Por Opinião
Em 09/12/2019

300 dias e mais

Linoberg Almeida

Se cada novo tempo fortalece o sentimento e se cada novo dia bate a porta e desafia, em 300 dias de Zona Azul, aquele estacionamento rotativo em 20 ruas do Centro, suspenso por decisão judicial e trabalho nosso como vereador, confesso que não é para se comemorar. Prefiro enfrentar problemas de frente que empurrar coisas com a barriga.

A cidade é lugar de priorizar o ser humano, mudar para melhor o destino das pessoas. Se te chamam a dizer que não foram consultadas e vai pesar no bolso de quem vive ou trabalha ali, o papel de quem te representa é mitigar, tornar mais brando, suavizar o impacto, verificar a legalidade e propor solução que corrija. Nossa parte foi feita, já de outros, tentativas que reforçam erros.

Nessas 7.200 horas de liminar mantida, percebemos que nossa cidade tem preferido intervenções ligadas à ideia de demolição do existente e sua história para substituir por mega construções, soluções copiadas, geralmente com características diferentes das nossas, apagando passado e sem ajustes dialógicos. A renovação urbanística não me apetece. Prefiro a revitalização, que é planejada estrategicamente, capaz de reconhecer, manter e introduzir valores.

Ali no Centro, revitalizar requalificando a região da Jaime Brasil com valorização do espaço público, medidas de dinamização social e econômica, com prédios residenciais, bares, restaurantes, calçadas largas, bicicletas, menos poluição visual, pedestres, edifícios-garagem e transporte público de qualidade é a solução. Mas, preferiram botar os carros e suas vagas na frente dos bois, sem ouvir nem arquitetos do lavrado.

São 432.000 minutos de um vereador e seu gabinete tentando mostram que além de parar seu carro e dar lucro a uma empresa lá de longe, todo cidadão em longo tempo de deslocamento casa – trabalho – casa gera custos elevados. Antes do caos na bola do Centenário, já avisávamos sobre a necessidade urgente de desafogar o trânsito na região com novo sistema viário. Pode não acreditar, mas Liberdade, Centenário, Cinturão, Pricumã, Buritis, 13 e Mal. Rondon podem ter fluxo melhor ao Centro da cidade com gestão adequada de vias nessa região. É só dividir a cidade em oito regiões. Depois conto mais, tá?
Não dá mais pra esperar. Temos que assumir o desafio de ouvir as pessoas e botar a cidade delas em prática. Não é tirar a ideia da cartola como passe de mágica. E fazer o mais rápido possível, pois leva-se uma década para mobilidade atingir o nível Curitiba (e já com necessidade de ajustes). Amsterdã, Viena, Sttutgard, Madri e você têm muito a nos ensinar.

Olha só: Que tal começarmos com intervenções na Av. Bandeirantes com Travessa José Francisco; Avs. Brigadeiro e Venezuela; fazer a ligação Rua João Alencar (BR 174) no Cauamé com Av. Minas Gerais (Paraviana) por uma via Beira Rio Cauamé; agir com mais responsabilidade na ampliação de acessos ao bairro Cidade Satélite e nos ligar ao Said Salomão?

Ouvir as pessoas é dar prioridade para que elas tenham mais qualidade de vida. Sempre que se melhora transporte público se melhora a vida de quem usa transporte individual. Para isso, precisamos ver ruas e avenidas como artérias pulsantes em sistema circulatório, tipo 1. Izídio Galdino/ Av. Olímpica/ Mauro Campelo/ Av. Centenário; 2. Av. Sol Nascente/ Trabalhadores/ Pérola; 3. Estrela D´Alva/ Nazaré Filgueiras; 4. Rui Baraúna/ Piscicultura/ Lourival/ Anchieta/ Carmelo; 5. Júlio Bezerra/ Amazonas/ Sibipiruna/ Sucupira; e 6. Marques de Pombal/ Gen. Sampaio/ Benjamim Constant. Isso sem esquecer de avançar em melhorias nas São Sebastião, Princesa Isabel/ Reinaldo Neves, Laura Pinheiro Maia para mais conforto, segurança e oxigenar com fluidez. 

