Cotidiano

Brasileiras mortas na Venezuela podem ser vítimas de tráfico de órgãos

Pacientes que realizam procedimentos estéticos no país vizinho podem estar sendo vítimas de quadrilhas especializadas em tráfico de órgãos

O preço da vaidade pode não apenas sair caro para brasileiras que realizam cirurgias plásticas na Venezuela como pode custar-lhes a vida. Em menos de uma semana, três mulheres morreram no país vizinho vítimas de procedimentos estéticos feitos com profissionais sem especialidade. Duas delas, uma paraense e outra roraimense, podem ter sido vítimas de quadrilhas especializadas em tráfico de órgãos. Elas tiveram os rins retirados e acredita-se que eles tenham sido comercializados no mercado paralelo.

A denúncia foi feita à Folha pelo cirurgião plástico e delegado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBPC), Márcio Arcoverde. “A paciente que veio a óbito na semana passada e morava no Amazonas voltou sem os rins. E eu recebi a informação que a roraimense que morreu durante uma cirurgia também teve os órgãos retirados para servir ao tráfico internacional”, disse.

O processo funciona da seguinte forma: ao constatarem a morte da paciente após as complicações durante ou após a cirurgia, os médicos responsáveis pelo procedimento acionam o serviço funerário venezuelano, que faz uma espécie de autópsia para a retirada dos órgãos, que seriam repassados para traficantes comercializarem no mercado.

A Folha recebeu informações que no laudo cadavérico realizado pelo Instituto Médico Legal de Roraima (IML), de uma das pacientes mortas após a realização de cirurgia plástica, que apontou grave violação do corpo praticado por uma funerária da Venezuela, que teria utilizado, de forma ilegal, formol para dificultar a autópsia da vítima.

O laudo apontou a causa da morte da mulher por choque hipovolêmico, caracterizada pela perda de grande quantidade de sangue. O corpo chegou a Roraima já com os procedimentos cadavéricos realizados pela funerária venezuelana, mas sem o coração, intestino, pulmões e rins.

No mercado negro do tráfico de órgãos humanos, o preço de um rim pode chegar a custar R$ 494 mil. É mais do que vale, por exemplo, um coração, que tem valor estimado de R$ 224 mil, e um fígado, que chega a valer cerca de R$ 290 mil. O pulmão vale R$ 260 mil, e o intestino é vendido por até R$ 4,7 mil.

Arcoverde informou que as denúncias sobre as irregularidades praticadas em cirurgias na Venezuela são feitas desde 2013. “Nós denunciamos para o Conselho Regional de Medicina, para a Secretaria de Saúde do Estado e para o Ministério Público, que informou não ter conhecimento da existência de denúncias de pacientes. Foram dois óbitos em menos de uma semana, fora as mulheres que estão em condições graves, como uma paciente que está internada em Caracas entre a vida e a morte”, disse.

Mulheres ficam sequeladas

Quando não morrem no país vizinho, dezenas de mulheres voltam ao Brasil com graves sequelas decorrentes das cirurgias. “Tenho pacientes que voltaram de lá sem umbigo, com necroses, tromboses, infecções graves, mamas deformadas. A verdade é que se vende um sonho e compra-se um pesadelo”, afirmou o médico Márcio Arcoverde.

Conforme o cirurgião, os hospitais venezuelanos estão sem condições de dar suporte a pacientes estrangeiros por conta da grave crise econômica do País. “Eles não têm nem papel higiênico. Falta antibiótico e analgésico. As relações médicas não existem”, complementou.

O barato que sai caro

O médico Márcio Arcoverde afirmou que as ilegalidades praticadas começam pelo aliciamento das pacientes. “Esse aliciamento é feito de forma agressiva, com promessas milagrosas. Além disso, há evasão de divisas, onde os pacientes pagam pelas cirurgias em real, por meio de depósitos bancários, e esse dinheiro é transportado para a Venezuela”, comentou.

O especialista também denunciou que médicos venezuelanos entram no Estado com visto de turista para realizar procedimentos de forma ilegal. “Tem médico que traz medicamentos para realizar preenchimentos, botox, curativos, consultas e são acobertados. A nossa preocupação é quanto à prestação de qualidade ao atendimento dos pacientes pela especialidade. É preciso coibir de forma intensa já na fronteira para que a vida humana possa ser respeitada e preservada”, frisou.

Para o cirurgião, não há tantas diferenças de valores que justifiquem a ida de brasileiras para fazerem cirurgias na Venezuela. “Uma plástica na Venezuela custa R$ 8,8 mil, equivalente a dez salários mínimos no Brasil.

Lá isso equivale a 176 salários mínimos, então, se convertermos isso, é como se uma plástica para o venezuelano no Brasil custasse R$ 176 mil, mas o brasileiro acha tudo barato e acaba pagando um preço alto por isso”, destacou.

Denúncia será levada ao Ministério da Justiça

Em entrevista à Folha, o presidente nacional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBPC), Luciano Chaves, informou que tentará uma audiência com o ministro da justiça, Alexandre de Moraes, para propor o fechamento da fronteira às brasileiras que tentarem realizar cirurgias plásticas no país vizinho. “Vamos ter que envolver o governo, porque essa situação se tornou insustentável”, disse.

Para ele, é preciso que haja a união de órgãos de fiscalização e entidades para evitar que mais mortes aconteçam. “Essa questão do tráfico de órgãos estava em segredo de justiça no Ministério Público do Amazonas. A nossa entidade não tem o poder de chegar e impedir isso, mas temos que usar o CRM, a Polícia Federal, o Ministério Público porque isso atingiu um nível emergencial grave”, frisou. (L.G.C)