

De acordo com a cirurgiã dentista, Daniela Favelli, durante o sono, o corpo recupera as energias, otimiza o metabolismo e regulariza a função de hormônios fundamentais para o funcionamento do corpo. Ocorre a consolidação da memória, permitindo um melhor aprendizado e desempenho.


Daniela Favelli em entrevista à Folha (Foto: Nilzete Franco/FolhaBV)

“Os tecidos do corpo são reparados, facilitando a cicatrização de feridas, a recuperação dos músculos e o fortalecimento do sistema imune. Desta forma, uma boa noite de sono é recomendada para prevenir doenças graves, como ansiedade, depressão, Alzheimer e o envelhecimento precoce”, contou.

Quais as consequências para quem sofre de Apneia Obstrutiva do Sono?

Pode causar ou agravar doenças cardiovasculares como pressão alta, além de predispor a diabetes tipo II, Alzheimer, perda de memória, problemas de aprendizado, falta de disposição, alterações de humor, alterações hormonais, diminuição da libido, glaucoma e arritmias.

Quais são as causas da Apneia Obstrutiva do Sono?

São diversos fatores que podem agir individualmente ou associados que provocam ou agravam o estreitamento da via aérea superior (VAS) tais como:

Obesidade;

Idade avançada;

Perda do tônus muscular;

Fatores genéticos;

Anatomia estreita da VAS.

A Ortodontia na infância e o sono

Alterações no padrão de sono em crianças podem resultar em efeitos deletérios para a saúde, inclusive letargia, perda de memória, problemas de raciocínio e julgamento, interrupção das funções metabólicas normais e distúrbios cardiovasculares.


Tayna Cruz em entrevista à Folha (Foto: Nilzete Franco/FolhaBV)

De acordo com a também cirurgiã dentista, Tayna Cruz, o crescimento craniofacial desarmônico e má oclusão dentária podem estar associados à respiração oral em crianças. Uma das causas mais comuns de respiração oral é o aumento de tonsilas palatinas e faríngeas. 

A correlação entre estes fatores morfológicos e funcionais podem influenciar o crescimento crânio-facial e as anomalias do padrão respiratório resultando em sintomas como ronco, microdespertares e eventos de apneia.

“A possibilidade de tratar os distúrbios respiratórios do sono em idade precoce deveria ser mais explorada, uma vez que o ronco e bruxismo em crianças pode ser um sinal de alterações que podem afetar o crescimento e desenvolvimento normais. A apneia obstrutiva do sono (AOS) na infância é caracterizada pelo colapso parcial intermitente ou completo das vias aérea superiores durante o sono”, contou.

Para Tayna, as crianças com AOS com fatores de risco craniofaciais concomitantes devem ser encaminhadas ao ortodontista.

“A ortodontia tem a possibilidade de atuar nos pacientes em idade de crescimento direcionando o crescimento facial no sentido de buscar um desenvolvimento com harmonia de forma e equilíbrio de função”, disse. 

Diversos métodos podem ser utilizados, como: aparelhos ortopédicos e ortodônticos que promovam a expansão maxilar; correção ortopédica do retrognatismo mandibular que parece aumentar o espaço das vias aéreas em curto prazo na perspectiva tridimensional; e aparelhos removíveis intra-orais miofuncionais que têm sido usados no tratamento do ronco e apneia do sono, buscando equilibrar a postura da mandíbula e da língua para melhorar a função respiratória. 

“Todos têm resultados significativos para a desobstrução de vias aéreas superiores e consequentemente para melhoria do sono”, concluiu..

Como a psiquiatria atua nos distúrbios do sono?

De acordo com a psiquiatra Raquel Lima, o sono é parâmetro para analisar diversas doenças psiquiátricas. Isso porque o sono de uma maneira geral é algo que controla o metabolismo. 


Raquel Lima em entrevista à Folha (Foto: Nilzete Franco/FolhaBV)

“Muitas pessoas apresentam algum problema para dormir, que são os chamados distúrbios do sono, que se dividem em mais cem tipos e quatro categorias principais: dificuldade de adormecer ou permanecer dormindo; problemas para permanecer acordado; problemas para manter uma rotina regular de sono e comportamentos incomuns durante o sono”, contou.

De acordo com Raquel, a quantidade mínima de sono para uma pessoa adulta é de 6h, por noite, mas os seres humanos possuem necessidades individuais, enquanto alguns precisam de 10 horas, outros se contentam com 5. 

No entanto, quando o sono não ocorre de maneira ‘normal’, a repercussão negativa pode vir a curto e longo prazo. 

Confira abaixo os quatro distúrbios mais comuns do sono

Insônia: Pode ser transitória, de curto prazo (durar até duas semanas ou três) ou crônica (longa duração). É desencadeada por fatores diversos: ambiente tumultuado (muito barulho, luz forte), consumo excessivo de cafeína, álcool, tabaco e outras drogas, desconforto físico, cochilos durante o dia, efeitos colaterais de medicamentos e presença de patologias, como depressão e ansiedade.

Sonolência excessiva: Permanecer acordado pode ser uma dificuldade e tanta para muita gente.  Essas pessoas podem ter os seguintes distúrbios: hipersônia idiopática (sem causa identificável); narcolepsia; apnéia do sono central e obstrutiva; do movimento periódico dos membros e síndrome das pernas inquietas.

Sem rotina: Você já deve ter ouvido casos de pessoas que trabalham em escalas alternadas e apresentam problemas por não manterem rotina de sono e despertar consistentes. Esse comportamento mina o bem estar e prejudica muito a saúde. Mesmo dano é recorrente quando a pessoa dorme um número de horas diferente do que ela imagina ou em contextos de rápidas mudanças de fuso horário.

Parassonia: São comportamentos anormais durante o sono, com incidência significativa entre as crianças. Sonambulismo e distúrbio comportamental do sono REM são exemplos.

O Sono no Tratamento da Dor

A médica anestesista Iasmin Sindeaux, explica que as dores crônicas afetam diretamente o sono do paciente, impedindo-o de ter um sono profundo e uma noite restauradora; assim, o sono não consegue atuar compensando os processos dolorosos.


Iasmin Sindeaux em entrevista à Folha (Foto: Nilzete Franco/FolhaBV)

Frequentemente, as pessoas com dor crônica acham difícil adormecer ou o sono é frequentemente interrompido com o despertar noturno. Mesmo que você durma bastante, ainda pode se sentir muito cansado pela manhã, pois a qualidade do sono costuma ser ruim.

“Dormir mal pode tornar o paciente mais sensível à dor. Dor e sono estão intimamente ligados e afetam um ao outro. Existe uma relação recíproca onde a dor sentida durante o dia afeta a qualidade do sono daquela noite. Como consequência, o sono de baixa qualidade aumenta os níveis de dor no dia seguinte”, disse a médica. .

Confira algumas recomendações que podem ajudar a melhorar a qualidade do seu sono e, consequentemente, diminuir a intensidade de suas dores: 

Determine um horário regular para dormir e acordar diariamente;

Mantenha uma rotina de ao menos 8 horas de sono por noite;

Torne aconchegante seu ambiente de dormir: regule a temperatura, mantenha-o escuro e longe de ruídos e incômodos;

Deixe para pensar nos seus problemas durante o dia, quando você puder solucioná-los;

Evite realizar exercícios físicos intensos antes de dormir;

Não ingira cafeína, alimentos ou bebidas estimulantes quando estiver próximo do horário de dormir: eles interferem no padrão do sono. Evite também bebidas alcoólicas;

A alimentação também pode influenciar na sua noite de sono; mantenha uma alimentação saudável.