CORPOS NO POÇO
Principal suspeito é condenado pela ‘Chacina do Pintolândia’
Domingos Macedo Brito Filho, o “Domingão”, foi condenado a 76 anos por matar quatro pessoas em 1996
Por João Barros
Em 05/01/2018 às 01:00
Conforme a DGH e NIPD, o caso começou a ser investigado após famílias registrarem B.O sobre desaparecimento de dois adolescentes (Foto:Nilzete Franco)

No fim da tarde de ontem, a Polícia Civil convocou a imprensa para uma coletiva, a fim de dar informações a respeito das ossadas encontradas, às supostas vítimas e quem poderia ter sido o autor dos homicídios que fez a ocultação dos cadáveres. Os titulares do Núcleo de Investigação de Pessoas Desaparecidas (NIPD), Miriam Di Manso; da Delegacia-Geral de Homicídios (DGH), Cristiano Camapum; e a diretora do Departamento de Polícia Judiciária da Capital (DPJC), Verlândia Silva de Assis, deram detalhes das ações que resultaram na elucidação do caso. 

As investigações foram presididas pela delegada Miriam Di Manso após as famílias de dois adolescentes procurarem o NIPD para registrar Boletim de Ocorrência (B.O) relacionado ao desaparecimento dos menores. Os desaparecidos foram identificados como I. P. S., vulgo “Caxiri”, e D. D. S. de L., ambos são primos e têm 17 anos.

Os familiares relataram que os adolescentes foram vistos pela última vez no dia 11 de dezembro do ano passado, por volta das 19h, após saírem juntos. O registro da ocorrência foi feito no dia seguinte, 12.

Durante a investigação, a Polícia Civil soube que os primos teriam praticados alguns atos infracionais, como o roubo de uma geladeira e posteriormente teriam manifestado interesse em furtar porcos no mesmo local, sendo uma chácara e uma fazenda na região de Monte Cristo, de propriedade do mesmo indivíduo. A Polícia Civil conseguiu recuperar a geladeira e o fogão e restituiu ao verdadeiro dono.

“A partir disso, nós chegamos a suspeita de quem seria o autor, porque nós já tínhamos a suposta localização do fato e a motivação. Nós chegamos à pessoa de Domingos Macedo Brito Filho, o “Domingão”, de 56 anos, e em seguida soubemos que ele foi o autor de quatro homicídios”, destacou Di Manso.

O suspeito é condenado pela Justiça a 76 anos de prisão pela prática de quatro homicídios, quando uma família inteira foi assassinada dentro da própria residência, no bairro Pintolândia, zona oeste de Boa Vista, em 1996. O caso ficou conhecido como “Chacina do Pintolândia”. Ele é albergado e cumpre pena em regime semiaberto no Centro de Progressão Penitenciária (CPP).

“Com essas informações da motivação, da comprovação do furto e de pessoas que teriam ouvido esse senhor Domingão falar que teria flagrado esses meninos tentando furtar porcos, formalizamos os autos e representamos pela prisão, um pouco antes do Natal, e na sexta-feira, dia 29, a Justiça determinou a expedição do mandado. Foi necessário elaborar um plano de ação para executar os mandados, tendo em vista que a área é demasiadamente grande e sabíamos que se corpos estivessem enterrados, demandaria horas ou dias de diligências. Depois do apoio do DHPP, GRI [Grupo de Resposta Imediata], GRT [Grupo de Resposta Tática], Dopes [Departamento de Operações Especiais], DGH e Corpo de Bombeiros, encontramos o local. Dividimos duas equipes e o delegado Cristiano ficou com a área em que está o poço”, disse Miriam Di Manso. Depois de encontrar as ossadas, Di Manso deu início a novas diligências.

Durante o depoimento na delegacia, o suspeito negou ser autor dos crimes, inclusive negou também autoria na “Chacina do Pintolândia”. “As provas são tão robustas, mas mesmo assim ele resiste em contar, alega desconhecimento absoluto em relação aos fatos e até estranheza em relação à ocultação dos corpos. Eu perguntei se ele já tinha sido preso e ele disse que foi condenado aos 76 anos de prisão em razão das quatro mortes e ele se declara inocente desses crimes também”, contou a delegada titular do NIPD.

O suspeito alega também, segundo as investigações da Polícia Civil, que não é proprietário da terra, mas que fez um arrendamento. Ele está na chácara há quatro anos e na região da fazenda desde 2010. (J.B)

Poço foi cavado na propriedade com o intuito de ocultar corpos, diz DGH

Durante coletiva de imprensa, realizada na Cidade da Polícia, no fim da tarde de ontem, dia 4, o titular da Delegacia-Geral de Homicídios (DGH), delegado Cristiano Camapum, esclareceu que o poço em que foram encontradas as ossadas não estava próximo da sede da chácara, mas foi cavado em local escondido, coberto pela vegetação. Ele tinha uma tampa improvisada com tábuas e objetos.

