BOA VISTA 125 ANOS
De área isolada no Vale do Rio Branco a uma cidade acolhedora
A origem de tudo foi em 1616, um século depois do Descobrimento do Brasil, quando foi fundado o Forte do Presépio, a partir do qual os portugueses marcaram sua ocupação na Amazônia
Por Jessé Souza
Em 09/07/2015 às 12:30
Embora o planejamento não tenha sido mantido com o crescimento, Boa Vista é mais bela Capital do Norte (Foto: Antonio Diniz)

Para compreender a origem do surgimento de Boa Vista, Capital do Estado de Roraima, é necessário buscar os fatos históricos sobre as incursões dos exploradores portugueses na Região Norte, as quais tinham a finalidade de proteger esse pedaço do Brasil contra as invasões estrangeiras.

Para isso, o Estado brasileiro teve que manter uma política de ocupação da área de fronteira com as nações vizinhas, a Venezuela, ao Norte, e a República Cooperativista da Guiana (antiga Guiana Inglesa), a Leste.  Foi ao longo dessa conquista que surgiu Boa Vista, à margem direita do Rio Branco, afluente do Rio Negro, que banha o Amazonas, Estado do qual Roraima foi desmembrado.

A origem de tudo foi em 1616, um século depois do Descobrimento do Brasil, quando foi fundado o Forte do Presépio, a partir do qual os portugueses marcaram sua ocupação na Amazônia.  Esse Forte deu origem à cidade de Belém, Capital do Pará, ponto que serviu de base tanto para que os portugueses espalhassem feitorias e missões ao longo do Rio Amazonas, como também para a expulsão dos estrangeiros que entravam pela Venezuela e Guiana.

Demarcação de fronteiras motivou interesse pela região a partir de 1775

Até o final do Século XVIII, o Vale do Rio Branco era uma região sem atrativos comerciais. Os portugueses mantinham apenas um interesse estratégico por ser uma barreira natural para conter a invasão de estrangeiros. O surgimento de Boa Vista efetivamente começou em 1750, quando o Rio Branco passou a ser importante pela necessidade de demarcar as fronteiras coloniais de Portugal e Espanha.

Ponto isolado do restante do Brasil, a região despertava os interesses dos holandeses e espanhóis, que chegaram a montar aldeamentos às margens do Rio Uraricoera, afluente do Rio Branco. Mas somente em 1775 a notícia da invasão chegou ao poder central, fato apontado como um perigo real para o todo o sistema de defesa para a Amazônia.

A Coroa portuguesa enviou uma expedição comandada pelo capitão Phelippe Sturm, oficial engenheiro alemão que não enfrentou dificuldade em expulsar os espanhóis. A partir daí surgiu a necessidade da construção de um Forte bem como o início das tentativas de aldeamentos indígenas como estratégia para a ocupação efetiva do Rio Branco, o Forte São Joaquim.

Forte São Joaquim e os arraiais

Entre os anos de 1775 e 1776, foi iniciada a construção do Forte São Joaquim, à margem direita do Rio Tacutu, no encontro com o Rio Uraricoera, onde se forma o Rio Branco, principal manancial que banha o Estado. O feito tinha o objetivo de marcar definitivamente a presença no Vale do Rio Branco.

O Forte foi decisivo para estimular a política de povoamento da região e, por conseguinte, o surgimento de Boa Vista. Em 1777, já existiam seis povoados, chamados de arraiais, dos quais cinco desapareceram depois da revolta dos indígenas de 1781 contra os colonizadores portugueses.

Esse fato serviu para a Província do Amazonas, em 1852, oficializar a fragilidade do Forte, que inclusive apresentava defeitos em sua construção, mas reconhecendo a importância estratégica para manter a fronteira, pois era o único ponto fortificado que a Província mantinha por esses lados.

A ocupação do Vale do Rio Branco enfrentou outra grande revolta nos aldeamentos indígenas em 1790, momento em que a ocupação portuguesa ficou desorganizada na região. Em 1798, as povoações ficaram quase desertas e, no Forte São Joaquim, ficou um destacamento de índios proveniente do Rio Negro que se revezava mensalmente. A experiência dos aldeamentos cessou no século XVIII, mas ficou o embrião para surgir a Capital de Roraima, ou seja, o povoado que restou dessas habitações.