Para dar velocidade saindo do ponto A para ponto B só investindo em transporte público atraente em corredores exclusivos e mistos, combinados com sistemas de mobilidade integrada. E olha que quem já faz o transporte hoje pode ser empreendedor e parceiro da cidade nessa missão de reinventar o direito de ir e vir aqui.

Cidade bem cuidada e florida, da primeira infância aos cabelos prateados, como os meus, pode ser uma realidade independente da fotografia na parede. É coisa de planejamento, investimento, mais apoio da iniciativa privada, IPTU progressivo, outro Código Tributário, valorização do patrimônio histórico e educação patrimonial na veia para manutenção e conservadoria disso tudo. É com a gente junto que se faz democracia. É com a gente junto que começa a solução.

Professor e Vereador de Boa Vista


Os contrastes de um Brasil multiforme

Sebastião Pereira do Nascimento*

O país do contraste. Assim é como o Brasil passou ser conhecido pelo resto do mundo. Um país de terra rica e pobre e de um povo alegre e triste. Além disso, temos também os contrastes da diversidade geográfica resultante do meio natural e as distinções socioeconômicas, políticas e culturais resultantes da ocupação colonial que deixou traços marcantes no Brasil. 

No que diz a respeito às contradições socioeconômicas, depois da exploração maciça do pau-brasil (Caesalpinia equinata), pelo português Fernando de Noronha, veio o ciclo econômico sustentado pela cana de açúcar. O contraste disso, é que enquanto os senhores de engenho acumulavam furtunas, o Brasil acenava para a pobreza, digeria os povos indígenas e engolia os negros africanos. Esse cenário cria no país uma elite fortalecida pelo latifúndio, cujos interesses eram opostos às necessidades do povo.

Séculos mais tarde, veio a extração do látex na Amazônia, quando a miséria dos seringueiros contrastava com a opulência dos grandes “barões de borracha”. Onde, em Belém e Manaus, construíram o teatro da Paz e o teatro Amazonas, respectivamente, para acomodar as companhias de óperas vindas da Europa, ainda que admiráveis, mas que destoavam da cultura regional.

Nos tempos atuais, os contrastes são ainda maiores, quando nos referimos, por exemplo, à expansão do agronegócio que diverge da realidade do povo brasileiro, isto é, grande produção no campo, fazendo frente aos 50 milhões de brasileiros que vivem na linha de pobreza. Destes, 13,5 milhões no fosso da extrema pobreza (IBGE, 2019). Isso implica dizer um país com larga produção agrícola e o povo vivendo de barriga vazia. 

E mais preocupante ainda, é o aumento da pobreza em função do momento em que o governo brasileiro foca no aprofundamento dos ajustes fiscais, como mostra o pacote do ministro da economia, onde a lógica do plano segue sendo a dos anos de ditadura militar, no qual acreditava-se que bastava melhorar os índices econômicos para gerar mais empregos e retirar a população da miséria. Pura ilusão de um sistema meritocrático, que promove a exclusão de setores da sociedade brasileira e perpetua as desigualdades sociais.

No campo político, os contrastes brasileiros também têm sido cada vez mais evidentes, quando olhamos o atual governo, eleito democraticamente, mas que suscita um nefasto fascínio pela ditadura. No contexto histórico, Bolsonaro também contrasta com a história do país, quando fala que foram os negros africanos os culpados por serem escravos no Brasil, e por isso o país não tem dívida nenhuma com a população negra. E como reação, ele postula diminuir as cotas raciais nas universidades públicas – porém, ao acatar o princípio das cotas étnico-raciais, as universidades brasileiras se alinham às grandes universidades, como, por exemplo, Harvard, que adota o mesmo critério para o ingresso de seus estudantes. O valor disso é que a diversidade melhora a qualidade de ensino e promove a justiça social. A afirmação é do historiador Sidney Chalhoub, professor da Unicamp e docente da Universidade de Harvard (EUA). 

Ainda denegando a verdade, estão também os milicianos, filhos do próprio presidente da república. Três deles eleitos democraticamente, mas que ensandecidamente vivem negando os princípios democráticos e fazendo apologia à ditadura. Além disso, falam em combater a corrupção, sendo um deles, investigado pelo Ministério Público por lavagem de dinheiro, malversação de fundos públicos e organização criminosa.

