Cotidiano

Na BR-174 para Manaus, buracos geram prejuízos e viagem dura quase um dia

Percurso ainda não tem sinalização em trechos recém-recuperados e não dispõe de acostamentos em outros. Empresários relatam prejuízos. CNT avalia como "ruim" a rodovia do lado amazonense. DNIT ainda não comentou a situação da BR

Os sete municípios cortados pela BR-174, de Boa Vista a Manaus, têm buracos, dos pequenos aos grandes. Estes, por sua vez, são os que mais ajudam a reduzir a velocidade dos veículos e, consequentemente, aumentam a duração da viagem, que pode durar entre 10 e 20 horas.

Caminhoneiros e empresários relataram à FolhaBV que sofreram prejuízos por causa das condições precárias da rodovia, a maior de Roraima e que liga o estado ao restante do Brasil.

A reportagem percorreu os cerca de 780 quilômetros do percurso entre Boa Vista e Manaus, e constatou: além dos buracos, milhares de pessoas que transitam pela rodovia podem encontrar desafios, como a falta de sinalização em trechos recém-recuperados e de acostamentos em outras etapas, além dos matos que já tomam conta de onde existe lugar seguro para parar bem na beira da rodovia.

Mucajaí: os primeiros desgastes do trajeto


Buracos em trecho da BR-174 em Mucajaí (Foto: Lucas Luckezie)

O trecho de Boa Vista a Mucajaí já tem alguns pequenos recapeamentos feitos pelo Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT). Mas é no município vizinho que os primeiros grandes desgastes da rodovia são notados, como o que fica logo depois da ponte sobre o rio Lago Azul. Mais à frente, há trabalhos de recuperação ainda em andamento, pois trechos recortados de pavimento estão na base ou na sub-base – respectivamente, são a penúltima e a antepenúltimas camadas antes do revestimento asfáltico.

Iracema: buracos e trechos sem sinalização


Trabalho de recuperação, ainda em andamento, deixou trecho em uma camada de terra (Foto: Lucas Luckezie)

Quanto mais a distância da capital Boa Vista aumenta, mais a rodovia piora. Em um dos trechos de Iracema, motoristas em direção a Manaus precisam trafegar pelo acostamento para se desviar de buracos. Depois do quilômetro 381, por exemplo, a atenção deve ser dobrada, devido a um trabalho de recuperação, ainda em andamento, que deixou o trecho em uma camada de terra. Há ainda trabalhos de recapeamento em que o DNIT ainda não instalou a sinalização.


Trechos recém-recuperados ainda não receberam sinalização no meio da pista (Foto: Lucas Luckezie)

Caracaraí: cuidados já na ponte


Início da ponte de Caracaraí tem buraco (Foto: Lucas Luckezie)

Bem na entrada da ponte sobre o Rio Branco, em Caracaraí, um buraco toma quase toda a largura da rodovia. Para quem trafega em direção a Manaus, é necessário entrar na contramão para desviar.


Buraco se assemelha a danos causados por terremoto (Foto: Lucas Luckezie)

O município tem outros trechos perigosos. Um deles, pela direita, se assemelha a danos causados por terremoto. Em outro, buracos no meio da pista levam os motoristas para a beira. Além disso, não há acostamentos na maior parte da rodovia dentro da “Cidade-Porto”.


Não há acostamentos em alguns trechos da BR-174 em Caracaraí (Foto: Lucas Luckezie)

Rorainópolis: lama e buraco


Com crateras na pista, motorista leva van para a contramão, quase na mata em torno da pista (Foto: Lucas Luckezie)

Nos primeiros quilômetros de Rorainópolis, a reportagem flagrou uma van trafegando pela margem esquerda da BR-174, na contramão, pois as crateras tomaram conta de, praticamente, toda a largura da pista. Depois da vila Nova Colina, os veículos se veem numa espécie de “rally”, por causa da lama. Até caminhonetes, com suspensões elevadas, sofrem.


