Por Opinião
Em 23/02/2017

A menina que se alimentava de metáforas - Walber Aguiar*

Quisera eu tomar susto com a flor todos os dias

O dia despertou sério, sóbrio, sonolento. Vestia um terno cinza. Lá embaixo, os homens, perdidos entre gargantas ressecadas, deixavam-se absorver pelo cinza dos prédios e das horas. Contudo, ela estava ali, no seu canto, sempre disposta a encantar-se com o cotidiano, em todas as suas cores e matizes. Mas que prazer havia em passar pela mesma rua, encontrar as mesmas pessoas e fazer tudo sempre igual todos os dias?
Se viver passou a ser uma enorme chatice, achatando os homens e reprimindo as crianças, ela percebeu que o bico da caneta podia rir, chorar, vazar esperança e armazenar toda forma de beleza. Assim, passou a rabiscar papéis, na tentativa de encontrar algum antídoto, alguma fórmula mágica para o desencantamento do existir.

Cansada de enxergar apenas o muro, ela começou a ver além dele. Clausura, medo, privacidade, solidão, separação, banalidade. Agora o concreto não era apenas um empilhamento de tijolos em série, mas a possibilidade de criar e de se pensar no que fora criado.

Aprisionada por uma realidade assustadora, a menina poeta passou a inventar coisas, criar expressões, verbalizar sonhos. Kallryn deu vida à massa amorfa que até então estava morta ao seu redor. Isso fez com que ela se visse e se percebesse como portadora de um enorme potencial criativo.

Desde essa percepção, passou a alimentar-se de metáforas. Dançou com as estrelas, flertou com a lua e penteou os cabelos do sol. Eis o sentido da metáfora: inventar uma maneira original de “ver” o mundo. Ela nasce de uma apreensão diferente da realidade. Tal apreensão tem algo de delírio, de conexão diferente com o mundo, além de ser mística e aproximar-se da alucinação. (Antônio Paulo Graça. A poesia: como funciona).

Alimentar-se de metáforas , nesse sentido, é entender além da lata, do muro e do relógio. É perceber o incontível, a solidão e a ilusão das horas. Isso porque, fazer versos não é ser piegas ou sentimentalista, nem amontoar rimas de uma romantização batida e circunstancial. Poetizar a vida, ao contrário, é compreender o inexplicável, mover o inarredável, vencer o inexpugnável. É brincar com as palavras sem lançá-las na vala comum dos jargões e clichês.

Por isso a menina se alimenta de metáforas. Transforma a terra num grande “queijo” literário e saboreia bocados substanciais de vida. Seus olhos são pequenos, mas é enorme sua percepção do existir. Se alguns poetas pouco metaforizam, emprestando à sua poesia um caráter articulado e panfletário, não quer isso dizer que a metáfora possua algo de alienante, que fuja do campo social e político. Se o vento pode respirar, então, em nome da genialidade poética, não podemos sufocá-lo em nosso estreitamento, em nossa redução metafórica.

De maneira incipiente, nossa menina poeta desfralda seus versos neste Brasil setentrional, tentando dar a eles e a si mesma um vislumbre daquilo que se tenta definir como felicidade. Enquanto grande parte das pessoas se alimenta da tragédia midiática que nos vitima, ela prefere abocanhar a vida com vontade e contemplar bucolicamente a simplicidade e os detalhamentos do existir.

Cansada da mesmice e da fria racionalidade, ela entendeu que alimentar-se de metáforas é saltar na direção da loucura e da fantasia, é absorver o delírio poético de Drummond e encantar-se com a inesgotável “alucinação” de Luiz Bacellar.

Naquela sexta cinzenta de agosto, pude perceber que uma simples aluna da rede pública é capaz de esconder uma coisa inédita, um transbordamento de graça e grandeza.

Com isso, o dia tornou-se azul. E os homens que dormiam em gargantas ressecadas, levantaram os olhos, contemplaram o pôr do sol e acordaram de sua sonolência.