Papel das fazendas reais e o embrião para o surgimento do que temos hoje

Com o fracasso dos aldeamentos no Forte São Joaquim, os portugueses continuaram com a determinação de manter a ocupação no Vale do Rio Branco e um novo projeto de ocupação foi adotado. Implantou-se a política de introdução da pecuária, com criação das “fazendas reais” para intensificar a presença do Estado no Alto Rio Branco. E o projeto deu certo para que Boa Vista surgisse.

As condições geográficas da região, com vegetação de cerrado e relevo plano, favoreceram a pecuária, iniciada em 1789, com as primeiras cabeças de gado trazidas do Amazonas. No século seguinte, as regiões próximas aos principais rios foram sendo ocupadas por fazendas acompanhadas da estratégia portuguesa de evangelização dos índios, bem como a integração da região do Rio Branco ao mercado e fixação de colonos.

Entre as principais propriedades rurais estavam as Fazendas Nacionais São Bento, São José e São Marcos fundada em 1830, que ocupavam toda a região do Alto Rio Branco, de propriedade do Estado português.

Também havia a fazenda particular Boa Vista, a mais importante. Isso fez com que os não índios fossem atraídos pela grande quantidade de pastagens naturais existentes no Vale do rio Branco.

Cidade cresce no entorno da Fazenda Boa Vista

A instalação da Fazenda Boa Vista ocorreu em 1830, por Inácio Lopes de Magalhães. Nos dias de hoje, fica no Centro Histórico de Boa Vista, onde se situa o Restaurante Meu Cantinho, em frente à Orla Taumanan, de frente para o Rio Branco.

A fazenda de gado estimulou a ocupação e foi decisiva para o desenvolvimento do porto fluvial na região, a partir do qual surgiram os marcos iniciais da cidade, a construção da sede da Fazenda Boa Vista e da capela de Nossa Senhora do Carmo, a Igreja Matriz.

Em 20 anos de criação, a propriedade particular já tinha se transformado em um arraial exatamente onde em 1830 existia a fazenda, ganhando contorno de cidade.

Em 1856, a freguesia de Nossa Senhora do Carmo era despovoada, mas a localidade foi emanciparia em 1858, tornando-se uma vila, que foi fundada com transferência para a região da pequena povoação de São Joaquim, que vivia aos arredores do Forte de São Joaquim.

Naquela época, existiam 142 fazendas em atividade. Foi nesse cenário rural que o povoado foi crescendo nas primeiras décadas de XIX. Do século XIX e início do século XX, Boa Vista resumia-se a um arraial estruturado com algumas residências, a igreja e um porto de carga e descarga de mercadorias, a partir do qual chegava de tudo, único canal de comunicação com o resto do Brasil.

Porto fluvial deu o impulso definitivo

Boa Vista permaneceu por longo período como um povoado de pouca expressividade no cenário regional. Essa realidade começou a mudar somente no final do século XIX, quando o Rio Branco ganhou importância estratégica por causa do porto fluvial que impulsionava as atividades econômicas locais.

O Porto de Cimento, como era conhecido, servia de infraestrutura para a navegação fluvial, com embarque e desembarque, e ainda local de todo tipo de transação comercial para compras, vendas e trocas. Também era lugar de moradia das primeiras famílias que aqui chegaram, como Brasil, Magalhães, Figueiredo, Fraxe e várias outras.

A cidade cresceu dependente da navegação do Rio Branco, sobretudo porque era uma época que não havia estradas nem voos regulares.

Criação do Município foi em 09 de julho com o desmembramento do Amazonas

O Município de Boa Vista foi criado em 09 de julho de 1890, a partir do desmembramento do Município de Moura, no Amazonas. No final do século XIX, ainda em 1887, era considerado com um acanhado povoado.

Esta realidade pode ser conferida com os primeiros registros de imagem aérea em 1924, quando por aqui aportou Alexander Hamilton Rice, trazendo sua equipe para realizar pesquisas a bordo de um hidroavião. Foram tiradas as primeiras fotografias aéreas de Boa Vista.

