JESSÉ SOUZA

Amnésia coletiva, normalização e as lendas urbanas da política partidária

A cada ano eleitoral, as pessoas são acometidas por uma amnésia coletiva que beneficia práticas ilegais (Imagem: Reprodução)

A amnésia coletiva, o jeitinho brasileiro e o despudoramento político. Tudo junto e misturado agora. Esse é o resumo da política diante da decisão tomada pela Assembleia Legislativa de Roraima, no dia 22, que autorizou os servidores dos gabinetes dos deputados a cumprirem expediente em escritórios parlamentares, onde a fiscalização ficará por conta deles mesmos, enquanto quem realmente trabalha tem que bater ponto eletrônico com sua digital diariamente, como deveria ser qualquer serviço público.

Em artigo publicado no dia 13 de junho, sob o título “A gaveta da amnésia que funciona toda vez que surgem denúncias”, esta Coluna tratava do total esquecimento da grave denúncia feita no final de novembro de 2021, quando o então deputado Jalser Renier, que detinha o poder absoluto naquele momento na Assembleia Legislativa, foi cassado e saiu espezinhando e denunciando que 80% dos deputados faziam a prática de “rachadinha” na legislatura a qual ele presidia.

“Rachadinha” é só mais um nome para aquela prática conhecida popularmente em Roraima como “gafanhoto”, ou seja, contratar servidores que ficam apenas com uma parte do dinheiro do salário do mês e devolvem a outra parte para o deputado dono da vaga. No caso da “gafanhotagem”, que estourou em novembro de 2003, com a Operação da Polícia Federal “Praga do Egito”, havia pessoas que sequer ficavam com parte do dinheiro e emprestavam apenas o nome para o esquema.

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Com relação à denúncia de Jalser (que inclusive foi preso naquela operação de 2003 e acabou condenado posteriormente, quando cumpriu a sentença no semiaberto), o tempo passou, os deputados conseguiram cassar o mandato dele na Assembleia, depois de o destituir da Presidência da Casa, e até uma nova legislatura se instalou depois, com boa parte dos deputados retornando. No entanto, não mais se ouviu falar sobre aquela grave denúncia das “rachadinhas”.

Dois anos se passaram, o caso caiu nos braços do esquecimento, embora vez por outra ressurjam denúncias, e não se fala mais nisso. E o assunto deverá ser esquecido de vez. Afinal, a Mesa Diretora da Assembleia encontrou o jeitinho perfeito de tornar legal os servidores de gabinete não cumprirem expediente como os demais trabalhadores. Agora não se trata mais de normalizar um ato, mas de legalizar.

Na esteira dos acontecimentos políticos, a tendência é normalizar as práticas erradas ou ilegais, a exemplo do assistencialismo e da compra de voto por meio de cestas básicas, apesar de a Justiça Eleitoral vir tomando decisões pela cassação de mandatos nos últimos anos. Um prefeito do interior, cassado por patrocinar viagens com dinheiro público em período eleitoral, não só continuou com a prática como já encontrou parceiros para seguir com a ação.

A propósito, depois de 41 políticos e seus familiares, além de assessores, terem sido presos por “gafanhotagem” em 2003, a prática nunca deixou de existir e, pela denúncia feita por Jalser dois anos atrás, seguiu normalizada até os dias atuais, com a conivência de todos. Até dinheiro na cueca se tornou algo como uma lenda urbana, dentro do normalíssimo amparado pela amnésia coletiva e dos jeitinhos aqui e acolá.

E ano que vem já tem eleição de novo, quando mulas-sem-cabeça reaparecem para praticar as lendas urbanas da política partidária permitidas pela normalização aceita pelo eleitor e pelo permissivismo daqueles que deveriam combater práticas ilegais. Sacis-pererês vão andar com maletas, Cucas vão distribuir cestas básicas, Curupiras farão rachadinhas e Pais da mata vão meter cédula em folhas na cueca…

*Colunista

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