Depois da vila Nova Colina, BR-174 se transforma em “rally” (Foto: Lucas Luckezie)

Reserva Indígena Waimiri Atroari, o pior trecho


Motorista tem dificuldade em trafegar dentro da Reserva Indígena Waimiri Atroari (Foto: Lucas Luckezie)

Motoristas ouvidos pela reportagem foram unânimes em dizer que o pior trecho fica dentro da Terra Indígena Waimiri Atroari, situada na divisa entre Roraima e Amazonas. No lado roraimense, logo no início, há buracos que tomam toda a largura da pista. Em um dos trechos, a FolhaBV flagrou um motorista de um Chevrolet Agile, que demorou 50 segundos para decidir passar pelo lado menos pior da rodovia.


Buracos na BR-174, dentro da Terra Indígena, colocam em risco quem trafega por lá (Foto: Lucas Luckezie)

Depois da ponte sobre o rio Alalaú, já no lado amazonense, os buracos se somam à falta de sinalização. Ao longo de toda a reserva, o mato e as árvores caídas tomam conta da margem da rodovia. “Atravesso a reserva praticamente seis vezes por semana. Passo mais tempo na reserva que em casa”, disse o caminhoneiro Manoel de Jesus Braz, de 51 anos – 16 deles foram dirigindo pelo trecho entre Boa Vista e Manaus.

Caminhoneiro há cinco anos, André Correia Sousa, 27, disse fazer o percurso entre Boa Vista e Manaus ao menos duas vezes na semana, e revelou ter testemunhado o tombamento de um caminhão que carregava soja pela rodovia, há duas semanas. “A gente precisa de ajuda o mais rápido possível para melhorar a estrada. E esse trecho da reserva é o pior”, declarou.

Presidente Figueiredo: buracos até no alto da ladeira


Lado amazonense é o pior lado da BR-174, entre Boa Vista e Manaus, segundo a CNT (Foto: Lucas Luckezie)

Depois da Terra Indígena, os buracos continuam e motoristas se arriscam a fazer zigue-zagues para se manter velozes pela rodovia, desviando-se de buracos, que surgem a todo o momento. Há trechos em que o mato tomou conta da beira da rodovia. Há cratera até no pico da ladeira, em que motoristas mais desatentos podem não ter tempo de frear. Mas, quanto mais se aproxima de Manaus, mais a rodovia melhora.

“Prefiro andar de moto do que de carro pela BR-174”, diz motociclista

Os buracos também mudam o transporte que as pessoas viajam. Um casal de aposentados – um homem de 65 anos e uma mulher de 58 – diz preferir a moto que o carro para irem mensalmente a Manaus. “De moto, de Boa Vista a Manaus, a gente leva 12h. Antes, era 8h. Se fôssemos de carro, com essa buraqueira toda, levaríamos muito mais tempo”, disse o ex-laboratorista de solo.

Empresários relatam prejuízos e viagem que dura quase 24 horas

A economia também é prejudicada pela atual condição da BR-174. O caminhoneiro autônomo Luciano Barroso Fernandes, de 44 anos, já passou metade da vida viajando pelo trajeto Boa Vista-Manaus-Boa Vista, e testemunhou a via melhorar e piorar. Para quem tem prejuízo devido às condições da via, o trajeto está pior. “Tem muito buracos na estrada. A mola, o eixo dianteiro do meu caminhão, quebrou todinho. Tive um prejuízo de R$ 4 mil para consertá-lo. E parei de contar as vezes que meu pneu furou. Espero que a estrada melhore”, disse o dono do Volvo FH 400.