Hamilton Rice assinalou que Boa Vista tinha 164 casas que abrigavam uma população de 1.200 pessoas. Alguns das construções eram de tijolos, como a Igreja Matriz, a Intendência, o armazém e algumas casas de moradia, a maioria de reboco e pau a pique.

A população era composta de portugueses, brasileiros, mestiços índios e alguns negros vindos das Índias Ocidentais que chegaram pela Guiana Inglesa, hoje República Cooperativista da Guiana.

Intendência foi o primeiro prédio público

A Intendência foi o primeiro prédio público, construído em 1900, próximo à margem direita do Rio Branco, mas de costa para o rio. Sua estrutura original foi queimada e o prédio demolido no fim da década de 1950.

O primeiro governador, Ene Garcez dos Reis, quando veio para instalar o Território Federal do Rio Branco, trouxe com ele o primeiro prefeito, Mário Homem de Melo. Ene Garcez foi quem derrubou o prédio da Intendência, que era equivalente à primeira Prefeitura de Boa Vista.

O prédio foi reerguido em outro local, em 1996, como uma das ações do Projeto Raízes. Conforme a justificativa da Prefeitura de Boa Vista, a não permanência do local original do novo prédio se deveu às constantes inundações sofridas, no período das chuvas, quando as águas do Rio Branco inundam o local.

Praça Barreto Leite foi local de eventos cívicos e políticos

A Praça Barreto Leite compõe a paisagem do Berço Histórico de Boa Vista. A praça foi criada conforme a evolução da cidade, em frente ao então Porto do Cimento, onde hoje está o Monumento dos Pioneiros.

Inácio Lopes de Magalhães, o fundador de Boa Vista, chegou primeiro ao local e fez a sua casa. Depois os seus filhos construíram as suas casas no entorno. Então foi tomando forma de vila.

Em seguida, fizeram o Casarão da Família Brasil. Essa vila iniciou-se onde hoje está o Restaurante Meu Cantinho, sede da Fazenda Boa Vista, seguido até na esquina onde fica a praça. Essa parte em forma de triângulo que surgiu da ocupação serviu para o surgimento da Praça Barreto Leite.

Cidade nasceu planejada na década de 40

A implantação de um plano urbanístico para Boa Vista foi decisiva para se chegar à cidade dos dias atuais, embora o traçado não tenha sido obedecido com o crescimento da cidade. Esse plano fazia parte de uma política de desenvolvimento para os Territórios Federais recém-criados na época, o que incluía também outras iniciativas governamentais.

Foi assim que Boa Vista cresceu, a partir da década entre 1940 e 1950, baseado em programas de desenvolvimento tanto urbano como rural, que incluíam construções públicas, reforma urbanística, incentivos ao comércio e à agropecuária.

O primeiro governador do Território Federal do Rio Branco, Capitão Ene Garcez, realizou uma concorrência de projetos para a implantação do Plano Urbanístico para Boa Vista. A licitação foi vencida pela empresa “Riobras Industrial Ltda”, em 21 de setembro de 1944.

Em 1945, o traçado original da cidade, localizada em uma área mais elevada e livre das enchentes, serviu de base para o projeto urbanístico que se espelhou no centro urbano de Goiânia ou de Brasília. O projeto tinha como base o Rio Branco, ganhando forma de um leque, com a implantação de avenidas radiais iniciadas na ampla praça circular do Centro Cívico, cortadas por ruas circulares.

Seguindo essa política, em 1946 foi construído o primeiro conjunto habitacional de Boa Vista composto por 52 casas. Ficava onde hoje se encontra a parte antiga de Boa Vista, nas proximidades do bairro São Pedro.

Durante o regime militar, foram construídas, entre o final da década de 1960 e o início da década seguinte, duas rodovias: BR-174 (ligando Boa Vista a Manaus) e BR-210 (Perimetral Norte).

O começo do crescimento de Boa Vista

Em 1943, foi criado o Território Federal do Rio Branco, convertido em 1962 em Território Federal de Roraima e, posteriormente, em 1988, em Estado de Roraima. A ocupação territorial de Boa Vista foi intensificada a partir de meados da década de 1940, caracterizada por correntes migratórias estimuladas pelo governo do antigo Território, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e pelo Plano Nacional de Desenvolvimento e Plano de Integração Nacional.