Para chegar ao local, a Polícia Civil fez uma verdadeira varredura na área correspondente à chácara e à fazenda. “A gente andou pela área da fazenda e verificou que o capim estava derrubado e tinha trechos de caminho, como se pessoas tivessem sido arrastadas para aquele local. Cruzamos os caminhos até chegar a um determinado local. Contamos com o auxílio de dois bombeiros e a gente conseguiu achar o buraco que estava totalmente camuflado”, revelou a autoridade policial.

O poço tem profundidade de três a quatro metros e os corpos foram tão bem escondidos que nem os urubus conseguiram encontrá-los. “Como se fosse uma cisterna, sem água, mas estava tão tampado que a gente observou que tinha urubu voando por cima, como se estivessem tentando saber de onde vinha aquele odor. Nem o urubu conseguiu localizar o poço”, acrescentou Camapum.

Durante as buscas, os policiais perceberam que ao lado do poço tinha uma árvore que estava enfestada de varejeiras, indicando que o material podre poderia estar naquele local. “Nós solicitamos reforço aos bombeiros e agradecemos ao coronel Doriedson que destacou uma força de mais de 20 bombeiros que limparam a área, aí sim foi possível ver todo o diâmetro da cisterna”, salientou o delegado.

Nas ações, a Polícia Civil confirmou que se trata de três corpos, no entanto, vai aguardar os laudos porque há possibilidade de outras vítimas terem sido jogadas no buraco. “A princípio, nós estávamos buscando esses dois adolescentes desaparecidos, mas a investigação do NIPD [Núcleo de Investigação de Pessoas Desaparecidas] levantou que pode ter outras mortes relacionadas ao mesmo investigado porque outras pessoas que trabalhavam para ele teriam sumido. Portanto, os corpos podem ser dos adolescentes e de outra pessoa que prestou serviços para o dono da fazenda. Não é de se estranhar se encontrássemos pelo menos quatro corpos no mesmo local. A ação foi exitosa”, observou Cristiano.

Há indícios de que cal, usado em construções e pinturas, teria sido jogada dentro do poço para acelerar a decomposição dos corpos. “Com isso, a prova até se perderia em um curto período de tempo, então obtivemos sucesso em conseguir os restos mortais, configurando, efetivamente, o crime de homicídio”, complementou o delegado da DGH.

O Núcleo de Investigação de Pessoas Desaparecidas segue nas investigações para identificar os suspeitos. Os corpos das vítimas estão no Instituto de Medicina Legal. “Possivelmente os corpos sejam identificados somente por meio do exame de DNA, o que requer mais tempo, tendo em vista que é uma especialidade de exame que o material é colhido aqui e analisado fora do Estado”, revelou a delegada Miriam Di Manso.

Além disso, a Polícia Civil contou que precisa localizar um idoso chamado de Júlio, que trabalhou na fazenda e está desaparecido há alguns meses, e um caseiro, chamado Júnior, que também trabalhava na propriedade do suspeito e sumiu recentemente. “Pedimos a esses dois desaparecidos que trabalharam para 'Domingão' que se virem a reportagem, que entrem em contato com as Delegacias, porque precisamos excluir a possibilidade de estarem entre as vítimas”, reforçou Camapum.

Foram encontrados objetos junto aos corpos que podem contribuir com o reconhecimento, inclusive um aparelho celular que também estava dentro do poço. A Polícia acredita que os homicídios tenham sido praticados com requintes de crueldade.

A Polícia Civil descartou as chances dos corpos serem dos sete detentos que estão desaparecidos da Penitenciária Agrícola de Monte Cristo (Pamc) desde o dia 24 de abril do ano passado.

AÇÃO CONTÍNUA – O comandante do Corpo de Bombeiros Militar de Roraima (CBMRR), coronel Doriedson Ribeiro, comentou o trabalho realizado pela corporação durante toda a manhã dessa quinta-feira. As equipes fizeram o resgate das ossadas, no entanto, destacou que os trabalhos continuam em outras áreas da mesma propriedade.

Os bombeiros estão acompanhando a investigação em curso da Polícia Civil, em busca de mais corpos. Considerando que, alguns populares que vivem na área em que o poço está localizado, foram intimados e deram depoimentos à DGH e NIPD, que integram o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).

Os funcionários de uma propriedade próxima afirmaram que nunca ouviram qualquer barulho estranho que remetesse aos crimes, nem mesmo sentiram o mau cheiro dos corpos durante o processo de decomposição. Há muita desconfiança e medo por parte de quem mora próximo à chácara onde os ossos foram encontrados, por considerar que o dono da propriedade é um indivíduo de alta periculosidade, que tem um histórico de homicídios praticados. (J.B)

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