OPINIÃO

O Veneno da Serpente (Parte II)

O Veneno da Serpente (Parte II)
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Dando continuidade à expedição científica em plena floresta amazônia, ao amanhecer, após quebrar o jejum, os expedicionários seguiram por uma velha trilha que acabava numa tapera abandonada pelo povo de Nhamundá e Mariwaba. Na tapera, por motivo de muita chuva, a comitiva permaneceu por
dois dias. Ao prosseguir viagem, após três dias de caminhada, mais um infortúnio: um dos membros da expedição, Zé Bento, foi atacado por um enxame de agressivas abelhas, levando-o a uma exaustão momentânea. Já nofinal do dia, caminhando por um trecho íngreme e bastante escorregadio devido
às chuvas torrenciais, Dione Morel tropeçou numa raiz, sendo levado ribanceira baixo, indo parar em um crotão, onde um bando de porcos-do-mato se labuzava. Felizmente, o barulho feito por Morel, rompendo o estrato baixo da floresta, fezcom que os porcos saíssem desesperados. Preocupados com a situação do chefe, Zé Bento e Pedro Lô com os dois indígenas, rápido providenciaram o resgate do
companheiro.

No dia seguinte, a comitiva, já refeita dos infortúnios, passaram agir com mais cautela diante dos eminentes perigos escondidos na selva. Zé Bento, recuperado das centenas de ferroadas, e Dione Morel, recuperado do tombo que levou embora com arranhões pelo corpo, seguiram firmes na jornada e jamais
pensaram em desistir. Nessa altura, para Dione Morel, o encontro com a serpente era apenas uma questão de dias. Ou seja, o cientista nutria uma intuição de que estava pisando no rastro da víbora peçonhenta e qualquer momento iria dar de cara com ela.

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Na verdade, desde o início dessa odisseia, Dione Morel, nos momentos de paradas ou pernoites, sempre falava com entusiasmo do porquê da sua empreitada científica e da contribuição que isso poderia trazer para a humanidade. O experimentado cientista também costumava falar da ciência como um espaço para a imaginação, criatividade e realização. Como se fosse uma forma de recompensar os companheiros da expedição, repetidas vezes, o especialista falava que todos ali eram suficientemente brilhantes para serem bem sucedidos em qualquer propósito que decidissem seguir.
Quando se voltava especificamente para aos dois colaboradores indígenas, Dione Morel ia para além do universo científico, pois considerava também como algo importante para a vida humana os conhecimentos pensados a partir de outras dimensões: sendo uma dessas dimensões o conhecimento indígena.

Para pesquisador, ainda que esse conhecimento fosse algo empírico, mas dizia tratar-se também de um conhecimento racional em face dos povos da floresta, questionar seus problemas a partir de alguma razão, por exemplo, como se organizar e agir socialmente e como compreender seu espaço geográfico diante de um mundo tão diverso e complexo.

Ao longo da jornada, certa tarde, deram de frente com uma clareira natural aberta pela queda de uma gigante castanheira. Ali também se encontrava um pequeno igarapé de água corrente e límpida. Então, os aventureiros decidiram acampar ali, já que vinham bastantes necessitados de água “potável” e lavar
algumas peças de roupas. À noite, os expedicionários estenderam suas redes entre as galhadas secas da castanheira e ficaram a contemplar o céu estrelado. Na clareira, descansaram por quatro dias. Partiram no quinto dia rumo ao desconhecido mundo da floresta. No trajeto, cruzaram vários obstáculos, como
mata densa, subidas e descidas de serras, escarpas íngremes e muitas feras, por exemplo, onças, já que Nhamundá e Mariwaba citavam o local como sendo de grande ocorrência delas. Além disso, embora fosse algo mais sobrenatural, alentavam também o medo constante da criatura monstruosa idealizada pelos povos nativos da região. Nessas ocasiões, um cuidava dos outros e, muito atentos, paravam para ouvir o som da floresta e dos animais.

Quatro dias de caminhada depois do último acampamento, a equipe se depara com uma maloca indígena no interior da floresta. Para os expedicionários, o encontro não se fez com tanta surpresa, pois Nhamundá tinha comentado que por aquelas paradas havia uma aldeia de índios isolados. Por outro lado, apesar da presença dos dois indígenas entre três alienígenas (carregados de mochilas e equipamentos estranhos), aos nativos, resultou numa enorme surpresa.

A aproximação se fazia com bastante precaução, quando os forasteiros perceberam uma certa amistosidade entre os viventes da floresta e os dois nativos expedicionários. Depois das primeiras conversas entre os indígenas, os três brancos ficaram sabendo que quatro ou cinco viventes mais velhos dessa maloca, inclusive o chefe da tribo, já se conheciam desde quando uma ocasional passagem do grupo pela aldeia de Mariwaba e Nhamundá.

Após breve ritual de boas-vindas o chefe da tribo convida todos para pernoitar na maloca, oferecendo uma pequena cabana coberta com folhas de ubim (uma pequena palmeira encontrada no sub-bosque da floresta primária) para a equipe descansar. À noite, depois do jantar, o chefe convidou os forasteiros para uma roda de conversa com todos. Havia na tribo cerca de 18 pessoas, entre homens e mulheres (incluindo uma anciã, a matriarca do grupo), jovens e crianças, todos pertencentes a uma importante etnia, partilhada em vários grupos nômades. A maloca, por onde o grupo circulava de tempo em tempo, era uma das muitas distribuídas pela aquela longínqua região.