Somam-se a isso o sonho de riqueza fácil através dos garimpos, que ficou conhecido como o “El Dourado”, seguido dos programas de construção de estradas e estímulo dos governantes para trazer migrantes para povoar o então Território Federal do Rio Branco.

Por falta de estrutura na zona rural, a maior parte da população acabou se fixando em Boa Vista, juntando-se à população indígena, principalmente das etnias Macuxi e Wapixana, as maiores do Estado.

Plano urbanístico teve um significado para o Brasil nos tempos de guerra

O plano urbanístico de Boa Visa teve um significado para o Brasil. Não se tratava apenas de uma obra de urbanismo, mas de um projeto construído no fim de uma guerra mundial. O engenheiro responsável pelo projeto, Darcy Aleixo Derenusson, explicou o que significava as vias radiais se entrecruzando com longas e largas avenidas circunscritas.

Segundo ele, tratava-se da afirmação do sentido de território brasileiro e de autonomia nacional. “As avenidas radiais partindo de um centro gerador, buscam os confins do Norte de nosso território, irradiando a energia de seu povo, como a protegê-lo, Roraima, guardião do Norte”.

E tudo foi planejado para dar certo. A equipe encarregada de implantar o projeto realizou um levantamento topográfico planialtimétrico e cadastral de Boa Vista e dos arredores, atingindo um raio de cobertura de 20km², com a elaboração de uma planta baixa do núcleo edificado até então.

A equipe também se encarregou dos seguintes serviços: recenseamento geral da população; estudos sócio-econômicos necessários à elaboração do Plano; projeto do Plano Diretor da Cidade; elaboração do Plano de Urbanização, com o detalhamento indispensável à sua execução; criação do Código de Obras do município; projeto de abastecimento de água, inclusive detalhamento da captação, adução e rede distribuidora.

Havia também plano da rede coletora de esgotos sanitários; planejamento de galerias de águas pluviais e seu detalhamento; sistema de energia elétrica e rede distribuidora com detalhamento; projeto arquitetônico de escolas rurais e residências. Este plano envolveu um total de cerca de mil plantas, detalhando minuciosamente a quantidade dos materiais necessários a cada obra.

Impulso para o crescimento definitivo

O plano urbanístico de Boa Vista estimulou a ocupação da cidade nos anos que se seguiram e precisou ser ampliado em virtude da necessidade de crescimento do núcleo urbano. Novas intervenções físicas no espaço construído voltariam a se apresentar nos anos de 1960, para marcar a presença do Brasil na Amazônia.

O plano urbano da cidade foi aumentado, sendo suas ruas ampliadas e asfaltadas, além de praças gramadas e arborizadas. As décadas de 1960 a 1980 registraram uma explosão demográfica e territorial. Migrantes de todo o Brasil foram atraídos pela promessa do El Dourado, com a exploração fácil de ouro e diamantes, bem como o incentivo à atividade agrícola e povoamento.

As primeiras notícias sobre a abundância em ouro e diamantes foram divulgadas na década de 1930, fazendo surgir o pensamento de que era possível ficar rico em Roraima apenas garimpando. A corrida ao ouro foi reduzida na década de 1990.

Como o plano urbanístico foi projetado levando em consideração uma previsão de crescimento de 25 anos, com as migrações da zona rural e de outros estados brasileiros, principalmente do Nordeste, o planejamento inicial logo foi superado.  Em um período de 50 anos, a cidade passou de uma população de 1.800 habitantes a 250.000. A cidade mostrou que não estava preparada para enfrentar a nova realidade.

Em 1980 a população de Boa Vista possuía aproximadamente 44 mil habitantes. No final de 1991, como capital do novo Estado, o número aproximado de habitantes passou para 123 mil. Esse salto de 300% mostra a explosão populacional.

Na Boa Vista atual, o traçado previsto no plano urbanístico representa cerca de 10% da extensão total da cidade.  A cidade cresceu sem respeitar o plano urbanístico, principalmente na zona Oeste, onde se encontram os bairros mais afastados do Centro, onde está a área planejada. Mas isso não tirou a beleza da cidade, que é arborizada, com ruas e avenidas largas, além de meio-fios com serviço de jardinagem.

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