NOVA INVESTIGAÇÃO
Delegadas apontam contradições em depoimento de bombeiro civil
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Novo inquérito será instaurado para apurar se Denílson Simões realmente foi sequestrado ou se forjou o próprio desaparecimento
Por Luan Guilherme Correia
Em 28/12/2017 às 01:47
Delegadas responsáveis pelo inquérito afirmaram que Denílson Simões não apresentava estado de saúde compatível com quem teria sido sequestrado (Foto: Nilzete Franco)

A Polícia Civil terá muito trabalho até concluir o caso do suposto sequestro do bombeiro civil Denílson Simões do Nascimento. Após ficar quase um mês sumido, ele reapareceu na sexta-feira passada, 22, e na terça-feira, 26, prestou depoimento em que afirmou ter sido mantido em cárcere privado e, depois de ter fugido, ficado vários dias escondido em uma área de mata entre os municípios de Mucajaí e Iracema.

A versão de Denílson, no entanto, não convenceu totalmente os investigadores do Núcleo de Investigação de Pessoas Desaparecidas (NIPD) e o caso foi transferido para o Grupo de Repressões as Ações Criminosas Organizadas (Graco), também da Polícia Civil, que instaurou novo inquérito para apurar se o bombeiro realmente foi sequestrado ou se forjou o desaparecimento.

No sábado, 23, um dia após reaparecer, ele foi submetido a exames de corpo de delito no Instituto de Medicina Legal (IML), em Boa Vista. Em coletiva de imprensa na manhã de ontem, 27, a delegada Miriam Di Manso afirmou que, apesar de o bombeiro civil ter dado informações precisas sobre os supostos sequestradores, ele apresentou estado de saúde incompatível com a versão inicial. “Ele declarou que foi sequestrado, mantido em cárcere privado e que fugiu ficando vários dias na mata.

Se levarmos isso em consideração, podemos dizer que foi uma organização criminosa que praticou o sequestro. Mas o estado de saúde que ele apresentou depois de ter sido privado de alimentação tanto tempo no meio do mato não é compatível”, disse.

Outra contradição encontrada pela polícia durante o depoimento do bombeiro foi em relação às lesões apontadas pelo laudo pericial do IML, que identificou leves hematomas nos punhos e tornozelos que teriam sido causados há uma semana. Denílson revelou, entretanto, que sofreu as lesões enquanto estava em cativeiro. “Isso gerou incompatibilidade, porque ele disse que ficou apenas cinco dias no cativeiro. Em tese não existiriam as lesões se tivessem sido causadas na data que ele disse”, afirmou a delegada.

A Polícia Civil informou que não há prazo para a conclusão do inquérito e que, se confirmada a versão do bombeiro civil, pedirá a prisão dos autores do sequestro. Caso contrário, Denílson irá responder por falsa comunicação de crime e denunciação caluniosa, com o agravante de instauração de inquérito policial. “Não temos histórico de ocorrências de sequestro em Roraima e toda essa história movimentou a máquina pública em torno do caso. São vários dias que tentamos apurar o caso da melhor forma possível e, se não for confirmada a versão, ele vai responder”, destacou a delegada Francilene Lima, que integra o Graco.

O CASO - O bombeiro civil e ex-militar do Exército estava sumido desde as 12h30 do dia 27 de novembro, uma segunda-feira, quando foi visto pela última vez nas proximidades de um posto de combustível localizado na Avenida Princesa Isabel, bairro Santa Tereza, zona Oeste da Capital, a alguns quarteirões de sua residência.

No dia 4 de dezembro, a Polícia Civil instaurou inquérito e iniciou as investigações. Equipes do Núcleo de Inteligência da Polícia Civil e do Departamento de Inteligência da Polícia Militar, além de equipes da Segurança Pública do Estado empenharam-se na tentativa de desvendar o caso, até que Denílson reapareceu no dia 22 de dezembro. (L.G.C)

Bombeiro toma remédio controlado e contou que se alimentou de frutas e peixes na mata

Denílson Simões revelou em depoimento à polícia que quatro pessoas teriam participado do suposto sequestro contra ele. Entre elas, uma mulher teria sido responsável por abordá-lo em via pública e o obrigado a caminhar vários metros até que três homens o teriam levado em um carro. “Ele disse que a mulher estava com uma camisa dele e teria ameaçado sua esposa, por conta disso foi com ela. O que sabemos é que ele pode ter sido confundido com um policial, porque se declara como comandante do bombeiro e pode ter sido arrebatado pelas organizações criminosas nesse sentido”, contou a delegada Miriam Di Manso.

Apesar de afirmar ter perdido a noção do tempo enquanto foi mantido em um cativeiro, ele relatou à polícia ter ficado 21 dias em uma mata, onde teria sobrevivido se alimentando de frutas e peixes na região até encontrar uma fazenda localizada entre Mucajaí e Iracema. No local, teria pedido ajuda a uma idosa e telefonado para a esposa, também bombeiro civil, que foi buscá-lo. “Ele alegou que tem quatro pontes de safena e toma medicamentos para controlar a aceleração do coração, para pressão alta e anticoagulante. Ele ficou privado dessa medicação por 25 dias e disse que perdeu 15 quilos, mas não temos como confirmar”, frisou. (L.G.C)

Não houve pedido de resgate durante suposto sequestro, diz delegada

A informação de que criminosos teriam pedido R$ 100 mil para libertar o bombeiro civil do cativeiro não foi confirmada pela Polícia Civil. Segundo a delegada Miriam Di Manso, a família recebeu telefonema de detentos do Rio de Janeiro após colocar números pessoais na internet à procura de Denílson. “Isso não pode ocorrer. O ideal é que a família procure a polícia após o desaparecimento e, depois disso, nós divulgamos os números da própria polícia. Caíram no golpe que várias pessoas sofrem, pois os bandidos tinham as informações que a pessoa havia desaparecido, mas oficialmente não houve pedido de resgate”, afirmou.

Conforme Miriam, durante as investigações, foram colhidas várias imagens de estabelecimentos próximos de onde Denílson teria desaparecido, mas nenhuma flagrou o momento do sequestro. “Conseguimos todas as imagens possíveis, mas infelizmente o sistema de câmeras privado e público é falho, nenhum dos circuitos captou esse momento. Temos muito trabalho para identificar os autores e pedir a prisão, como também a não confirmação do sequestro”, frisou. (L.G.C)

Defesa alega que bombeiro civil é especialista em sobrevivência e nega sequestro forjado

A reportagem da Folha entrou em contato com a defesa do bombeiro civil Denílson Simões para pedir esclarecimentos sobre as contradições apontadas pela Polícia Civil. Por telefone, o advogado Michael Ruiz alegou que seu cliente é especialista em sobrevivência na selva e negou a possibilidade de o sequestro ter sido forjado. “Ele foi tenente do exército e é especialista em sobrevivência, diferente de uma pessoa comum que se perde na mata.

Tem preparo e qualificação para ficar na floresta. Não posso dizer os detalhes, mas ficou bem claro para a polícia identificar e pegar os culpados para acabar com a notícia de que foi forjado”, afirmou.

Ruiz informou que o bombeiro civil não teria motivo algum para tramar o próprio sequestro. “Cinco dias antes de ser sequestrado, ele inclusive ajudou a aprovar a legislação em Mucajaí que favorece os bombeiros civis. Ele não tem seguro de vida, não tem dívida e nem motivo para justificar o sequestro forjado”, pontuou. (L.G.C)

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