Por Opinião
Em 17/01/2017

Inveja, um pecado sem rosto - Walber Aguiar*

Tu certamente os pões em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição.
Salmos 73:18

Madrugada. A chuva fina ameaçava inundar ruas e consciências. Na penumbra do quarto a solidão e a fumaça do cigarro eram ingredientes naturais da mesquinhez e da mediocridade. “Aranha” tecendo teia no silêncio, fel destilando amargura por todos os lados. Sob o olhar extático da aurora nascia o mais sórdido de todos os pecados: a inveja.

Gerada nas entranhas da frustração e da incompetência, a inveja cresceu rapidamente. Deitou raízes no terreno da malignidade, espalhou tentáculos na direção que, desesperadamente, tentava alcançar. Não conhecia o ético, não se dava ao trabalho de respeitar o nome e as conquistas alheias. Era o fogo queimando a si mesmo, areia movediça puxando pra baixo qualquer coisa que se aproximasse.

De todos os pecados a inveja é o único que não tem rosto, cara, identidade. Daí ser falsa, fingida, dissimulada. Síndrome de Caim, que mata seu irmão pelas costas, a inveja não consegue fitar o sol da justiça ou o calor da verdade. Ela não encara o problema de frente. Prefere aproveitar um momento de distração para apedrejar o objeto que obsessivamente deseja.

Qualquer um que se destaque é um alvo potencial. À semelhança de Moisés que, iluminado pelo clarão estoante da glória de Deus, experimentou o ciúme, a inveja de sua irmã, que, de súbito, ficou coberta de lepra.

Assim, o pecado sem cara também se alimenta da proximidade. Chega devagar, demonstra afeto, carinho, intimidade. Depois do abraço a indiferença, depois do beijo o escarro na boca.

Mas a inveja não é aleatória. Articulada, ela corre atrás do dinheiro e da subserviência. Lambe as botas do poder, chafurda-se na lama da soberba e do tráfico de influência. Contenta-se com trinta moedas de prata.

Sob vários disfarces, ela executa suas vítimas sumariamente. Às vezes, mata devagar, no cansaço. Está presente no Executivo, Legislativo, Judiciário. Em palácios e repartições públicas. Aprisiona a alma do alto escalão e do servidor que virou arquivo de metal. Está nos cartórios, nas centrais de mandados, nos escritórios, nas prisões.

No entanto, esse pecado que se arrasta de maneira vil, escondendo um rosto que não tem, sempre destrói a qualquer um que o detenha, que dele faça uso na tentativa de derrubar os outros. Caim foi perseguido para sempre, Miriã  ficou leprosa, Judas enforcou-se.

Irmã gêmea da preguiça, que morre desejando e nada tem, e da soberba que esnoba os outros pensando ser alguma coisa, a inveja é uma doença crônica, uma enfermidade do coração, uma chaga que acomete os seres ignorantes e desprezíveis.

Madrugada. Enquanto a chuva caía, os invejosos, com suas olheiras, sua frustração e seu semblante pesado, vagavam insones na direção do nada. Nada tinham, nada eram. E como “a inveja é uma merda”, saltaram no vaso e puxaram a descarga...

*Poeta, professor de filosofia, historiador, Conselheiro de Cultura  e membro da Academia Roraimense de Letras
 wd.aguiar@gmail.com
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Justica ou In-Justiça do Trabalho II  - Marlene de Andrade*

“..o Senhor aborrecerá o homem sanguinário e fraudulento”. (Salmos 5:6 b).

Certo trabalhador se acidentou no trabalho e por isso recebeu oito pontos na testa. O médico que o atendeu, no Pronto Socorro (PS), lhe deu alta e um atestado médico de três dias de afastamento do trabalho.

Se esse trabalhador foi logo liberado do PS e saiu andando de lá, é porque estava bem, tanto é isso verdade que ele continuou trabalhando na empresa até terminar sua estabilidade de um ano. Mas como era etilista crônico, a empresa o demitiu, pois faltava muito ao trabalho quando estava de ressaca.

Esse trabalhador ao ser demitido processou a empresa e, na sua inicial, alegou que o acidente de trabalho lhe deixou “sequelas graves”, ou seja, “cefaleia e zumbidos” devido a uma suposta fratura de crânio e hemorragia subaracnóidea.

Cefaleia e zumbidos, devido também ao etilismo, são sintomas subjetivos e por isso o médico necessita comprovar tais queixas através do exame clínico e laboratoriais. Quanto à hemorragia subaracnóidea, que ele não sofreu, se trata de um derramamento de sangue produzido no espaço que fica entre o cérebro e a camada que o rodeia. Causas: ruptura de um vaso sanguíneo devido a uma malformação arteriovenosa ouporaneurisma, e essa não era a história desse trabalhador oportunista.