Não bastante, quase que a totalidade dos sequazes do governo Bolsonaro, trabalham também para desmontar o país, divergindo do papel das instituições que representam, como: o ministro das relações exteriores assume posturas que afetam a ética e moral da pasta; o ministro do meio ambiente estimula o desmatamento e diz que não devemos nos preocupar com o meio ambiente; o ministro da educação fala que as universidades públicas promovem balbúrdias, enquanto ele destroça os avanços da educação; a ministra da agricultura incentiva o latifúndio e o uso maciço de agrotóxicos que causam danos à vida; o ministro da justiça, desde quando era juiz, age subserviente e sorrateiramente; a ministra das mulheres e dos direitos humanos faz gesto para que as mulheres se calem e desrespeita os valores do povo brasileiro; o ministro da economia defende um plano ditatorial, que estimula a concentração de renda e amplia a pobreza; o secretário da cultura arbitra censura e afirma que o teatro brasileiro é “podre”, sendo ele, um diretor de teatro; o presidente da Funarte fala que o rock incentiva o aborto e alimenta o satanismo; o presidente da Fundação Palmares fala que não há racismo no Brasil e que a escravidão foi benéfica para os negros; o presidente e assessores da Funai atuam contra os direitos dos povos indígenas. Assim, entre essas e outras atitudes bizarras e intenções sórdidas, o Brasil segue como o país do contraste.

* Filósofo
sepenascimento@gmail.com


É o que somos

Afonso Rodrigues de Oliveira*

“O que fazemos na vida é determinado pelo que comunicamos a nós mesmos.” (Anthony Robbins)

Você já morou numa ilha? Já esteve lá? Se já viveu os momentos, prestou atenção a eles? Mesmo que a ilha seja um município bem próximo ao continente, há muito que observar nas diferenças. Talvez eu esteja lhe parecendo desorientado nas minhas observações. Mas mesmo que elas lhe pareçam fúteis, devem ser consideradas, analisando-se as diferenças sociais nas diferenças urbanas. Ainda há pouco fiquei muitos minutos na varanda observando o comportamento das pessoas que passavam. Foi uma coisa que, para mim, pareceu inusitada.

Quando cheguei à varanda vi um cidadão amarrando um cachorro no banco da praça. Pelo comportamento dele parecia que estava fazendo algo às escondidas. Os nós que ele dava pareciam exagerados. Ele olhava para as lojas que ficam aqui embaixo dos apartamentos. De repente ele olhou para a varanda e abriu um sorriso tímido. Fiquei na minha. Ele retirou-se e entrou na loja. O cachorro sentou-se e ficou olhando pra mim. Eu ia para um lado da varanda e ele me acompanhava com o olhar. Preocupei-me pensando que ele estivesse pedindo socorro. 

Duas senhoras caminhavam pelo calçadão. De repente elas pararam e ficaram olhando para o cachorro. Começaram comentário que não deu pra eu ouvir. Saíram e logo pararam e voltaram para o cachorro. Falaram, falaram e saíram. Uma senhora já idosa, roupa branca e cabelos bem brancos, passava em bicicleta. Parou e falou lamentando: coitadinho. Olhou para a varanda e perguntou se o cachorro era meu. Balancei o dedo dizendo que não. Ela continuou ali no mínimo uns quinze minutos, reclamando e dizendo: coitadinho.

Um cidadão vinha em bicicleta. Parou e ficou olhando para o cachorro. Virou-se e me viu na varanda. Perguntou se era meu. Fiz sinal que não. Ele tinha dificuldade em falar. Dirigiu-se até a loja e na calçada parou, pôs a mão sobre a garganta e perguntou de quem era aquele cachorro. O dono do cachorro e o cidadão saíram e foram até ele. O homem soltou o cachorro e os três saíram pelo calçadão. A senhora de cabelos brancos balançou a cabeça e saiu. Observei que já havia, pelo menos, uma sete ou oito pessoas paradas olhando para o cachorro. Deu pra sacar por que estou tão encantado com a Ilha Comprida?

Enquanto tudo isso acontecia, três duplas de quero-queros passeavam tranquilamente pelo gramado da praça, pescando formigas. E sempre há um barulhento que parece estar orientando os demais, sobre como pescar formigas na grama. E são momentos assim, pela manhã, que com sua simplicidade me faz refletir sobre o que somos. Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460 

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