*Poeta, professor de filosofia, historiador e membro da Academia Roraimense de Letras Wd.aguiar@gmail.com


Alzheimer - Geórgia Moura*

“No mundo atual está se investindo cinco vezes mais em remédios para virilidade masculina e silicone para mulheres do que na cura do Mal de Alzheimer. Daqui a alguns anos teremos velhas de seios grandes e velhos de pinto duro, mas que não lembrarão para que servem”. Dr. Dráuzio Varella

Esta é uma doença progressiva- degenerativa que destrói a memória e outras funções mentais importantes. Seu nome oficial refere-se ao médico Alois Alzheimer, o primeiro a descrever a doença, em 1906. Estudou e publicou o caso de uma paciente de 51 anos que desenvolveu um quadro de perda progressiva de memória, desorientação, distúrbio de linguagem, tornando-se incapaz de cuidar de si. Após o seu falecimento, o Dr. Alzheimer examinou seu cérebro e descreveu as alterações que hoje são conhecidas como características da doença.

É uma doença incurável, que se agrava ao longo do tempo, mas pode e deve ser tratada, e ao ser diagnosticada no início é possível retardar seu avanço e ter mais controle sobre os sintomas, garantindo uma melhor qualidade de vida ao paciente e à sua família.

O Alzheimer é a causa mais comum de demência irreversível (constituindo aproximadamente 60% dos casos). E o que é uma demência? Bem, as demências são um conjunto de doenças caracterizadas pela perda das habilidades intelectuais como a memória, a linguagem, o juízo crítico, a racionalidade, associada a transtornos emocionais e de comportamento. A pessoa com demência perde sua independência e não consegue realizar as atividades que anteriormente exercia.

A maioria dos casos ocorre em idosos, talvez por isso erroneamente é diagnosticada como “ esclerose” ou “ caduquice” e sua sobrevida está relacionada à severidade dos sintomas, mas costuma ficar entre 4 e 10 anos. Infelizmente não se conhece a causa desta terrível doença, logo não se pode prevenir. São diagnosticados mais de 2 milhões de casos por ano no Brasil.

*Psicóloga (CRP-RR 20/06603)
Contatos: 99111-2692 (Vivo/Wpp) e 98111-3060


E daí? - Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Quando me amei de verdade, descobri que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato”. (Charles Chaplin)

Já caminhei pelos brasis afora. Vivi momentos distintos em experiências que hoje me fazem feliz. Aprendei com elas, a ver a vida até no caleidoscópio. Porque é neste fervilhar de cores que caminhamos vida afora. Assisti a inúmeros exemplos de que devemos  encarar a vida como ela deve ser encarada. E cada um de nós encara sua vida no seu grau de evolução racional. E nem sempre sabemos que estamos caminhando no rumo certo. E daí? Qual o rumo certo?

Há exemplos que nunca me saíram da cabeça, nem quero que eles saiam. São eles que me fazem refletir sobre os acertos e os erros do dia a dia. Porque é assim que aprendemos. Não conseguiríamos viver os acertos se ficássemos presos aos erros. Você sabe que tudo que acontece nas nossas vidas faz parte do viver. Quando amamos a vida não devemos culpá-la pelos tropeços que encontramos nela. Eles, os tropeços, fazem parte do nosso amadurecimento.

Já falei pra você, aqui, de um dos exemplos que não consigo esquecer, de grandeza de espírito. São tantos os que conheço, mas este está sempre na minha memória. Numa manhã fria, em São Paulo, eu atravessava a praça, no Largo do Arouche. Atrás de mim um homem falava pra dedéu, ria muito e se divertia com alguém que o acompanhava. Terminei a travessia. Subi na calçada e me virei, para ver quem era o risonho. Fiquei surpreso. Era um cara numa cadeira de rodas, enrolado em panos nem tão limpos. Observei que ele não tinha as duas pernas. Um cidadão, também divertido empurrava a cadeira de rodas. Ele colocou a cadeira sobre a calçada, despediu-se do cadeirante, e percebi que não havia familiaridade entre eles. O cidadão apenas estava ajudando-o a atravessar a praça.

Logo que o cidadão afastou-se, o cadeirante assumiu o controle e saiu pela calçada cantarolando e se divertindo. Acompanhei-o analisando quantas pessoas por aí não estariam paradas e se lamentando por conta de apenas um pequeno acidente. Como não seria difícil a vida daquele cidadão sem as pernas e se movimentando por uma cidade como São Paulo, na sobrevivência do dia a dia de quem não tem como viver. Mas nunca nos faltam condições quando nos amamos. Porque o amor é a força maior que nos mantém acesos na fogueira da vida. Talvez aquele cidadão já tenha se perguntado: e daí? Por que não posso viver, só porque perdi minhas pernas? Minha vida não está nas minhas pernas, mas na minha mente. Se você o encontrar por aí não o julgue inferior só porque ele não tem pernas. Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460

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