Por Francisco Cândido
Em 17/10/2018

E AGORA, PROFESSOR?

A sala lotou, a qualidade do ensino faltou, o aluno evadiu-se, o diretor gritou: “E, agora Professor”? Diga-me você.

Notadamente o ensino no Brasil faliu. São quase 12 milhões de analfabetos, conforme dados divulgados pelo IBGE. Metade da população adulta não tem sequer o nível fundamental. Os brasileiros que não sabem ler nem escrever correspondem a 7% da população do país e são a prova de que o Plano Nacional de Educação não atingiu seu objetivo, que era a redução da taxa de analfabetismo para 6,5% em 2015.

Na outra ponta, a dos que conseguiram se formar em uma faculdade, estão 15,3% das pessoas com 25 anos ou mais. Vinte e seis por cento terminaram o ensino médio e 51% ainda cursa ou concluiu o nível fundamental.

É na educação que o Brasil expõe suas diferenças gritantes. O lugar onde a pessoa nasce, a cor da pele e o sexo são fatores que pesam na vida dos alunos e no tempo que eles vão conseguir se dedicar aos estudos.

A taxa de analfabetismo da região Nordeste é quatro vezes maior do que as registradas nas regiões Sul e Sudeste. Quase 25 milhões de pessoas com idade entre 14 e 29 anos estão fora da escola. 9,9% dos que se declaram pretos e pardos, com 15 anos ou mais, são analfabetos. Isso é mais que o dobro da taxa entre os brancos (4,2%). A maior parte dos homens e mulheres alega motivos de trabalho. Cuidados com a casa ou com os filhos são a justificativa de 0,8% dos homens. Já entre as mulheres, o número é bem maior: 26,1%.

Na sala de aula está o professor. E, é a ele que a culpa recai. Acusam de que: “os professores são incapazes de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos”.

Que alunos são esses “repletos de estímulos” que muitas vezes não têm o que comer em suas casas? Em que pais de famílias oriundas da pobreza  trabalham tanto que não têm como acompanhar os filhos  em suas atividades escolares, e pior em orientá-los para a vida? Isso sem falar nas famílias impregnadas pelas drogas e destruídas pela ignorância e violência, causas essas que infelizmente são trazidas para dentro da maioria das escolas brasileiras.

Entrem numa sala de aula e observem a realidade brasileira.

Está na hora dos professores se defenderem contra as acusações que lhes são impostas. Problemas da sociedade deverão ser resolvidos pela sociedade e não somente pela escola. Não cabe ao professor intervir na criação do aluno, quando orientado por seus pais. Cabe sim, orientar o aluno a ser um bom cidadão, cônscio dos seus deveres perante a sociedade.

O professor é sobrecarregado em suas tarefas no magistério, na arte de ensinar. Além do uso do quadro (com o pó do giz), trabalham com tecnologia, trazem livros de literatura juvenil para leitura em sala-de-aula, levam alunos à biblioteca e a outros locais educativos e até a passeios interessantes, planejados com a direção da escola e com permissão dos pais.

Sabe-se que todos os profissionais têm direito a um intervalo que não é cronometrado quando estão cansados. Já Professores têm 10 minutos de intervalo, quando têm de escolher entre ir ao banheiro ou tomar às pressas o cafezinho. Todos os profissionais têm direito ao vale alimentação, professor tem que se sujeitar a um lanchinho, pago do próprio bolso, mesmo que trabalhe 40 horas semanais.

E a saúde? É a única profissão que conheço que embora apresente atestado médico tem que repor as aulas. Plano de saúde? Muito precário. Se antes o professor ditava ordens na sala de aula, hoje alunos agridem professor devido a uma nota baixa na prova.

Há de se pensar, então, que são bem remunerados... Mera ilusão! Por isso, a profissão de Professor deixou de ser atrativa como era há 20 anos. Só permanecem os que realmente gostam de ensinar e os que estão aposentando-se.

Ainda assim, há vozes neste meio que do passado permanecem no presente, como é o caso da educadora e poetisa Cora Coralina (1889-1985): “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”.

Além do amor à arte de ensinar, o professor necessita ser mais valorizado e com salários dignos. Afinal, ele estudou e aprendeu pra ensinar àqueles que ainda não sabem.

Você, que ora lê esta página, suponho que é grato ao professor que lhe ensinou.

Francisco Cândido
franciscocandido992@gmail.com
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