JESSÉ SOUZA

Dados da violência na Amazônia e os recentes fatos que conectam Roraima aos grandes crimes

Estudo “Cartografias da Violência na Amazônia” foi divulgado no dia 30 de novembro pelo Fórum de Segurança Pública (Imagem: Reprodução)

No mesmo momento em que o Fórum Brasileiro de Segurança Pública lançava, no dia 30 passado, o estudo “Cartografias da Violência na Amazônia”, o Estado de Roraima registrava todos os tipos de desgraças apontadas neste referido estudo, o qual traz informações e análises sobre crimes ambientais, crime organizado, violência contra os povos originários, feminicídios, tráfico de drogas e uma série de outras categorias. Aos fatos.

No dia seguinte à divulgação do estudo, 1º de dezembro, o pai de um ex-vereador assassinou a ex-esposa a tiros na frente da família e depois se matou, em uma tragédia que só fez aumentar a estatística que aponta Roraima como o Estado onde mais se matam mulheres. E isso foi confirmado no Atlas da Violência 2023, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), na terça-feira, 05, em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

No domingo passado, dia 03, a Polícia Federal apreendeu quase uma tonelada de skank e cocaína, que estava em um veículo que transportava as drogas na fronteira com a Guiana, no Município de Bonfim. A apreensão tem a ver com outra grande apreensão feita este ano, no Município de Rorainópolis, Sul do Estado, em um caso que tem tudo a ver com a nova cara do narcotráfico na Amazônia, que é o “agropó”, conforme esta Coluna já tratou em outros artigos.

Na segunda-feira, 04, a Polícia Federal desencadeou uma operação em que os investigados são o cantor Alexandre Pires e seu empresário, os quais são apontados como partícipes de um esquema de lavagem de dinheiro envolvendo a exploração ilegal de minérios na Terra Indígena Yanomami. A  PF aponta indícios de que o esquema movimentou R$250 milhões.

Há outros fatos a serem expostos, mas os casos acima relatados dão a dimensão da grande desgraça em que Roraima está submetido, com violência gratuita contra mulheres, narcotráfico e ações milionárias do garimpo ilegal na Terra Yanomami. Nenhuma surpresa dentro do que aponta a “Cartografias da Violência na Amazônia”. Como esta coluna já vem afirmando há um certo tempo, os crimes do narcotráfico e do garimpo ilegal acabam se cruzando.

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“São 22 grupos criminosos/facções diferentes, presentes em ao menos 178 municípios da Amazônia Legal brasileira, correspondendo 23,05% do total de municípios. A expansão de facções criminosas provenientes do Sudeste

implicou em um processo de fortalecimento e profissionalização dos grupos locais. Novas rotas criminosas foram surgindo, bem como articulações com outros ilícitos, como o garimpo e os crimes ambientais, impondo enormes desafios às instituições responsáveis pela manutenção da lei e da ordem”, afirma o documento publicado no dia 30 de novembro.

Em Roraima, esta realidade está bem presente e é aterradora, em que facções dominaram o garimpo ilegal e se associaram a uma facção venezuelana, que é impiedosa em seus acertos de conta, decapitando e esquartejando corpos de seus compatriotas em Boa Vista, desovando os corpos de suas vítimas em áreas movimentadas dos bairros centrais, como se fosse algo banal.

O resumo desta ópera fúnebre é que o Estado de Roraima está completamente vulnerável a esta nova geografia do crime, em que a Segurança Pública mal consegue manter a rotina do policiamento ostensivo na Capital. E os políticos não estão nem aí, mirando suas prioridades para as próximas eleições, em uma disputa partidária para os municípios onde eles comandam as verbas parlamentares indicadas por eles mesmos.

Se não consegue fazer frente aos bandidos que movimentam milhões com tráfico de drogas e o garimpo ilegal, é óbvio que o governo estadual não terá condições de enfrentar os demais problemas, em especial a violência contra as mulheres, vítimas de feminicídio, e contra crianças e adolescentes, submetidas a todos os tipos de crimes  sexuais, cujos casos são alarmantes. Assim também como não consegue fazer frente ao tráfico de drogas nos bairros da Capital e municípios do interior.

A situação é muito preocupante e as estatísticas deste ano, as quais serão divulgadas só em 2024, irão mostrar um cenário muito pior. Algo precisa ser feito. E urgente!

*Colunista

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