Cotidiano

Mulheres são tratadas como mercadorias, afirma sociólogo

As mulheres, desde muito tempo, são expostas a roupas muito pequenas para estabelecer quem é a mais bela

A ditadura da estética que impõe ao universo feminino um padrão de beleza, é a mesma que condena a mulher quando é vítima de estupro. Na análise do sociólogo Paulo Racoski, a violência contra a mulher é um processo histórico que se apoia nos fatores cultural, religioso, social, político, econômico e estético.

“Temos um grande apelo à mercantilização do corpo da mulher desde a experiência com os concursos de beleza, miss isso, miss aquilo, como se as mulheres fossem exposições corporais numa feira. Desde muito tempo são expostas a roupas muito pequenas para estabelecer quem é a mais bela. A sociedade civil aceita como produtos, mercadorias de compra e venda”, explicou.

Muitas mulheres, conforme esclareceu, submetem-se a participar desses concursos pelo destaque social e a possibilidade de um casamento mais ambicioso e desejoso, inclusive com o apoio do grupo familiar.

“Esse comportamento social é resultado de uma construção histórica, desde a ocupação do território brasileiro”, ressaltou Racoski, lembrando que o descobrimento do Brasil não foi civilizado, mas sifilizado, por causa da grande transmissão de sífilis pelos estupros praticados a partir do ano de 1.500.

“O homem lusitano, pela questão religiosa, acreditava que o homem daqui não tinha consciência, então usava esses corpos como mercadoria, força de trabalho escrava e de prazeres sexuais. O estupro foi algo corriqueiro e vitimizou milhares de mulheres dos grupos étnicos. Depois passou a ser recorrente com os povos escravizados do continente africano, onde era comum os senhores da Casa Grande violarem as mulheres escravas, o que durou até 1888”, lembrou.

Segundo ele, aceita-se a mulher usar uma roupa minúscula, que valorize as formas em determinadas ocasiões, eventos que geram milhões de lucro, como em um concurso. Mas, por outro lado, ela é culpada de estupro por usar o mesmo figurino numa balada, por exemplo.

“São inúmeras situações, de costumes e de culturas, que estabelecem a mulher como mercadoria. E quando caem na parte do delito, do crime, fica difícil distinguir essas relações de poder do homem rico brasileiro, na figura masculina, que determina os processos sociais de quem é bonito e feito, qual mulher é bonita ou feia, e qual é que serve ou não para casar”, ressaltou.

Herança religiosa

Esse comportamento ainda difícil de superar em pleno 2020, mesmo com a Lei do Feminicídio em vigor, é porque as práticas culturais não avançaram. “Até o olhar jurídico cria analogias, simulacro e retóricas para justificar o ato supostamente criminoso. Isso é danoso porque a sociedade civil se divide”, ressaltou.

Segundo o sociólogo, boa parte deste comportamento é fruto de uma visão patriarcal, de um pensamento misógino e machista. “Não é uma tradição, mas uma herança de cinco mil anos, do monoteísmo abraâmico, do judaísmo e do islamismo. A própria distinção de gênero na criação dos filhos acaba fortalecendo essas relações, principalmente no campo afetivo, na vida reprodutiva”, explicou.

No seio familiar as mulheres são cobradas a casar e ter filhos, principalmente se a família é adepta de uma religião. “Esses fenômenos religiosos têm gerado casamentos cedo, até emancipa meninas para casarem com homens mais velhos, para que “não se percam na vida” ou “não engravidem antes do tempo”. Estando casada pode engravidar, pois se tem a ideia de que o homem não vai abandonar, o que é uma inverdade. Existem muitas mulheres jovens, criando sozinha muitos filhos, mesmo sendo casada e estando em um circuito religioso”, afirmou.

Falta Sororidade

Grande parte das mulheres, que devia ter sororidade e se solidarizar com as vítimas e as mulheres em geral, faz julgamento quanto ao sucesso ou insucesso das outras a partir do formato do corpo, se preza pela beleza, se esteticamente a roupa valoriza as formas.

“As mulheres cobram empenho da outra e de si mesma a beleza permanente, o combate ao envelhecimento. Por isso hoje as cirurgias estéticas estão no topo, pois querem manter a eterna juventude, o que é impossível”, disse.

E por que elas não se protegem, abandonam as amigas quando estão alcoolizadas? Racoski disse que as mulheres até se protegem quando estão grupos, mas que quando vão disputar alguém, se dividem para mostrar nesta conquista as habilidades que tem, seja no campo intelectual, estético ou financeiro.

“Estudos mostram que quando estão juntas conseguem se manter coesa na defesa do interesse comum. Mas quando entra na questão efetiva, erótica, sexual, se dividem e agem individualmente na tentativa de obter o sucesso e o reconhecimento pelo próprio grupo. São construções culturais que envolvem desde a corrida pelo sucesso matrimonial e patrimonial”, disse.

Música incentiva comportamento

Para o professor, a música em todo o território nacional é outro fenômeno cultural que tem tratado a mulher como mercadoria, incentivando as mais jovens a serem produto de compra e venda.

“A música diz também que o homem de sucesso é o que tem uma ‘novinha’. E a muito nova nunca cessa, antes era 20, agora 15 anos. A sociedade não coloca um limite cultural e de costumes, e a legislação por mais que avance, não consegue impedir as práticas sociais nessa relação”, analisou.