Empresário Deusdete Constancio perdeu caminhão que carregava açúcar e veículo pode virar sucata (Foto: Arquivo pessoal)

Quem também teve prejuízo foi o empresário Deusdete Constancio, 53, que em apenas dois dias de setembro, perdeu duas das cinco carretas de sua transportadora, sediada em Rorainópolis. Uma das cargas não tinha seguro e ele vai ter que ressarcir, do próprio bolso, R$ 50 mil ao cliente. Somados, os tombamentos na rodovia causaram, para ele, um rombo de R$ 440 mil. Os veículos podem virar sucata, pois ele diz não ter dinheiro para consertá-los. “Sem as duas carretas, vou deixar de ganhar até R$ 12 mil por mês”, relatou.

A transportadora de Marcia Weber, que tem 21 caminhões, somando as filiais de Manaus e Boa Vista, teve dois veículos tombados na BR-174, em um intervalo de dois meses no segundo semestre deste ano. Além do prejuízo calculado em R$ 100 mil, a empresária diz gastar, diariamente, de 150 a 200 litros de óleo diesel a mais, por caminhão, por causa dos buracos na rodovia.

“São mais de R$ 800 que deixo de ganhar pra investir na empresa, porque os buracos fazem os caminhões frearem, pararem, desviarem. Antes, nossos veículos viajavam por até 12 horas. Hoje, dura em torno de 20 horas de Boa Vista a Manaus, e vice-versa”, relatou ela, que move uma ação judicial contra o Departamento Nacional de Infraestrutura e Trânsito (DNIT) por causa das condições da rodovia.

Empresários cobram fiscalização para coibir excesso de peso de carretas

Empresários ouvidos pela FolhaBV cobraram mais fiscalização para coibir o excesso de peso por parte das carretas, que seria um dos principais responsáveis pelo desgaste da rodovia. Um deles, inclusive, acusou o posto da Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz) na vila Jundiá, em Rorainópolis, de fazer “vista grossa” com o excesso de peso na balança.

A Sefaz rebateu a acusação, ao dizer que fez um Termo de Cooperação Técnica com a Polícia Rodoviária Federal, onde foi disponibilizado acesso ao PASSE FISCAL, o qual contém as informações de placa, peso e modelos dos veículos que passam pela fiscalização do Posto do Jundiá, facilitando o controle também pelos agentes da PRF, não restando margem para qualquer tipo de irregularidade.

Além disso, a Sefaz informou que todo o sistema de pesagem dos veículos é filmado por câmeras de segurança do Posto, inclusive os diálogos entre os fiscais e motoristas dos veículos, dando total transparência e segurança no processo. A pasta disse ainda que a BR-174, por ser uma rodovia federal, é fiscalizada também por órgãos federais como o DNIT e a PRF (Polícia Rodoviária Federal).

Lado amazonense da BR-174 é “ruim”, diz CNT


CNT diz que trecho da BR-174, da divisa entre Roraima e Amazonas, até Manaus, é “ruim” (em amarelo escuro) (Foto: Reprodução)

A última pesquisa da Confederação Nacional do Transporte (CNT), de 2019, avaliou a qualidade do percurso, que ficou em 17º lugar entre os 28 corredores rodoviários brasileiros. O trajeto entre as capitais ainda foi considerado “regular”, classificação que considera a qualidade do pavimento, da sinalização e da geometria da via.

Naquele mesmo ano, a CNT mapeou a qualidade das rodovias e julgou que, em Roraima, o trecho de Boa Vista a Rorainópolis era “bom”, mas a partir da Terra Indígena Waimiri Atroari, a via era “regular”. No Amazonas, a entidade considerou o trajeto da reserva até Manaus como “ruim”. Segundo a entidade, a nova pesquisa, interrompida em 2020 por causa da pandemia, está prevista para ser divulgada em dezembro e considera os dados de 2021.

DNIT ainda não comentou sobre as condições da rodovia

Procurado pela FolhaBV para falar da BR-174, o Ministério da Infraestrutura sugeriu questionar o DNIT. O órgão, por sua vez, ainda não respondeu os questionamentos da reportagem sobre as condições da rodovia e as cobranças por melhorias e fiscalização.