Por Jessé Souza
Em 24/03/2017

Patinho da vez

Tudo o que os trabalhadores brasileiros conquistaram ao longo das décadas, antes mesmo da ditadura militar, foi lançado ao lixo em seis meses desse governo golpista sustentado por uma quadrilha, conforme as palavras de Janot. A aprovação ontem, pelo Congresso, do trabalho terceirizado em todas as atividades das empresas e várias atividades do Estado, é um golpe fatal ao trabalhador brasileiro, já fragilizado com a aprovação da Emenda à Constituição dos gastos públicos, que limita as despesas dos governos por até 20 anos. 

Quem acompanha a situação do Estado de Roraima conhece muito bem o que representa a terceirização no serviço público, com pais e mães sendo explorados por empresas que geralmente são ligadas a um político. Além dos salários achatados, esses trabalhadores vivem com os salários atrasados, o que revela a precarização das relações de trabalho.

Sem concurso público, as contratações são feitas ao bel prazer dos contraentes, que submetem o trabalhador a um medo constante de ser demitido a qualquer momento, principalmente se for cobrar direitos trabalhistas. A Justiça do Trabalho, em Roraima, é abarrotada de denúncias feitas por terceirizados.

Além disso, existem casos de empresas terceirizadas que se transformam em comitê eleitoral em tempo de eleição, com o trabalhador sendo forçado a fazer campanha para o candidato indicado pela empresa, como já ocorreu em Boa Vista, quando famílias dos terceirizados eram reunidas com a obrigação implícita de votar em alguém.

Que ninguém pense que a terceirização atingirá somente atividades secundárias. Quando for sancionada a lei pelo presidente Temer (PMDB), uma escola, por exemplo, que antes poderia contratar só serviços terceirizados de limpeza, alimentação e contabilidade, também passará a ter respaldo para contratar professores terceirizados, sem passar por qualquer seletivo, que significa salários menores e menos garantia de uma educação de qualidade.

Desta forma, o Brasil desce ladeira abaixo, retirando conquistas que foram alcançadas sob suor e lágrima – e muitas vezes até sangue – de uma geração que enfrentou inclusive uma ditadura militar nos anos de chumbo. Analisando bem as manifestações nacionais orquestradas no impeachment, agora dá para imaginar que aquele patinho amarelo, que era um dos símbolos dos protestos, nada mais era do que o povo, que mais uma vez não só vai pagar o pato, como se mostrou o verdadeiro patinho enganado mais uma vez.

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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