O juiz nomeou uma perita que não é médica do trabalho e eu fui nomeada para ser a perita da empresa. Elaborei meu laudo médico de forma bem explícita e me contrapus ao laudo da médica do juiz. Durante a audiência, expliquei, ao magistrado, detalhadamente, todo fato ocorrido, apresentando meus argumentos à luz da verdade.

Sendo assim, pedi ao juiz que solicitasse o prontuário do trabalhador no PS para que eu pudesse prová-lo que esse trabalhador não havia sofrido traumatismo craniano e nem hemorragia subaracnóidea, pois se tal fato houvesse ocorrido, ele jamais teria recebido alta logo após ser atendido naquela emergência.

O juiz se negou a pedir o prontuário do trabalhador e manteve o seu parecer de acordo com o laudo de sua perita.  Sendo assim, condenou a empresa. Há que ficar claro que somente o paciente ou o juiz podem solicitar cópia de prontuário.

Claro que a perita do juiz deve ter exultado de alegria, pois teve seu laudo acatado pela magistratura e assim pôde receber seus honorários, mas e a empresa restou o quê para ela? Correr atrás de instâncias superiores para provar que é inocente. Como se pode perceber, a justiça da Terra é muitas vezes injusta.

*Médica Especialista em Medicina do Trabalho/ANAMT
Pós-graduada e Perícias Médicas e Saúde Pública, técnica de Segurança no Trabalho
Face:Marlene de Andrade
(95) 36243445
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Como terá sido? - Afonso Rodrigues de Oliveira*

“Se as famílias não reagirem à cultura, acabarão gordas, viciadas, falidas, com uma casa cheia de bagulhos e sem nenhum tempo”. (Mary Pipher)

Dona Salete anda meio doidói. Mesmo porque já estamos na idade do condor. Acordamos sempre com dor aqui, com dor ali. Sempre dor. E quando ela está assim, não pode se aproximar do fogão porque o calor aumenta a dor; da geladeira, nem pensar, porque o frio mexe com os nervos. E adivinha quem é que toma conta de tudo isso? Aposto que você não é capaz de adivinhar. Nem vou dizer. Pronto o café, tudo na mesa, sentamo-nos. E o papo rolou. E quando ele rola nesses momentos, me cansa. Aí procuro jogar os pensamentos lá para os ares. E ele vai longe pra dedéu. Mas não pude viajar muito, porque o assunto do dia caiu. 16 de janeiro de 2017, aniversário da Amanda. Três aninhos. Minha netinha. Lindinha e adorável. Aí tremi na base. E o presente? Quem vai dar por mim? Até agora ninguém se manifestou. Vou ter que me virar.

Quando você está familiarizado com seus pensamentos tudo fica mais fácil. E estou com os meus. E aí comecei uma viagem bem longa pelo além. Fiquei pensando como terá sido o mundo no ano 1017? Mil anos atrás. É claro que eu estava lá, mas não consigo me lembrar, nem mesmo do menor detalhe. Meneei a cabeça para jogar os pensamentos fora, mas não deu. Continuei imaginando se naquela época eu teria ficado à mesa pensando no aniversário de uma de minhas netinhas. Sorri me esforçando para a dona Salete não perceber o meu sorriso. Nem me lembro se naquela época já se usava mesas. Acho que não.

A cultura é fundamental para nosso desenvolvimento. O que não devemos é nos deixar levar pelo que ela nos apresenta nas modificações da cultura. Comecei a pensar nisso e procurei mudar o rumo dos pensamentos. Tudo que sabemos da história da humanidade foi escrito por pensadores diferentes e de acordo com o que e como pensavam. Já no século vinte, o político John Kennedy disse que a história depende de quem a escreve. E tudo isso passou pela minha cabeça, nos minutos em que tomávamos o café da manhã, no dia do aniversario da Amanda. Será que um dia ela vai fazer alguma reflexão sobre os mil anos anteriores ao seu nascimento? Aposto que não. Mas tudo é possível quando não nos deixamos dominar pelo impossível. E pelo que vejo na Amanda, ela não vai ser um dos que se deixam dominar. Mas, importante é que a ensinemos a absorver a cultura no seu desenvolvimento cultural. Que não deixemos que o acúmulo de conhecimentos culturais nos encha a casa de bagulhos materiais. E que não percamos tempo com bagulhos culturais. Pense nisso.

*Articulista
afonso_rr@hotmail.com
99121-1460

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