JESSÉ SOUZA

Lago dos Americanos está em contagem regressiva em sua sentença de morte

Imagens feitas pelo doutor Romério Briglia mostra o Lago dos Americanos agonizando por causa de seca e das seguidas agressões

Não se trata tão somente de obras milionárias que nunca são concluídas nem fiscalizadas. A seca extrema pela qual passa todo o Estado fez emergir novamente a triste e agonizante situação do Lago dos Americanos, localizado dentro dos 106 hectares do Parque Anauá, considerado o maior parque urbano da região Norte do Brasil, construído no início da década de 1980.

Em vídeo e fotos divulgados esta semana pelo doutor em Recursos Naturais na Área Temática Manejo e Conservação de Bacias Hidrográficas, Romério Briglia,  em suas redes sociais, ele mostra o Lago dos Americanos agonizando com a seca e as seguidas agressões que vêm sofrendo desde o início da construção do parque, quando seguidos governos promovem a limpeza com máquina raspando e escavando todo o fundo daquele manancial.

A raspagem do fundo do lago, feita novamente pelo atual governo durante a seca, acaba comprometendo ainda mais a vida do lago a partir da eliminação de espécies animais e vegetais que lá habitam, as quais são fundamentais para aquele ecossistema. As plantas aquáticas eliminadas na limpeza, por exemplo, desempenham papel fundamental nos ecossistemas aquáticos, proporcionando habitat, alimento e contribuindo para a qualidade da água.

É inconcebível que em um Estado amazônico, onde a preservação é um imperativo, as autoridades desconheçam essa realidade e promovam ações danosas e criminosas ao meio ambiente, sem que isso desperte a atenção de quem deveria fiscalizar. Cada limpeza de maneira errada e degradante coloca mais um ponteiro na contagem regressiva da sentença de morte do Lago dos Americanos.

Na década de 1980, o então governador do ainda Território Federal de Roraima, Ottomar Pinto, começou a prática de raspar o fundo do lago para a limpeza, período em que o lago ficou quase uma década sem conseguir recuperar o volume de água normal. Então, o governador determinou a abertura de poço artesiano para tentar manter o nível da água, mas sem sucesso. O poço virou símbolo do descaso para quem deseja ver até hoje.

A cada seca extrema é possível observar a sentença de morte que vem sendo decretada desde a urbanização mal planejada para o parque e ao próprio lago, que é (ou deveria ser) um local de preservação, uma vez que ali é nascente do Igarapé Mirandinha, que também foi sentenciado à morte e hoje agoniza em caixotes de cimento depois da sua canalização.

A partir do crescimento da cidade, o Lago dos Americanos foi represado por uma comporta dentro do Parque Anauá, exatamente onde começa a dar origem ao Igarapé Mirandinha, cujo percurso quase todo canalizado  percorre 3,5 km por cinco bairros: Estados, 31 de Março, Aparecida, Caçari e Canarinho, até desaguar no Rio Branco, acima do sistema de captação de água que abastece a Capital.  Inclusive são lançados esgotos clandestinos nas águas, bem como agressões provocadas pelas ocupações desordenadas ao longo das décadas.

A Companhia de Águas e Esgotos de Roraima (Caer) mantém um suspiro de esgoto do sistema ligado à elevatória instalada próxima ao igarapé, que recebe o esgoto das residências naquele setor da cidade antes de enviar os dejetos para tratamento na lagoa de estabilização. Sempre ocorrem entupimentos e vazamentos, provocando um forte odor que é sentido por quem passa próximo, especialmente na Avenida Ville Roy, sem conta com a contaminação das águas lançadas no Rio Branco.

Essa é a realidade do quase falecido Mirandinha e que reduz as chances de sobrevivência do bioma não só do igarapé, mas também do Lago dos Americanos. Se nada for feito para mudar tal realidade, em um futuro bem próximo o Parque Anauá terá um esgoto a céu aberto, em vez de um lago perene onde resistem cada vez menos plantas aquáticas e animais aquáticos, como peixes, aves, répteis, insetos e anfíbios.

Mas quem se preocupa com essas sentenças de morte?

*Colunista

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