Por Jessé Souza
Em 04/10/2017

Uma ambição de desconfiança

Quem conhece as escolas públicas sabe das dificuldades pelas quais gestores e professores encaram diariamente para conseguir trabalhar com o mínimo de dignidade, embalando sonhos que povoam a mente de um educador comprometido não só com a profissão, mas com o objetivo de formar cidadão para construir uma sociedade melhor.

Quem é ativo nas redes sociais certamente já se deparou com professores postando suas fotos corrigindo provas ou elaborando planos de aula em pleno fim de semana de sol, enquanto muitos estão se divertindo com sua família ou enchendo a cara no barzinho da esquina ou mesmo nos sítios de amigos e balneários públicos.

Mas esse afinco nunca é recompensado porque as escolas não dispõem do mínimo para que estes profissionais desempenhem suas funções ainda que longe do ideal, com laboratórios de informática (quando tem) mais parecendo um museu de computadores da década de 90, instalações ruins, falta de materiais básicos e a violência rondando a sala de aula.

No interior do Estado, nos lugares onde o poder público demora a chegar (ou nunca chega), a situação é muito pior, onde o problema já começa no transporte escolar, que nunca funciona como deveria. Laboratório de informática é impensável e internet um sonho distante. Sem contar com os prédios caindo aos pedaços.

Mas eis que o Governo do Estado lança o RR Educa, um projeto ambicioso que promete aulas virtuais com aplicativo e tudo. Tenho filhos estudando em escolas públicas e sei que isso pode até ser um projeto sério de governo, mas muito (muuuuiiito) distante da realidade da maioria absoluta das escolas, impossível de ser concretizado diante do que temos.

Pais de alunos podem até ficarem animados, mas há uma desconfiança grande de que esse projeto possa estar sendo preparado apenas para um grupo seleto de escolas, que servirão de vitrine às vésperas de um ano eleitoral. As demais ficarão apenas com o sonho de ao menos terem um data show para lembrar de que estamos na Era da informática.

Quem tem filho estudando na rede pública sente que seria necessário primeiro garantir estrutura mínima para todas as escolas, indistintamente, com tudo funcionando, antes de partir para um projeto ambicioso, que cheira mais a marketing a um programa que visa reduzir a reprovação e o abandono de sala de aula.

A sociedade torce para que o projeto realmente dê certo, mas a situação dura das escolas não permite que os pais e mães sonhem muito. Os professores comprometidos com sua profissão sabem que, com a sala de aula que eles enfrentam, os pesadelos são muito mais fortes do que os sonhos na hora de encostar a cabeça no travesseiro para dormir.

*Jornalista
jesseroraima@hotmail.com
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Jessé Souza
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