A roda de conversa se repetiu todas as noites de forma amistosa durante os três dias de permanência dos expedicionários na aldeia, com muitas histórias da floresta e trocas de informações entre os anfitriões e os dois indígenas visitantes. Os últimos, embora não sendo da etnia dos nômades, falavam e compreendiam razoavelmente sua língua, visto pertencer ao mesmo tronco linguístico. Para os
brancos, todas as histórias eram fascinantes e esclarecedoras. Em certo momento, Dione Morel foi transportado para o seu mundo científico, quando ouviu de um dos homens da tribo o relato sobre uma serpente de veneno milagroso.

Traduzido por Nhamundá ou Mariwaba, o indígena contou que por aquela região existe uma serpente que quando ataca um ser humano, se ele não morrer de imediato, após dois a três dias, a pessoa sofre uma transformação mental evidenciada pela melhora da capacidade cognitiva. Sem nada questionar e
bastante entusiasmado, Dione Morel conecta essa narrativa indígena à velha nota científica que revela a cura de doenças neurodegenerativas.

Sendo bombardeado por um vendaval de histórias decorrentes da ancestralidade ou do cotidiano daquele povo da floresta, O cientista sempre procurava fazer alguma conexão entre tais narrativas indígenas e o fato que o levou estar ali, no interior da selva amazônica. As conversas seguiam por horas a fio, permitindo que Dione Morel e sua equipe tivessem uma visão singular da sabedoria daquele povo isolado na floresta. E como forma simples de agradecer aquele momento tão frutífero e acolhedor,
Dione Morel oferecia doces de goiabada e biscoitos de água e sal aos nativos presentes. No dia da partida, ao se despedir, trocou um colar de presas de onça com uma das mulheres indígenas por um chapéu Panamá adquirido durante uma de suas viagens científicas ao Equador.

Após mais cinco dias de caminhada pela floresta, a comitiva faz uma parada para descanso. Enquanto Zé Bento improvisava algo para quebrar o jejum da tarde, Pedro Lô e Dione Morel olhavam o mapa e apontavam o progresso alcançado nos últimos dias. Demostrando uma certa inquietação, um dos indígenas de apoio à expedição cochichava no ouvido do outro. Logo, Pedro Lô, desconfiando de algo e munido de um gesto curioso, fez a seguinte abordagem aos indígenas:

— Posso saber o que vocês tanto cochicham, companheiros?
— Nhamundá está aconselhando vocês não seguirem viagem. Respondeu
Mariwaba, dando sinal de concordar com o parceiro.
Se antecipando, Nhamundá também foi enfático.
— Estamos próximos da terra dos Inapurú. Um povo da floresta que não tolera
invasores. São violentos e impiedosos com quem invade seu território…
— Mas será que não podemos dialogar com eles caso os encontramos?
Interpelou o cientista.
— Embora temos essa possibilidade, mas eles são muito perigosos… E também
nós não entendemos a língua deles. Insistiu Nhamundá.

No dia seguinte, os expedicionários prosseguiram viagem até alcançar uma área florestal bastante diferenciada do contexto amazônico. Um ambiente de aspecto sombrio, onde tudo indicava ser a ocorrência natural da fabulosa serpente peçonhenta.

Ali, após montar o acampamento e se satisfazerem do que restava de provimentos, Dione Morel, mostrando-se satisfeito pelo triunfo alcançado, ainda que sem nenhum achado concreto, fez algumas anotações no seu diário de campo, subscrevendo no final da página, em letras bem legíveis, a seguinte frase: “ninguém precisa temer nenhum fracasso”. Estas foram as últimas palavras registradas por Dione Morel.

Além do diário de campo, encontrado bastante deteriorado muitos anos depois por um grupo de caçadores de fantasias, não se viu mais nenhum vestígio de Dione Morel e seus quatro companheiros: Pedro Lô, Zé Bento, Mariwaba e Nhamundá. Nos bastidores da ciência especulam-se muitas coisas. No entanto, não se sabe ao certo. Sabe-se que antes de embarcar para essa ariscada odisseia científica, Dione Morel pediu a sua esposa, Eloá Morel, que, caso desaparecesse na selva, não enviasse nenhuma missão de salvamento. Para piorar, o pesquisador tinha o hábito de deixar pistas falsas sobre sua localização para ninguém seguir seus passos.

Assim, muitas teorias sugiram a respeito do desaparecimento do grupo cientifico que buscava o veneno da serpente. Uns diziam que morreram por falta de alimentação ou afetados por alguma doença tropical. Outros diziam que foram devorados por animais selvagens ou atacados pelos insociáveis indígenas Inapurú, ou foram devorados por alguma criatura monstruosa? Também falam que os expedicionários podem ter morrido mordidos pela serpente ou se envenenados ao manipular sua potente toxina. Mas sem evidências não há como
ter certeza.

Eloá Morel morreu depois de muitos anos sem aceitar a morte do marido. Até omfim de seus dias continuou esperando por ele. Alguns amigos, também esperançosos, nunca desistiram de esperar por Dione Morel, pois acreditam que ele estaria vivo na selva até hoje e que seria o preceptor de uma nova raça humana. Contudo, todas essas fantasias são sinais de que tão cedo a expedição
Dione Morel não chegará ao fim.
*Zoólogo, Consultor Ambiental e Filósofo.

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