SETOR IMOBILIÁRIO
3 são presos por suspeita de estelionato
Estima-se que vítimas tenham perdido, juntas, R$ 6 milhões; Sargento da Base Aérea se passava por capitão para aplicar golpes
Por João Barros
Em 08/03/2018 às 00:40
Em coletiva de imprensa, os delegados falaram sobre a investigação e operação que culminaram nas prisões (Foto: Hione Nunes)

Uma quadrilha que aplicava golpes em pessoas interessadas em comprar ou reformar imóveis foi presa pela Polícia Civil. Estima-se que eles arrecadaram quase R$ 6 milhões e fizeram 48 vítimas, agindo principalmente nos bairros Caçari, zona Leste, Paraviana, zona Norte, e Centenário, na zona Oeste.

O bando tinha a proposta de realizar o sonho das vítimas, no entanto, ao fazer o investimento ou parte dele, eram enganadas, uma vez que a obra deixava de ser construída. O articulador da organização criminosa era um sargento da Base Aérea de Boa Vista, mas que se passava por capitão para conquistar a confiança da clientela e aplicar novos golpes.

A esposa e a sogra do militar também foram presas. Elas davam apoio nas ações desenvolvidas pela imobiliária e também auxiliavam na captação das vítimas que, em geral, eram pessoas de alto poder aquisitivo. A operação durou cerca de seis meses até que os três mandados de prisão fossem expedidos.

“Esse tipo de investigação leva tempo. É um trabalho de muito cuidado, muito zelo, porque temos que robustecer muito as provas para poder conseguir a busca e apreensão, prisão, como a gente conseguiu agora. Nossa intenção é alertar a população sobre o cuidado na hora de manter contato e firmar contratos, porque o prejuízo que esse golpe deu para cada pessoa é um montante absurdo”, explicou a delegada-geral Edineia Chagas.

Os mandados foram cumpridos por agentes do Grupo de Resposta Imediata (GRI) da Polícia Civil, após um levantamento de rotina e localização dos investigados. Agentes da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Polinter (Polícia Interestadual), Delegacia-Geral de Homicídios (DGH) e também o serviço de inteligência da Polícia Civil participaram da operação.

“Essas pessoas estavam sendo investigadas pela Delegacia de Repressão a Crimes contra a Administração Pública [DRCASP]. À medida que as pessoas foram procurando a delegacia e foram fazendo as comunicações de que estavam sendo vitimadas por esse golpe, foi-se colhendo provas até que a investigação estivesse madura o suficiente para se representar pela prisão dos infratores, até como uma forma de tirar de circulação e evitar que outras pessoas também caíssem na mesma armadilha”, ressaltou a delegada-geral.

Contra os três preventivados há pelo menos 24 inquéritos policiais, mas o número de vítimas, segundo a apuração da Polícia Civil, pode ser bem maior que 48 pessoas, tendo em vista que alguns dos que foram lesados não procuraram a polícia para fazer a denúncia. “Nós queremos que essas pessoas se sintam encorajadas para procurar a Polícia Judiciária a partir desses resultados. Infelizmente é um crime de estelionato agravado pela participação de várias pessoas, o que pode caracterizar uma quadrilha ou uma organização criminosa”, concluiu Edineia Chagas. (J.B)

DRCASP dá detalhes da execução dos crimes empregados pela imobiliária

A delegada titular da Delegacia de Repressão a Crimes conta a Administração Pública (DRCASP), Darlinda de Moura, e o adjunto, Rodrigo Gomides, deram detalhes de como o bando agia para atrair as vítimas para dentro da imobiliária e a sequência dos crimes que fizeram com que algumas pessoas perdessem casas, terrenos e valores consideráveis em reais.

“O militar se apresentava como proprietário da imobiliária, apesar de o contrato social estar no nome de outra pessoa. Se a vítima tinha um terreno e precisava construir, eles faziam o contrato para construir a casa. Ele vendia o sonho que a pessoa quisesse”, explicou Darlinda.

As vítimas faziam o financiamento completo do imóvel e pagavam ao estelionatário a entrada exigida pela imobiliária, mas assim que o valor era entregue, a obra parava ou não era iniciada. A partir daí o homem bloqueava as vítimas no celular e nos aplicativos de mensagens instantâneas, de modo que nenhum contato fosse mantido, em seguida os autores do crime forjavam uma viagem. A sogra do casal de estelionatários era responsável por receber as vítimas na imobiliária para informar que naquele momento não poderiam ser atendidas porque o dono da empresa estava viajando.

A sogra também fotografava as vítimas para enviar ao genro e à filha, alertando que estavam sendo procurados e por isso tinham que ficar escondidos. O escritório imobiliário era bem montado, com uma estrutura bem organizada, no intuito de fazer as vítimas acreditarem que a empresa tinha lastro financeiro e que não cometeria golpes.

Dentre as pessoas lesadas pela quadrilha, os delegados destacaram o caso de uma vítima que contratou a empresa para fazer a reforma em sua residência que era considerada de alto padrão, mas a mulher foi convencida a demolir o imóvel para que outro fosse construído no local. “Ela perdeu, além de R$ 230 mil de entrada, a casa que foi destruída. Outra vítima comprou quatro casas dele por R$ 1,7 milhão, a obra foi concluída, mas o estelionatário vendeu as casas para outras pessoas”, relataram os delegados.

Criminosos usavam nome de laranjas

A empresa já estava instalada em Boa Vista há dois anos, mas sempre em nome de terceiros. Laranjas eram usados como proprietários da imobiliária. Nesse sentido, a polícia declarou que o crime tributário também está sendo investigado. A princípio, os delegados informaram que há mais uma pessoa foragida, mas destaca que outras prisões serão decretadas porque outros sujeitos estão envolvidos na organização criminosa.

Durante as investigações ficou claro que a esposa do estelionatário começou o trabalho como secretária dele, mas em pouco tempo também passou a assumir as mesmas responsabilidades do marido, com o mesmo poder de assinar contrato, levar as vítimas às obras, fazer negociações de valores para dar entrada na documentação. “Pedimos a prisão preventiva porque eles continuavam aliciando as pessoas, e para impedir que eles fugissem. O militar solicitou por três vezes a transferência dele para outro estado, mas como respondia sindicância, o pedido de remoção foi negado”, considerou Gomides.

O militar está preso na Base Aérea, enquanto a esposa e a mãe dela estão reclusas na Cadeia Feminina de Boa Vista. (J.B)

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